Trólebus seguem com fôlego globalmente: expansões na Estônia, França e Canadá mostram vitalidade do modal
Publicado em: 16 de agosto de 2025
Enquanto isso, em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes anunciou o fim da operação do sistema local com a chegada do VLT
ALEXANDRE PELEGI
Colaboração: ADAMO BAZANI
Enquanto no Brasil especialistas se preocupam com a continuidade do trólebus na capital paulista, cidades de diferentes continentes reforçam seus investimentos no modal elétrico sobre fios, que completa mais de um século de existência, mas segue atual diante da necessidade de reduzir emissões e custos de operação em corredores de alta demanda.
Nesta semana, três cidades de Estônia, França e Canadá anunciaram a compra de trólebus para seus sistemas de transporte.
Tallinn (Estônia): 30 novos veículos da Škoda
A capital da Estônia encomendou 30 novos trólebus da fabricante tcheca Škoda Transportation, com previsão de entrega a partir de maio de 2026. O contrato, que pode chegar a 70 unidades, inclui veículos articulados e convencionais.
A Škoda, fundada em 1859 em Plzeň (República Tcheca), é parte do grupo PPF e está entre os maiores fabricantes europeus de material elétrico sobre trilhos e pneus, com presença em mais de 30 países.
Nancy (França): retorno com frota híbrida da Hess
Após dois anos sem um sistema estruturado de transporte guiado, a cidade francesa de Nancy inaugurou em 5 de abril de 2025 o seu novo trólebus, colocando fim ao período de transição iniciado em março de 2023, quando os antigos bondes Bombardier foram retirados de circulação. O lançamento marcou o início de uma nova etapa para a mobilidade da região metropolitana da Grande Nancy.
A administração local optou pelo trólebus LightTram, fabricado pela suíça Hess, empresa fundada em 1882 e especializada em veículos elétricos de grande capacidade. Entre as principais características do modelo estão:
- Comprimento de 25 metros, com capacidade ampliada para atender grandes volumes de passageiros;
- Sistema de detecção de pessoas em pontos cegos, capaz de identificar pedestres e ciclistas;
- Câmeras substituindo retrovisores, aumentando a visibilidade e reduzindo riscos ao motorista;
- Cabine fechada para o condutor, garantindo maior segurança e foco na operação;
- Assentos à prova de vandalismo, reforçando a durabilidade do interior;
- Foles translúcidos, permitindo entrada de luz natural e melhorando o ambiente interno.
A cor do trólebus foi definida por votação popular: o azul venceu as opções rosa, verde e laranja. O primeiro veículo foi entregue em 12 de março de 2024. Até fevereiro deste ano, 16 das 25 unidades encomendadas já estavam em Nancy. A expectativa da autoridade de transporte é que toda a frota esteja disponível até setembro de 2025, permitindo a operação plena da Linha 1 com a regularidade esperada.
Vancouver (Canadá): megacontrato com a Solaris
Na América do Norte, Vancouver deu um passo além: a TransLink assinou contrato com a Solaris Bus & Coach, do grupo espanhol CAF, para a compra inicial de 107 trólebus Trollino 12. O valor estimado é de € 120 milhões (C$ 181 milhões / R$ 720 milhões), com entregas a partir de meados de 2026.
A Solaris, criada em 1996 na Polônia e incorporada pelo Grupo CAF em 2018, tornou-se uma das maiores fabricantes de ônibus elétricos da Europa. Os novos veículos contarão com tecnologia de tração da polonesa Medcom, especializada em eletrônica de potência, e sistemas de informação ao passageiro da multinacional Luminator, com sede nos EUA e na Alemanha.
São Paulo: contraponto brasileiro
Enquanto o mundo amplia redes de trólebus, São Paulo discute o futuro do sistema
Enquanto diversas cidades pelo mundo expandem suas redes de trólebus, São Paulo se vê diante da possibilidade de reduzir ou até extinguir esse tipo de transporte. Três fatos noticiados nesta semana pelo Diário do Transporte trouxeram novos elementos à discussão.
1 – Estudo mostra desvantagens na desativação
A rede Respira São Paulo, formada por técnicos, acadêmicos e especialistas, apresentou um estudo inédito ao Diário do Transporte que demonstra não ser vantajosa a desativação da rede de trólebus em razão da implantação do VLT (Veículo Leve sobre Trilhos) no centro da capital.
Segundo o projetista em mobilidade elétrica Jorge Françozo de Moraes, responsável pela pesquisa, diversas cidades do mundo já operam VLT e trólebus de forma concomitante, aproveitando ao máximo a infraestrutura elétrica instalada.
O especialista lembra que, enquanto o VLT ficaria restrito à área central, os trólebus atendem regiões mais amplas, chegando às zonas Leste e Oeste.
2 – Linha mais antiga do Brasil pode perder os trólebus
Outro fato que marcou a semana foi a revelação de que a linha 408A10 – Machado de Assis/Cardoso de Almeida, inaugurada em 1949 e considerada a mais antiga de trólebus em operação no Brasil, pode deixar de ser atendida pelo sistema.
A operadora Ambiental Transportes Urbanos protocolou pedido na SPTrans para substituir os trólebus por ônibus elétricos apenas com baterias. A decisão final ainda está em análise pelo órgão gestor.
3 – Seminário do SEESP discute viabilidade do modal
Também nesta semana, o Sindicato dos Engenheiros do Estado de São Paulo (SEESP) promoveu um seminário sobre a importância da manutenção dos trólebus na cidade.
O encontro reuniu especialistas da academia, técnicos e representantes da indústria. Entre as alternativas apresentadas, ganhou destaque o E-trol, modelo que combina operação com bateria e alimentação pela rede elétrica aérea.
Esse tipo de veículo já é utilizado em várias cidades do mundo e fará parte do BRT-ABC, corredor de ônibus em implantação entre São Bernardo do Campo, Santo André, São Caetano do Sul e o Terminal Sacomã, em São Paulo.
Durante seminário realizado no dia 14 de agosto, especialistas internacionais, como Arnd Bätzner (UITP), e representantes do movimento Respira São Paulo defenderam não apenas a preservação, mas a ampliação da rede existente. Relembre:
Já no Corredor ABD, a Next Mobilidade segue no caminho oposto, investindo cerca de R$ 100 milhões na renovação da frota, com trólebus de 21,5 metros fabricados pela brasileira Eletra (empresa nacional especializada em elétricos), com carroceria Caio (Botucatu-SP) e chassis Mercedes-Benz (subsidiária do grupo alemão).
Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes



São Paulo tem o grande privilégio de possuir esta tecnologia já instalada e plenamente operante. Já temos expertise, ferramentais, e mão-de-obra qualificada – atributos que não se consegue de uma hora pra outra.
Nós já temos o básico e essencial, e a próxima etapa é somente planejar e atualizar.
– Lógico que os tempos mudaram, e a aplicação da tecnologia também. Se antigamente fazia sentido operar trólebus de tamanho padron em linhas convencionais e secundárias, hoje não mais.
– Entretanto, e ao mesmo tempo, os trólebus revelam-se como a melhor tecnología a ser aplicada em linhas/corredores estruturais e em BRTs. Sistemas que exigem ônibus robustos e de grande porte, com desempenho ágil e eficiente pra cumprirem seguidas viagens. Condições essas que só a tecnologia Trólebus/E-Troll consegue entregar em ônibus articulados e biarticulados.
É um equívoco esse Nunes desativar os trólebus em São Paulo, enquanto cidades da Europa e do resto do mundo estão modernizando suas frotas, tais como os Trólebus/E-Troll. Lamentável ainda mais, é a desativação e desmantelamento da linha 408-A, a mais antiga de São Paulo.
Parece que temos mais uma Marta na Prefeitura, quando na época ela desativou as linhas de Trólebus da Rua Augusta, Faria Lima, USP e zona norte.
Poder público toma decisões porque somos nós que pagamos a conta
qual o sentido de desfazer um modal que já foi testado validade e aprovado pela população em detrimento a um sistema que sequer foi testado ?