BNDES e Ministério das Cidades projetam quase dobrar acesso ao transporte público de alta capacidade na Grande São Paulo
Publicado em: 15 de julho de 2025
Boletim Informativo detalha progresso do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), com previsão de aumento de 563 km na RMSP até 2054
ALEXANDRE PELEGI
A Região Metropolitana de São Paulo está no centro de um ambicioso plano de expansão do transporte público, que prevê um aumento de 563 quilômetros na rede de transporte público coletivo de média e alta capacidade (TPC-MAC) até 2054. Esta expansão elevará a rede total para 1.309 km, em comparação com os atuais 746 km. O objetivo é ampliar de 8,9 milhões para 13,3 milhões o número de pessoas que utilizarão diariamente corredores de transporte mais eficientes.
A iniciativa, detalhada no Boletim Informativo nº 4 do Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU), é uma parceria entre o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e o Ministério das Cidades. Com a implementação desta “Rede Futura”, o indicador PNT (People Near Transit), que mede o percentual da população que reside a até 1 km de estações de sistemas de TPC-MAC, passaria de 22,1% para 49,6% na região metropolitana de São Paulo. Este indicador foi criado pelo Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento (ITDP).
A ampliação em São Paulo será composta por:
- 147 km de expansão do sistema de metrô;
- 96 km da rede de trens urbanos;
- 257 km de BRT ou VLT (veículos leves sobre trilhos);
- 64 km de corredores exclusivos de ônibus.
Além disso, o indicador RTR (Rapid Transit to Resident), que compara a população urbana com a extensão das linhas de transporte público coletivo de média e alta capacidade, passaria de 36 para 64 na RM de São Paulo, refletindo o ritmo de crescimento da infraestrutura em relação ao crescimento demográfico.
O BNDES ressalta que já está ativamente financiando projetos cruciais na região, como a Linha 6-Laranja, que conta com R$ 12,3 bilhões em crédito e atenderá mais de 600 mil passageiros/dia. Recentemente, também foi aprovado um financiamento de R$ 2,4 bilhões para a primeira fase da expansão da Linha 2-Verde do metrô paulista. O presidente do BNDES, Aloizio Mercadante, destacou que estes investimentos são essenciais para ampliar o acesso a oportunidades, melhorar a qualidade de vida, especialmente das populações mais carentes, e contribuir para o aumento da produtividade e a dinamização da economia.
Contexto Nacional Abrangente
Em nível nacional, o Estudo Nacional de Mobilidade Urbana (ENMU) projeta que as 21 maiores regiões metropolitanas do país têm potencial para expandir em cerca de 2.500 km suas redes de TPC-MAC até 2054. Atualmente, essas 21 RMs somam 2.007 km de rede de transporte público. A expansão nacional incluirá:
- 323 km de novas linhas de metrô;
- 96 km de trens urbanos;
- 1.930 km de sistemas de BRT, VLT ou monotrilho;
- 157 km de corredores de ônibus.
As regiões metropolitanas contempladas no estudo abrangem todas as cinco regiões do país, incluindo Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, Santos, Campinas, São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Vitória, Goiânia, Distrito Federal, Salvador, Maceió, Recife, João Pessoa, Natal, Teresina, São Luís, Fortaleza, Belém e Manaus.
Com a implantação das Redes Futuras, mais de 80% das regiões metropolitanas atingiriam 30% de toda a população residente a até 1 km de estações de TPC-MAC. A média nacional atual é de 13% da população. RM como Baixada Santista, Belo Horizonte, Fortaleza, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo, especificamente, ultrapassariam os 40% de cobertura.
O ministro das Cidades, Jader Filho, ressaltou o foco no fortalecimento do planejamento urbano com base em dados concretos, visando tornar o transporte coletivo mais eficiente, dinâmico e sustentável, garantindo qualidade de vida à população. Ele enfatizou que “reduzir o tempo de deslocamento, com conforto e segurança, transforma a forma como as pessoas vivem, acessam oportunidades e se relacionam com as cidades”.
A elaboração do Boletim Informativo nº 5, entre junho e agosto, focará no detalhamento de cerca de 200 projetos de TPC-MAC com demanda suficiente para ampliar o acesso da população nos próximos 30 anos. Esta etapa incluirá estimativas de investimentos, custos, receitas, benefícios e avaliações econômicas e financeiras preliminares, fornecendo informações estratégicas para o planejamento de longo prazo dos entes públicos.

Desafios e o Cenário Otimizado
Apesar das ampliações de rede, o ENMU reconhece uma tendência de queda no uso do Transporte Público Coletivo (TPC) na maioria das RMs, com uma redução média de 20% e, em algumas, de até 60%. As causas apontadas incluem o crescimento da motorização individual, tarifas elevadas, baixa qualidade do serviço, expansão urbana dispersa, concorrência com aplicativos e mudanças de comportamento pós-pandemia.
Para reverter essa tendência, os projetos e propostas do ENMU visam preservar ou aumentar a participação do TPC, buscando uma mobilidade urbana mais eficiente, com redução do tempo de deslocamento, congestionamentos, acidentes e emissões de poluentes. Para isso, o estudo apresenta o “Cenário Otimizado”, um exercício hipotético que simula a adição de políticas públicas e estratégias que potencializariam os efeitos da ampliação da rede.
Este cenário inclui medidas como:
- Comprometimento de, no máximo, 6% da renda média da população para a tarifa.
- Pagamento de tarifa única, independentemente da quantidade de linhas e rede utilizadas.
- Priorização do TPC com aumento das velocidades operacionais (corredores exclusivos, faixas exclusivas, prioridade semafórica).
- Políticas de desincentivo ao uso de modos motorizados individuais (redução de vagas de estacionamento, restrição de circulação, elevação dos custos).
As simulações indicam que, no Cenário Otimizado, a participação do TPC nos deslocamentos motorizados seria significativamente elevada em todas as RMs, com as políticas públicas ampliando o carregamento do TPC-MAC. Para o conjunto das 21 RMs, o impacto da Rede Futura sobre a Rede Base subiria de 122% para 164% no incremento do número de passageiros embarcados.
Próximas Etapas e Transparência
A próxima etapa do ENMU será a elaboração do Banco de Projetos, que incluirá quase 200 projetos de TPC-MAC nas 21 RMs. Cada projeto terá uma “Ficha de Projeto”, um documento síntese com mais de 100 itens, inspirado no modelo internacional “Five Case Model” (5CM), que permitirá análises estratégicas e a comparação entre diferentes projetos.
As informações e resultados produzidos pelo ENMU serão disponibilizados publicamente no hotsite do BNDES, garantindo transparência para a sociedade. As próximas atividades incluem a conclusão da revisão dos relatórios, o desenvolvimento de funcionalidades do SIG relacionadas ao Banco de Projetos e o início da elaboração das fichas de projetos.
O ENMU busca gerar um impacto positivo no futuro da mobilidade urbana no Brasil, priorizando meios não motorizados e coletivos, e construindo um sistema eficiente, ambientalmente sustentável, seguro, acessível e de qualidade para todos até 2050.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

