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Monotrilho: Engenheiro aponta riscos e problemas crônicos da tecnologia no Brasil

No dia 08 de março de 2023 dois trens do monotrilho bateram nas imediações da estação Sapopemba, zona Leste de São Paulo

Peter Alouche, profissional com extensa experiência em diferentes modalidades de transporte de passageiros, cita diversos problemas, que vão desde aspectos de segurança operacional e de evacuação, confiabilidade e disponibilidade dos sistemas, até custos de implementação e operação

ALEXANDRE PELEGI

Nesta sexta-feira, 11 de abril de 2025, o Diário do Transporte noticiou mais um problema no monotrilho da Linha 15-Prata do Metrô de São Paulo. Por causa de uma falha elétrica em uma das vias no trecho entre as estações Vila Prudente e Oratório, o operador, que não atua mais a bordo, teve que caminhar pela passagem de emergência para operar o trem em semiautomático. Relembre:

Esta foi uma das muitas falhas do sistema, como tem reportado o Diário do Transporte. Vale lembrar, por exemplo, o choque de dois trens do monotrilho nas imediações da estação Sapopemba, na zona Leste de São Paulo, no dia 08 de março de 2023.

Para jogar luz sobre o assunto, o Diário do Transporte traz uma análise técnica com foco nas particularidades do sistema de monotrilho. Para esta avaliação especializada, ouvimos o engenheiro Peter Alouche, profissional com extensa experiência em diversas modalidades de transporte de passageiros.

A análise aborda a complexidade de engenharia do monotrilho, os aspectos de segurança operacional e de evacuação, as implicações técnicas do uso de rodas de borracha, a confiabilidade e disponibilidade dos sistemas, além dos custos de implementação e operação. Através de sua expertise, o engenheiro Alouche examina as características técnicas que distinguem o monotrilho de outras soluções, oferecendo uma discussão aprofundada sobre sua viabilidade e desempenho no contexto da mobilidade urbana. Suas observações se baseiam na experiência observada em projetos como as linhas 15-Prata e 17-Ouro do Metrô de São Paulo.

Entrevista com o Engenheiro Peter Alouche:

Diário do Transporte: Você tem se manifestado com frequência sobre a tecnologia adotada pelo Metrô de SP para as linhas 15-Prata e 17-Ouro, e quase sempre de forma contundente, chamando a opção do monotrilho de “geringonça”, uma tecnologia obsoleta, perigosa, insegura, importada e poluente…

Peter Alouche: Minhas manifestações frequentes sobre essas linhas se devem à minha preocupação com a segurança, a eficiência e os custos dessa tecnologia, especialmente quando comparada a alternativas como o Aeromovel, que se mostra muito mais promissor em diversos aspectos.

Diário do Transporte: Começando pela complexidade tecnológica, qual a sua avaliação sobre o monotrilho?

Peter Alouche: Do ponto de vista da complexidade, o monotrilho apresenta um desafio ímpar. É uma tecnologia altamente específica para cada fornecedor, o que pode gerar dependência e dificuldades em termos de manutenção e expansão. O veículo carrega seu próprio motor de tração e sistema de frenagem, o que inerentemente aumenta a complexidade embarcada. A particularidade do uso de rodas de pneus especiais para rolamento e guia, juntamente com um sistema de tração e frenagem complicado, impacta fortemente a segurança de circulação. A experiência da Linha 15 do Metrô de São Paulo é um exemplo claro dessa complexidade ainda não dominada no Brasil. E a situação da Linha 17 do Metrô é ainda mais dramática, sem perspectiva de operação. O projeto do monotrilho da BYD para Salvador foi descontinuado pelo Governo da Bahia, e o contrato foi rescindido pelo alto custo. Historicamente, embora tenha tido desenvolvimento no Japão, a tecnologia está em franco declínio.

Diário do Transporte: E no que diz respeito à segurança de circulação e evacuação de passageiros em caso de pane?

Peter Alouche: A segurança é uma grande preocupação. No monotrilho, a segurança de circulação é considerada frágil porque depende das rodas de pneus de borracha não só para sustentar e guiar o veículo, mas também para tração e frenagem. Há um risco evidente de explosão dos pneus e até de incêndio, como infelizmente se confirmou na Linha 15. Mesmo com sistema de sinalização ferroviária, sua eficiência não se comprovou. Em relação à evacuação em caso de pane no elevado, a situação é bastante complicada. A passagem de emergência é estreita, vazada e muito alta, tornando-a impraticável, como demonstraram os testes. A solução acaba sendo acionar os bombeiros, o que é crítico, especialmente se houver risco de incêndio devido aos pneus próximos ao trilho de energia.

Diário do Transporte: O uso de rodas de borracha é um ponto bastante mencionado. Quais os inconvenientes que você observa?

Peter Alouche: Os inconvenientes são significativos. As rodas de borracha contribuem para a poluição atmosférica devido às partículas emitidas. Além disso, geram maior consumo de energia, elevam o custo de manutenção e, principalmente, representam um problema de segurança devido à possibilidade de estouro dos pneus e incêndio. No caso do monotrilho, o atrito no concreto guia também danifica a superfície, exigindo manutenção frequente e liberando partículas poluentes no ar.

Diário do Transporte: Como você avalia a confiabilidade e a disponibilidade operacional dos sistemas de monotrilho?

Peter Alouche: A confiabilidade e disponibilidade da operação do monotrilho são notoriamente muito baixas. Basta observar o que acontece diariamente na Linha 15 do Metrô de São Paulo, que inclusive já ficou parada. O caso da Linha 17, que durante anos ficou paralisada, também é emblemático. A tecnologia do monotrilho apresenta muitos problemas na tração, nos mecanismos de mudança de via, nos truques e nos pneus.

Diário do Transporte: Em termos de custos, o monotrilho se destaca de alguma forma?

Peter Alouche: Infelizmente, não de forma positiva. O monotrilho tem apresentado custos muito elevados. Os custos previstos para as linhas 15 e 17 do Metrô de São Paulo quase dobraram, e os sistemas ainda não estão operacionais. Estima-se um custo de mais de 250 milhões de dólares por quilômetro para o monotrilho.

Diário do Transporte: Para finalizar, considerando os eventos graves que ocorreram com sistemas de People Mover implantados ao redor do mundo, qual a sua análise sobre o monotrilho?

Peter Alouche: As linhas 15 e 17 do Metrô de São Paulo demonstram claramente que o monotrilho possui problemas endêmicos. A situação da Linha 17, que ficou parada por problema gravíssimo de fornecimento de veículos, e os problemas sucessivos da Linha 15, culminando na paralisação por estouro de pneus com causa ainda não esclarecida, são muito preocupantes. Esses eventos graves envolvendo a segurança dos passageiros e a continuidade da operação levantam sérias dúvidas sobre a robustez e a confiabilidade dessa tecnologia em comparação com outras alternativas.

 

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes


QUEM É PETER ALOUCHE

Engenheiro eletricista, formado pela Universidade Mackenzie, mestre em Sistemas de Potência pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), com diversos cursos de especialização em transporte público em universidades e entidades do Brasil, Europa e Japão. Foi durante 35 anos metroviário, assessor técnico da Presidência do Metrô de São Paulo para Projetos Estratégicos, representante da companhia na Associação Internacional do Transporte Público (UITP) e na Comunidade de Metrôs (CoMET). Foi professor titular de linhas de transmissão na Escola de Engenharia da Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e no Mackenzie. Hoje é consultor independente de transporte nas áreas de tecnologia. Tem inúmeros artigos publicados em revistas especializadas do Brasil e do exterior.

 

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