Roberto Sganzerla: “As carteiras digitais já lideram os pagamentos globais e desafiam a predominância dos cartões”

Especialista em Marketing analisa relatório da Worldpay e aponta que no Brasil, apesar do PIX, a tendência global deve se consolidar também nos PDVs

ALEXANDRE PELEGI

O Global Payments Report 2024, produzido pela Worldpay, é uma das principais referências internacionais sobre tendências e hábitos de consumo nos meios de pagamento. O estudo acompanha anualmente a evolução do dinheiro em espécie, dos cartões e das novas formas digitais de pagar em mais de 40 mercados, revelando projeções até 2027.

A edição mais recente mostra que as carteiras digitais já representam metade de todo o valor gasto no e-commerce global e vêm ganhando espaço também nos pontos de venda físicos. Para analisar esses números e projetar como o Brasil e a América Latina se inserem nessa tendência, Alexandre Pelegi, do Diário do Transporte, conversou com o especialista em Marketing Roberto Sganzerla (foto abaixo).

Leia os principais trechos da entrevista:

Diário do Transporte – O relatório mostra que as carteiras digitais já respondem por 50% dos pagamentos no e-commerce global. O que explica esse avanço tão rápido?

Roberto Sganzerla – O consumidor busca conveniência e segurança, e as carteiras digitais entregam exatamente isso. Elas eliminam a necessidade de digitar dados a cada compra e ainda oferecem camadas adicionais de proteção. Em 2023, esse método movimentou mais de US\$ 3,1 trilhões só no comércio eletrônico. E o dado mais relevante é a projeção: até 2027, o volume global deve chegar a quase US\$ 25 trilhões, somando transações no e-commerce e nos pontos de venda. Estamos falando de uma transformação sem precedentes no varejo mundial.

 

Diário do Transporte – O relatório também mostra que atualmente as carteiras digitais já representam 50% das transações globais no e-comerce, e nos pontos de venda físicos representam 30% das transações globais. Isso significa que elas vão ultrapassar os cartões em breve?

Sganzerla – Essa é a tendência. Em 2023, as carteiras digitais movimentaram mais de US$ 10,8 trilhões nos PDVs, e a previsão é que cheguem a US$ 19,6 trilhões em 2027. Hoje, cartões de crédito (27%) e débito (23%) ainda têm grande relevância, somando metade dos gastos nos pontos de venda. Mas o crescimento das carteiras é mais acelerado: 16% ao ano, contra 4% dos cartões. Isso mostra que a ultrapassagem não é uma hipótese distante, é uma realidade anunciada.

 

Diário do Transporte – E como fica o dinheiro nesse cenário?

Sganzerla – O dinheiro segue relevante, mas em declínio. Em 2023, ele ainda representou 16% dos gastos globais em PDVs, cerca de US$ 6 trilhões. A previsão é que caia para 11% até 2027. Em mercados emergentes, o dinheiro ainda é essencial para milhões de pessoas sem acesso bancário. Mas mesmo nesses países, a digitalização avança rápido, o dinheiro não desaparece, mas perde espaço ano a ano.

 

Diário do Transporte – E qual é a situação na América Latina, segundo o relatório?

Sganzerla – A América Latina mostra um contraste interessante. No e-commerce, o cartão de crédito ainda é o meio mais usado, mas as carteiras digitais já aparecem em segundo lugar. Nos PDVs, a região ainda é bastante dependente de cartão e dinheiro. Porém, a projeção do relatório é clara: até 2027, as carteiras digitais devem se tornar o principal método de pagamento também nas lojas físicas na América Latina. Isso é impulsionado por soluções como Mercado Pago, que já se consolidou como líder regional.

 

Diário do Transporte – O Brasil tem o PIX, que não existe em outros países na mesma escala. Como isso muda o jogo?

Sganzerla – O PIX é um caso singular. Ele transformou o Brasil em referência global em pagamentos de conta a conta (A2A). Segundo o relatório, esse modelo prospera em países com apoio dos bancos centrais, como Índia e Brasil. Aqui, em pouco tempo, ele reduziu a dependência de cartões e dinheiro para pagamentos cotidianos. Mas isso não elimina a tendência das carteiras digitais: elas podem incorporar o PIX como funcionalidade. O que teremos é uma convergência — carteiras digitais que funcionam com PIX. E isso vai acelerar ainda mais a adesão, especialmente nos PDVs.

 

Diário do Transporte – O relatório também menciona que os cartões seguem fortes dentro das carteiras digitais. O que isso significa?

Sganzerla – É um ponto crucial. Quando o consumidor paga com Apple Pay, Google Pay ou PayPal, muitas vezes o cartão de crédito ou débito é o meio de financiamento por trás da transação. Então, os cartões perdem espaço como meio direto, mas continuam relevantes como meio indireto dentro das carteiras. Em mercados maduros, como EUA, Reino Unido e Canadá, os dados mostram isso claramente. Ou seja: não é que o cartão vai desaparecer, mas sim que sua forma de uso está mudando.

 

Diário do Transporte – Diante desse cenário, qual é a mensagem principal do relatório?

Sganzerla – A mensagem é que estamos em plena “era das carteiras digitais”. Elas já são a principal escolha de pagamento globalmente, e até 2027 devem liderar em todas as regiões, tanto no comércio eletrônico quanto nos pontos de venda físicos. O Brasil vive um contexto peculiar, mas não está imune a essa tendência. Assim como o PIX transformou o mercado em poucos anos, as carteiras digitais também vão ocupar um espaço cada vez maior no dia a dia do consumidor brasileiro.

 

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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