Eletromobilidade

UITP Summit em Hamburgo: Sergio Avelleda vê hidrogênio como acelerador da transição para ônibus de emissão zero

Consultor destaca redução no consumo e alta disponibilidade operacional na Europa; a motivação pragmática de Los Angeles; e a evolução tecnológica de fabricantes como a Solaris

ALEXANDRE PELEGI

O Diário do Transporte conversou pela segunda vez nesta terça-feira, 17 de junho de 2025, com o consultor Sérgio Avelleda, diretamente de Hamburgo, Alemanha, onde acompanha de perto o UITP Summit 2025, um dos mais importantes eventos globais sobre transporte público. Avelleda compartilhou suas percepções sobre as inovações e tendências que estão moldando o futuro da mobilidade urbana.

Sócio Fundador da Urucuia: Mobilidade Urbana, Avelleda é Coordenador do Núcleo de Mobilidade Urbana do Laboratório Arq. Futuro de Cidades do Insper. Ele compartilhou suas primeiras percepções sobre as inovações e tendências que estão moldando o futuro da mobilidade urbana.

Após uma conversa anterior na qual abordamos o futuro da automação no transporte público, Avelleda agora compartilha suas impressões e análises sobre o uso do hidrogênio como combustível. Em um dia intenso de aprendizado focado em acelerar a transição para ônibus de emissão zero, Avelleda nos oferece uma visão panorâmica dos avanços práticos e dos desafios que ainda cercam essa tecnologia promissora para a mobilidade sustentável.

 

Diário do Transporte: Em uma conversa anterior abordamos a automação no transporte público. Agora queremos saber suas impressões dos primeiros dias do UITP Summit 2025 em Hamburgo sobre o hidrogênio. Qual sua percepção inicial sobre o uso como combustível para o transporte público?

Sergio Avelleda: O UITP Summit 2025 aqui em Hamburgo tem sido, de fato, um dia intenso de aprendizado, com foco claro em acelerar a transição para ônibus de emissão zero. Minha principal percepção é que, embora ainda existam desafios técnicos, regulatórios e de custo, a curva de aprendizado está acelerando notavelmente. Os operadores começam a enxergar o hidrogênio como uma solução viável, especialmente para linhas longas e com alta demanda energética.

 

Diário do Transporte: Pode dar exemplos dos avanços práticos que foram apresentados, talvez começando pela experiência europeia?

Sergio Avelleda: A Europa, por meio dos projetos JIVE, demonstrou um progresso significativo. Só para contextualizar, JIVE é a sigla para “Iniciativa Conjunta para Veículos a Hidrogênio na Europa”, da União Europeia, que visa implementar novos ônibus movidos a célula de combustível com emissão zero e a infraestrutura de reabastecimento associada em cinco países. Pois bem, o que observamos aqui em Hamburgo é uma redução expressiva no consumo de hidrogênio nas últimas gerações de ônibus. Além disso, a disponibilidade operacional dos veículos a hidrogênio está próxima de 86%, com alguns operadores já alcançando 99%. Isso indica uma crescente maturidade e confiabilidade da tecnologia.

 

Diário do Transporte: Apesar desses avanços, quais são os principais desafios que o setor ainda enfrenta para a expansão do hidrogênio em escala?

Sergio Avelleda: O grande desafio que persiste é a infraestrutura de abastecimento de hidrogênio (HRS) e a logística de fornecimento de hidrogênio verde. Estes são pontos críticos que precisam ser superados para permitir uma adoção em larga escala. O consenso é que zero emissão em escala é possível, mas exige uma integração profunda entre tecnologia, política pública, fornecedores e operadores.

 

Diário do Transporte: Houve algum estudo de caso ou projeto em destaque que ilustra bem essa evolução e os desafios?

Sergio Avelleda: Sim, vários exemplos foram bastante reveladores. Em Barcelona o Transporte Metropolitano de Barcelona (TMB), principal operador de transporte público na capital da Catalunha e na área metropolitana, por exemplo, já opera uma frota de 46 ônibus a hidrogênio e tem um plano de expansão para mais veículos até 2035. A TMB também está realizando uma comparação clara de Custo Total de Propriedade (TCO) entre diferentes tecnologias, como GNC, híbrido, elétrico e hidrogênio. Há inclusive um projeto piloto de retrofit de microônibus a diesel para H2. o principal operador de transporte público em Barcelona e na área metropolitana, incluindo ônibus e metrô

Do outro lado do Atlântico, em Los Angeles (Metro LA – Autoridade Metropolitana de Transportes de Los Angeles), a motivação para o hidrogênio é bastante pragmática. Os FCEBs (Fuel Cell Electric Buses) são vistos como uma solução para garantir alcance e flexibilidade operacional, permitindo manter blocos longos de serviço sem alterar a estrutura da operação. O custo, contudo, ainda é elevado lá: cerca de US$ 1,7 milhão por ônibus e US$ 11/kg de hidrogênio, com apenas 33% sendo renovável atualmente. Para endereçar isso, o projeto ARCHES nos EUA busca estruturar um verdadeiro “hub” de produção verde.

No que diz respeito aos fabricantes, a Solaris Bus & Coach, fabricante europeia de ônibus e trólebus, com foco em veículos de emissão zero e baixa emissão, já comercializou mais de 900 ônibus a hidrogênio na Europa. Eles têm se destacado nas melhorias em segurança, tempo de abastecimento (10-20 minutos) e na integração de novos tanques de H2.

E em Wuppertal (WSW – Wuppertaler Stadtwerke, empresa de transporte e serviços públicos da cidade), na Alemanha, um exemplo de integração vertical é a produção local de hidrogênio a partir de uma planta de waste-to-energy com eletrolisador próprio. Seus próximos passos incluem a expansão de capacidade, a conexão à rede nacional de hidrogênio e a redução do TCO. Só para explicar melhor: waste-to-energy quer dizer “resíduos para energia”, processo de geração de energia, como eletricidade ou calor, a partir do tratamento de resíduos.

 

Diário do Transporte: Para finalizar, qual sua avaliação geral e as perspectivas para o futuro do hidrogênio no transporte público, considerando tudo o que foi discutido no Summit?

Sergio Avelleda: Minha avaliação é que, apesar dos desafios técnicos, regulatórios e de custo que ainda persistem, a direção é clara e promissora. As experiências práticas em diferentes continentes e a evolução tecnológica dos fabricantes mostram que estamos numa curva de aprendizado bastante acelerada. O hidrogênio está se consolidando como uma solução viável e estratégica, especialmente para linhas que exigem maior autonomia e demandam alta energia. Para que a zero emissão em escala se torne uma realidade plena, é fundamental que haja uma integração sinérgica entre tecnologia, políticas públicas de apoio, fornecedores eficientes e operadores engajados. O futuro do transporte público de emissão zero, sem dúvida, verá o hidrogênio como um de seus pilares fundamentais.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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