ENTREVISTA: Especialista critica fim do Serviço 710 e diz que “hub ferroviário” não faz mais sentido para trens metropolitanos

Com o Grupo Comporte e a chinesa CRRC assumindo a linha 7-Rubi, ligação direta entre Jundiaí e Rio Grande da Serra acaba no próximo dia 28 de agosto de 2025. Para Cláudio de Senna Frederico, este desmembramento é um dos sinais de que, na prática, o projeto de elevar o atendimento da CPTM a padrões de metrô foi abandonado

ADAMO BAZANI

Com o início das operações pela TIC Trens, liderada pelo Grupo Comporte, controlado pela família de Constantino de Oliveira, atualmente maior empresário de ônibus do Brasil, o serviço 710, que “emenda” as linhas 7-Rubi e 10—Turquesa de trens metropolitanos de São Paulo, vai deixar de existir. O Grupo Comporte controla mais de sete mil ônibus no Brasil de empresas como Viação Piracicabana, Nossa Senhora de Penha, Expresso União, BRMobilidade, além de Constantino ser fundador da GOL Linhas Aéreas e operar o VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) no Litoral Paulista, entre Santos e São Vicente.

A data determinada pelo Governo do Estado será no próximo dia 28 de agosto de 2025.

Não são apenas os passageiros que criticam o fim da ligação direta. Especialistas dizem que se trata de um contrassenso e seria possível manter o serviço, mesmo com concessão à iniciativa privada.

O Diário do Transporte ouviu o consultor internacional e vice-presidente da ANTP (Associação Nacional de Transportes Públicos), o engenheiro Cláudio de Senna Frederico, que foi enfático em dizer que os usuários não podem pagar por contratos de concessão à iniciativa privada que poderiam ter sido melhor elaborados, pensando na população.

Para Frederico, este desmembramento de serviços é um dos sinais de que, na prática, o projeto de elevar o atendimento da CPTM a padrões de metrô foi abandonado.

“Uma das vantagens das redes de trens urbanos em relação ao metrô é justamente a flexibilidade de reconfiguração, algo mais próximo ao que ocorre com os sistemas de ônibus. As dificuldades entre concessionários, portanto, deveriam ser resolvidas antes da assinatura dos contratos de concessão ou por meio de mecanismos de compensação financeira, e não às custas de mudanças que impactam diretamente a vida dos passageiros. Fica ainda em aberto a reflexão sobre alternativas de modelos de concessão mais flexíveis e sobre o aparente abandono do projeto original de transformar as linhas urbanas da CPTM em verdadeiras linhas de metrô”

O Grupo Comporte, juntamente com a chinesa CRRC, assumiu a concessão do TIC (Trem Intercidades) entre São Paulo e a região de Campinas, que contempla a construção da linha de trens de maior distância e também a operação da linha 7, orginalmente com o trajeto Jundiaí – Francisco Morato – Franco da Rocha – Luz.

A partir de 28 de agosto de 2025, todos os passageiros serão obrigados a descer na estação Barra Funda, na zona Oeste, e trocar de trens para completar a viagem. Para seguir sentido Jundiaí ou Rio Grande da Serra, os passageiros farão a transferência no mesmo nível nas plataformas 5 e 6.

O serviço 710 teve início em maio de 2021, remete a um trecho da primeira ligação ferroviária do Estado de São Paulo, a Santos Jundiaí que começou a operar em 1867 a partir da Vila de Paranapiacaba, e atualmente beneficia cerca de 170 mil passageiros por dia que vão perder a oportunidade de ligações diretas.

O especialista disse que a reunificação das linhas de trens foi fruto de investimentos que começaram em 1994, com a Operação Centro. Assim, o fim do Serviço 710 seria, na prática, um retrocesso.

O sistema de linhas que terminam no centro das cidades é considerado arcaico, mas persiste em várias partes do mundo devido às dificuldades e ao alto custo de obras como a realizada em Munique. Em São Paulo, essa lógica também existia: as antigas linhas da Central do Brasil encerravam-se no Brás, enquanto as da Sorocabana terminavam na Júlio Prestes. Com a Operação Centro, iniciada em 1994, os investimentos visaram eliminar essa separação e integrar os dois sistemas, tornando-os semelhantes à linha Santos–Jundiaí. Essa, por sua vez, deu origem às linhas 7 e 10 da CPTM, que agora correm o risco de serem seccionadas, apesar de sua vocação original como ligação contínua entre o noroeste e o sudeste da capital. – explicou.

O principal motivo para o fim o serviço é a dificuldade para cálculo da remuneração e equilíbrio econômico para a concessionária, já que a linha 7-Rubi passa a ser de responsabilidade da TIC Trens, e a linha 10-Turquesa continua com a operação e gestão da estatal CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos).

Oficialmente, o Governo do Estado fala na criação de um “hub ferroviário” na estação Barra Funda e que a medida traria ganhos de eficiência, como redução de intervalos em linhas e serviços, como o Expresso Linha 10, que consiste na operação, nos horários de pico, de um trem com menos paradas em um trecho da linha 10, atendendo apenas às estações Santo André, São Caetano do Sul e Tamanduateí. Além das linhas e do Expresso Aeroporto da CPTM, a estação Palmeiras-Barra Funda recebe também as linhas 3-Vermelha de metrô e 8-Diamante de trens metropolitanos. A estrutura contempla ainda tem terminas de ônibus, com linhas municipais da capital paulista (SPTrans) e metropolitanas intermunicipais (Artesp), além dos rodoviários intermunicipais (Artesp) e interestaduais e internacionais (ANTT).

Frederico disse que o conceito de “hub ferroviário” não faz mais sentido para trens metropolitanos.

“O termo “hub ferroviário” faz sentido em ligações interurbanas, mas não se aplica às linhas da CPTM, que funcionam de maneira semelhante ao RER de Paris e a algumas linhas mais longas do metrô de Londres. Quando o metrô de Munique foi construído, na mesma época do de São Paulo, havia dois terminais de S-Bahn, equivalentes à CPTM, localizados a leste e a oeste do centro. O grande avanço foi a construção de um túnel entre os dois terminais, permitindo que os trens passassem a operar em rotas contínuas, com estações no próprio centro da cidade que funcionam como U-Bahn, o metrô. Esse modelo remonta ao primeiro metrô do mundo, o de Londres, cuja linha inicial foi criada justamente para ligar duas estações ferroviárias distintas e reduzir o trânsito de passageiros que precisavam fazer a conexão” – explicou.

Nem foi colocado em prática e o fim do serviço já gera preocupações nos passageiros. Se a situação não vai ficar fácil para quem mora no ABC, cuja maior parte da demanda que vai até o Brás e a Luz continua sendo atendida e há as opções de integração com o metrô em Tamanduateí e os trólebus e ônibus do Corredor ABD para São Paulo, pior será para quem vem das regiões de Francisco Morato e Franco da Rocha que possuem ainda menos alternativas. Mesmo tendo como destino só a região central da cidade de São Paulo, será obrigado a trocar de trens para completar a viagem.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Felipe H. disse:

    A população deveria se revoltar! Na hora de desembarcar dos trens devem fazer um enorme protesto, assim esse Tarcísio de Freitas voltaria atrás… a população não deve ser feita de trouxa!

  2. Felipe H. disse:

    Todas as concessões de trens e metrô em São Paulo se mostram lesivas; quando não é reequilíbrio bilionário, é falta de integração (que sempre existiu); ruim para passageiros; ruim para profissionais do setor que veem suas condições de trabalho serem precarizadas.

  3. Dirceu Máximo da Silva disse:

    Isso é inaceitável, pois , essa operação vai estrangular as plataformas da Barra Funda vai ser um caos….

  4. Araujo disse:

    Para quem não utiliza trem, nem faz pesquisa com usuários para tomar decisões simples, é fácil. Dá forma como está hoje, eu tenho, dentre uma das opções, ir ao Brás, conseguir um lugar para sentar e seguir viagem. Seguindo o que entendi que deverá ocorrer, terei que ir para a Barra Funda, onde há enorme concentração de passageiros, que vão para universidade, fórum, Call Center, rodoviária. A plataforma vive lotada, não tenho dúvidas que vai piorar.

  5. Marli disse:

    Esse Tarcísio é péssimo! Quer privatizar tudo! Arrecadar sem pensar no bem estar da população! Ele deveria usar a linha 7 Rubi para saber como o povo viaja esmagado.
    Não faz nenhuma melhoria!
    Fora Tarcísio!

    1. Jatiel Oliveira disse:

      Pior que nem arrecadar arrecada, gera mais gasto pro governo e pra população e não melhora em nada as condições.

  6. Jota disse:

    Tem coisas das quais o poder público nao deveria poder abrir mão. Infraestrutura de transporte é uma delas.

  7. Rodrigo Zika disse:

    O pessoal reclama do serviço 710 acabar, mas ao invés de cobrar a concessionária pra ver se mantém reclama do governador, sendo que a linha entrou na concessão para ter o trem intercidades, então precisa saber o que reclamar.

    1. Leilson da Costa disse:

      A concessionária vai male male fazer o que está no contrato, vc acha que ela vai fazer algo que possa diminuir o lucro dela por mais que seja bom pra população? Isso é sonho, tem que ser cobrado o governador sim pois foi ele que forçou essa concessão que não vai ser tão benéfica assim quanto ele e outros estão pintando.

    2. Arys disse:

      Como reclamar para uma concessionária?
      Temos que reclamar para o Político que fez a concessão sem conhecimento do que eu melhor para a população, para os usuários. Já fez reclamação para a concessionária ENEL??? Não estão nem aí, eles fazem o que querem.

  8. Marcão Italiano disse:

    Mais uma vez se mostra que concessão só serve para encher o bolso dos amiguinhos e deixar a população no sofrimento .

    “Ah mas toda mudança gera desconforto, depois melhora”. Povo está cansado de sofrer, pra que mexer em algo que está bom ? Busque melhorar o que está caótico! São Paulo está a merce de bandidos, fluxos para venda e arrecadação com drogas, o cidadão de bem não consegue dormir!! Não se tem uma lei efetiva para combater esses carros que passam na rua igual um trio elétrico tirando a paz de todos. Vizinhos ligam música de palavrões na maior altura e deixam ligado até a madrugada e vc chama a polícia eles nem vem, quando vem não fazem nada efetivo e voltam a ligar o som.
    Nos transportes,venda de passagens ilegais, o crime organizado tem maquininhas próprias que vendem bilhete.

    Mas não, vamos prejudicar mais o povo.

    Uma piada…
    De mal gosto

  9. Marcones Barbosa disse:

    O governador Tarcísio não está preocupado com o passageiro mas sim em beneficiar os empresários, que vão faturar bilhões por ano mais subsídios do governo.
    Aí fica fácil governar desse jeito.

  10. Sérgio Araujo disse:

    Infelizmente, para os passageiros da região de Franco da Rocha e Francisco Morato, sempre teve essa obrigação de trocar de trens. A falta de consideração com essa população é antiga e persiste. Quantas vezes temos que descer em Morato, para poder seguir ? Quantas vezes passa uma composição vazia que não atende aos passageiros na plataforma? Que esses gestores tenham humanidade e boa vontade com a população.

  11. Sou o Antonio Donizeti Pafume da webradioabc, e acho um ABSURDO O FIM DO SISTEMA 710 , isto é ideia de quem não utiliza o sistema. Quem paga o preço e sempre a população. E pior um sistema direto de um único trem , vai passar a ser 3 . Aumentando muito o tempo de trajeto. Tudo por GANÂNCIA esquecendo que foram eleitos para fazer o MELHOR e não o PIOR .

  12. Clovis disse:

    É uma decisão de Gerico. Que me perdoe o pobre animal. Vão criar um tumulto entre BarraFunda e Luz. Parabéns aos gênios.

  13. Lilian Moreira disse:

    É impressionante! Ao invés de melhorar para ajudar a população, ha muito cansada, só pioram e dificultam a nossa vida. Farta! Indignada!

  14. Bruno Macena disse:

    ✅✅✅ Antigamente a 7 ia ate a LUZ, depois estenderam ate o BRÁS e por fim ligaram com a linha 10.
    Se PELO MENOS voltassem a parar na Luz, estaria satisfatório (pensa alguem que quer pegar a linha azul na Luz vai ter que pegar o trem na barra funda pra andar UMA estacao).
    Nao sei que primata calculou que na Barra Funda vai ser melhor, mas pode ter certeza que eles vão voltar atrás!!!

  15. Reginaldo Renzon Queiroz Nogueira disse:

    O plano correto seria estender a cobertura do ramal em questão até a Luz ou Brás,para fazer sentido o desmembramento. Colocar apenas o custo como principal motivo, desconsiderando o volume de passageiros nos dias úteis,é no mínimo incoerente e anti-econômico. Vai gerar mais despesas com infraestrutura,treinamento e ainda vai gerar camadas de irresponsabilidade nos ramais. Quem vai operar o controle de tráfego? Lembro como tiveram dificuldade para integrar a CPTM e a FEPASA…

  16. Arys disse:

    Infelizmente os nossos políticos não utilizam o transporte público, não sabem a dificuldade que enfrentamos. Fazer baldeação é uma grande perda de tempo para os usuários. A integração das linhas 7 e 10 foi maravilhosa, agilizou muito o nosso tempo.
    Voltar atrás é um grande retrocesso, isso é coisa de político que não está nem aí com as pessoas que moram em São Paulo, que são usuários dos trens e metrôs, além de que, quem precisar pegar as linhas de Metrô Azul ou Amarela terão que fazer uma baldeação a mais, inconcebível, deveriam ter analisado melhor antes de efetuarem a concessão.

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