Você sabia que a garagem impacta nos custos do transporte público?
Publicado em: 29 de abril de 2025
Conheça o caso da Transcap, operadora nas regiões Oeste e Sudoeste da capital paulista, e descubra a complexa trama que afeta o lado financeiro da operação do sistema de ônibus
FÁTIMA MESQUITA – ESPECIAL PARA O DIÁRIO DO TRANSPORTE
Colaboração: ALEXANDRE PELEGI
A pauta mais comum do transporte público costuma ser a tarifa. Mas pouco se fala dos meandros da operação e como itens às vezes relegados ao segundo plano costumam impactar os custos do sistema e, em última instância, o preço final da passagem. Um dos exemplos disso é o “peso” da garagem na conta.
Em agosto de 2017, a Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP), revolucionou o mercado do transporte urbano de passageiros no Brasil ao publicar o “Custos dos Serviços de Transporte Público por Ônibus”, que ficou conhecida como “Planilha ANTP”, adotada hoje em várias licitações do setor.
O documento, padrão-ouro no mercado brasileiro, mostra o passo a passo do cálculo da somatória de tudo que precisa ser adquirido, instalado, utilizado, preparado antes, durante e depois de se colocar um ônibus para circular pelas ruas, inclusive a mão-de-obra. Revela também como, a partir desse número, é possível definir a tarifa de remuneração dos concessionários e, ao final das contas, o que será cobrado do passageiro a cada viagem. Ou o que o poder concedente vai garantir como “tarifa de remuneração”, subsidiando muitas vezes o valor da tarifa para o passageiro.
Custo e risco
Na metodologia consolidada lançada em 2017, a garagem entra como Custo Fixo, e traz, entre outras peculiaridades, um risco sério relacionado a possíveis variações em investimentos ou locações. E há casos práticos em que se vê facilmente como esse risco pode tomar corpo.
A Auto Viação Trancasp, que opera nas regiões Oeste e Sudoeste da capital paulista, por exemplo, tem uma garagem alugada, além de uma história muito interessante que nos remete à época em que o chamado “transporte clandestino” mudou o rumo da cidade de São Paulo.
A formalização do clandestino
Formas não reconhecidas de transporte urbano existiam há décadas, em especial na esquecida periferia da capital paulistana.
Mas a partir da década de 1980 os chamados “perueiros” se multiplicaram de uma maneira incrivelmente acelerada pelas ruas da capital paulista, chegando a ter mais de 6 mil em atividade. Este cenário, vale dizer, aconteceu em muitas capitais brasileiras.

O empresário, Valter Bispo (foto acima), conta que fazia parte desse movimento e que participou do primeiro passo da formalização desses veículos e motoristas, quando eles começaram a formar pequenas cooperativas que muitas vezes terminaram em fusões gerando grandes blocos, como aconteceu em 1998: “Eu era da CooperCap 2000 e a gente ficou um tempo trabalhando na clandestinidade até a época da prefeita Marta Suplicy, que fez o processo licitatório. Na época, a gente fez uma fusão que era a CooperMasp e a CooperCap, formando a Unicoopers, e continuamos nas ruas, fazendo transporte. Até que, em 2015, houve uma exigência contratual da prefeitura, e a gente teve que constituir uma empresa”.
Os primeiros passos rumo à regularização foram dados ainda na gestão da prefeita Luiza Erundina em 1990, com a criação de algumas poucas linhas. Mas a grande virada chegou pra valer cerca de dez anos depois, já na administração da Marta Suplicy, quando as cooperativas passam a operar operando linhas menores, entre os bairros mais afastados e os terminais regionais.
A complexidade das raízes
De lá para cá, muita coisa mudou. A Transcap, por exemplo, ganhou corpo e respeito e hoje é uma empresa estabelecida na zona sudoeste da cidade, onde presta serviços como concessionária em 23 rotas alimentadoras, enquanto traça planos de modernização, mas sem se esquecer das suas raízes.
A Transcap, aliás, ainda mantém algumas características bem próximas mesmo da sua origem, como a existência de cerca de 70 motoristas dos seus quadros que são também proprietários de ônibus.
Além disso, a sua garagem se encontra em um terreno alugado, de propriedade da Unicoopers – aquela cooperativa que surgiu da fusão da CooperMasp com a CooperCap lá atrás na linha do tempo. O aluguel tem um peso considerável na planilha de custos da concessionária, obrigando a Transcap a um desembolso mensal de quase R$ 350 mil (R$ 348.548,84 entre aluguel e impostos) pelos 14.629 m2 de área ocupada pela sede.
Valter Bispo, no entanto, avisa que já se prepara para mudar a garagem de endereço e explica: “Muita gente lá do início não se adaptou ao sistema formal. Ter o compromisso, cumprir com o trajeto, com o número de veículos nas linhas especificadas pelo processo licitatório, as regras das cláusulas contratuais, pagar imposto. Não tinha nenhum compromisso com o público, com o seu cliente, porque ele saía a hora que desse de casa. Então não tinha um organograma de saída das linhas. E ficou assim. A Unicoopers hoje, aliás, está até em guerra de quem é detentor da diretoria, do conselho, cheio de gente lá que não trabalha mais no sistema”.
Traçando a rota futura
Hoje a Viação Transcap está com o acelerador fundo rumo ao futuro. A empresa já tem 56 elétricos em atividade e está prestes a colocar outras 96 unidades para rodar em suas linhas. Também aguarda os retoques finais da sua mudança para o seu novo endereço, a cerca de 5km de distância da sede atual.
No novo espaço de 37.871 m2, a tônica é autossuficiência com responsabilidade social e ambiental, com instalações sob medida para a completa eletrificação da frota, geração de energia própria através da instalação de uma usina solar fotovoltaica, uma estação de tratamento de água, coletiva seletiva de lixo e ainda a continuidade de projetos como o “Ela Conduz, Ela Inspira, Ela Pode”, que busca abrir as portas para a entrada das mulheres na empresa. Porque para quem nasceu lá nos tempos da informalidade, na luta pela sobrevivência, o caminho do futuro é um só, acredita Valter Bispo: de cooperação mútua e responsabilidade com o bem-estar da equipe, com a criação de novas oportunidades e com o cuidado com o meio-ambiente.
Fátima Mesquita, jornalista e escritora, especial para o Diário do Transporte
Alexandre Pelegi, especializado em transportes


A atuação dos perueiros foi tão marcante nas regiões periféricas de São Paulo, que até hoje os coletivos que operam as linhas das antigas cooperativas são chamados de “perua” pela população – seja microônibus, midbus ou até os padrons.