Frota de motos explode no Brasil, acompanhada de aumento alarmante nas internações por acidentes

Especialista da ANTP demonstra a gravidade do problema: quase metade dos proprietários de motos no país não possui habilitação na categoria A, e um volume significativo desses veículos não é licenciado anualmente

ALEXANDRE PELEGI

Um tema urgente e complexo: a segurança dos motociclistas no trânsito brasileiro. Apesar dos esforços para reduzir acidentes e mortes nas vias, um cenário preocupante persiste, com um aumento significativo nos sinistros envolvendo motocicletas.

A proibição do mototáxi em São Paulo reacendeu um debate crucial sobre os riscos associados ao transporte remunerado de passageiros em motos. No entanto, como aponta a Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), essa é apenas uma faceta de um problema muito maior. As estatísticas revelam um crescimento alarmante no número de mortes e internações de motociclistas por lesões no trânsito em nível nacional. Entre 2011 e 2021, a taxa de internações de motociclistas cresceu 56%, evidenciando a seriedade da situação.

Um fator que contribui para essa complexidade é o crescimento expressivo da frota de motocicletas no Brasil e, em particular, em grandes centros urbanos como São Paulo. Paralelamente, constata-se um número considerável de motociclistas não habilitados na categoria A e de veículos não licenciados anualmente, o que desafia as ações de fiscalização e o cumprimento das normas de trânsito.

As ferramentas tradicionais de segurança viária – engenharia, fiscalização e educação – parecem não estar surtindo o mesmo efeito em relação aos acidentes com motocicletas como em outros tipos de ocorrências. A própria ANTP questiona a eficácia dessas abordagens diante do “ambiente” complexo que envolve o uso da motocicleta, influenciado por fatores comportamentais, econômicos e até mesmo pela busca por ganho de tempo e renda.

Nesta entrevista, buscaremos entender as razões por trás desse cenário preocupante, discutir as limitações das estratégias atuais e explorar novas perspectivas e soluções para garantir um trânsito mais seguro para todos, especialmente para os motociclistas. Abordaremos desde a necessidade de uma regulamentação mais eficaz até a importância de programas de educação e incentivo à regularização.

Para nos ajudar a compreender melhor essa questão crucial, o Diário do Transporte entrevistou o Superintendente da ANTP, Luiz Carlos Néspoli, o Branco.

Leia a entrevista na integra:

Diário do Transporte: A proibição do mototáxi em São Paulo reacendeu um debate importante sobre a segurança no trânsito e o envolvimento de motocicletas em acidentes. Qual a posição da ANTP sobre essa questão?

Luiz Néspoli: A decisão da prefeitura de São Paulo de proibir o mototáxi é compreensível, visto que o transporte remunerado de passageiros em motocicletas tende a aumentar o número de caronas e, consequentemente, a exposição ao risco de acidentes e fatalidades. No entanto, essa questão é apenas uma parte de um problema muito maior. As mortes envolvendo motocicletas têm crescido significativamente em todo o país, sem que o estado brasileiro demonstre controle efetivo.

Diário do Transporte: Os órgãos de trânsito têm utilizado as ferramentas tradicionais de engenharia, fiscalização e educação. Por que essas abordagens não têm se mostrado eficazes para reduzir os acidentes com motocicletas?

Luiz Néspoli: Exatamente. As ferramentas tradicionais não estão surtindo o mesmo efeito que observamos em outros tipos de acidentes. O problema da acidentalidade e mortalidade com motocicletas possui uma complexidade que exige mais do que os instrumentos tradicionais de gestão. É necessário repensar a estratégia de forma abrangente.

Diário do Transporte: Você poderia detalhar a gravidade da situação com base em dados estatísticos?

Luiz Néspoli: Certamente. Em 2011, quando se iniciou a Década de Ações da ONU para redução de acidentes, o Brasil registrou 43.908 mortes no trânsito, sendo 11.443 com motocicletas. Observamos uma queda significativa nas mortes por outros motivos até 2019, com alguma variação até 2023. No entanto, o número de mortes com motocicletas permaneceu relativamente estável até 2022, voltando a subir em 2023.

Além disso, um Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2023 apontou um aumento de 56% na taxa de internações de motociclistas por lesões no trânsito entre 2011 e 2021. As despesas públicas com essas internações também tiveram um crescimento alarmante, passando de 5,2 milhões de reais em 2011 para 167 milhões em 2021. Em São Paulo, a partir de 2019, enquanto o número de mortes por outros tipos de acidentes se manteve relativamente estável, houve um crescimento de 63% nas mortes envolvendo motocicletas entre 2019 e 2025.


Fonte: ANTP

Boletim Epidemiológico Min. da Saúde


Diário do Transporte: E como está a situação da frota de motocicletas e dos condutores?

Luiz Néspoli: Segundo dados da SENATRAN de agosto de 2024, o RENAVAM registrava 34,2 milhões de veículos de duas rodas, sendo 27,7 milhões de motocicletas. O RENACH, no mesmo período, contabilizava 39,4 milhões de motociclistas habilitados na categoria A. Um dado preocupante é que 17,5 milhões de proprietários de motocicletas não são habilitados na categoria A. Isso levanta questões sobre quem está realmente conduzindo esses veículos. No que diz respeito ao crescimento da frota, entre 2011 e 2024, a frota nacional total cresceu 176%, enquanto a de motocicletas aumentou 187,5%. Em São Paulo, o crescimento da frota de motocicletas foi ainda mais expressivo, quase o dobro do crescimento da frota total de veículos.

Diário do Transporte: As ferramentas tradicionais de engenharia, fiscalização e educação têm limitações específicas no caso das motocicletas?

Luiz Néspoli: Sim, têm. Na engenharia de tráfego, por exemplo, as soluções inovadoras para motocicletas ainda são pontuais, como a segunda linha de retenção e a “faixa azul” em teste. As demais sinalizações são as mesmas para todos os veículos. Na fiscalização, embora haja um volume expressivo de irregularidades identificadas em blitzes, essas ações são eventuais e não conseguem abranger a totalidade dos condutores e veículos irregulares. A inadimplência no pagamento de multas também é um problema, já que a quitação é exigida para o licenciamento, e muitas motocicletas podem não estar licenciadas. Além disso, apesar das exigências para habilitação e para os veículos, como a placa vermelha para veículos comerciais como motofrete e mototáxi, o cumprimento dessas normas é baixo. Na educação para o trânsito, as ações predominantes focam em crianças e adolescentes, com poucas iniciativas direcionadas a condutores e adultos em geral. Mesmo os condutores habilitados, apesar de terem passado por formação, demonstram comportamentos inadequados e transgressões frequentes de regras básicas.

Diário do Transporte: Diante desse cenário, o que a ANTP considera necessário para enfrentar o problema da sinistralidade com motocicletas?

Luiz Néspoli: É crucial reconhecer que estamos diante de um grave problema de saúde pública com altos custos sociais. A forma como estamos lidando com a questão não está resultando em redução de mortes e feridos. Precisamos ir além das ferramentas tradicionais. É fundamental estabelecer um ambiente minimamente regulamentado, não apenas no trânsito, mas também nos serviços remunerados por motocicleta. Isso envolve as autoridades de trânsito em todos os níveis de governo e outras áreas da administração pública. Precisamos pensar em programas de incentivo à regularização para os motociclistas, considerando os custos envolvidos. O envolvimento de atores privados beneficiários do motociclismo também é importante. Além disso, é necessário criar mecanismos para inibir roubos e furtos de motocicletas. Programas como o Visão Zero e o Vida no Trânsito precisam incorporar esses aspectos mais amplos que envolvem o “ambiente” das motocicletas no Brasil. A educação para o trânsito terá maior eficácia em um ambiente mais organizado, com programas de treinamento e ações de comunicação que reflitam a realidade das ruas. É importante que esse seja um projeto de Estado, consistente e de longo prazo, dada a complexidade do problema e o número de entidades envolvidas.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Santiago disse:

    O principal culpado desse “fenômeno” é a nossa indústria automotiva, que de 2020 pra cá adotou estratégias mais especulativas e subiu a régua dos preços dos carros a níveis imorais.
    Com os automóveis agora tabelados a preços bem acima do que eles realmente valem, muitos consumidores tiveram que mudar os seus planos. E adotaram as motos, em lugar de automóveis a preços cada vez mais impraticaveis.
    Sem esquecer, é claro da explosão do e-comerce e de outros muitos serviços de entrega direta.
    O resultado não tinha como ser outro…

  2. José Maurício Arbulu Varella disse:

    E se aprovado o Moto Taxi a explosão de acidentes com mortes será ainda muito maior.

  3. Ligeiro disse:

    Falaram da indústria automotiva, mas os preços das motos também seguiram a inflação da indústria automotiva. Fora que hoje para pegar moto de baixa potência é mais difícil. O preço de uma moto nova é o preço de um carro usado de 30 anos atrás…

    Vamos falar a real? A ANTP também tem sua culpa no cartório. Se houvesse mais esforços (E mais combate à corrupção) para lutar politicamente por um transporte público melhor, provavelmente teríamos menos veículos, e por consequência menos acidentes. Não temos muitos ônibus em bairros periféricos. E lembremos que há bairros que ônibus não rodam devido ao layout: ruas finas ou outros problemas que impedem mesmo ônibus pequenos de circular.

    Porque vamos ver mesmo o exemplo de São Paulo: a redução de linhas interurbanas na Região Metropolitana é um dos fatores. Linhas altamente seccionadas, falta de opções mais confortáveis (redução e extinção de linhas Rodoviárias/Seletivas), falta de incentivo político a adoção do transporte público, destacando empresas com capacidade real para operar serviços públicos que não tenham donos envolvidos com problemas. E na questão da “última milha”, onde ficam os mototáxisitas, não se tem outra opção. Táxis oficiais são caros e carros de aplicativo estão começando a serem mais seletivos tanto quanto taxistas.

    Dilema da propaganda de biscoito: tem mais veículo individual porque o transporte está ruim ou o transporte está ruim porque tem mais veículo individual?

    Já tenho mais de 40 anos, 20 deles acompanhando “por cima” sobre mobilidade. Raro ver empresas que atuam politicamente a favor do usuário. De grupos de mobilidade que pensam em linhas eficientes, em custos justos, em um serviço que as pessoas priorizem mais ele do que o uso de transporte individual. Pelo contrário, a qualidade do transporte vem decaindo aliado ao aumento dos custos, as decisões políticas vem ajudando na diminuição da frota e com isso pessoas vão para o individual e com isso temos mais e mais acidentes.

    Quando se vê licitações e leilões de serviços para serem privatizados, as empresas dão o lance, ganham, depois o serviço fica pior que antes.

    E engraçado. O que tenho notado também é o aumento de fretados por aí – por quê ninguém comenta sobre? Pensemos: se houvesse mais linhas de transporte público que ligam polos industriais e logísticos aos centros residenciais, será que não compensaria mais do que a oferta de fretados?

    A ANTP deveria se olhar no espelho um pouco. E não exatamente desmerecendo a crítica: sim, infelizmente o aumento do número de motos e ciclomotores tem aumentado o número de acidentes. Mas novamente: isso não é sintoma de um péssimo transporte público?

    1. Marcos Paulo Sousa Oliveira disse:

      Acabaram com o transporte sobre onibus nas grandes cidades….onde se pegava 1 onibus hoje pega 3, cortaram linhas de altas demandas, tudo para favorecer o empresario dono de empresas de onibus..ai juntando a isso, onibus com mais portas do que banco, tarifas altas….com ctz a populaçao migraria para outros meios de deslocamentos

  4. Rodrigo Zika disse:

    Carro “popular” custando 70 mil é inviável pra 80% do povo pobre no país, aumentando consideravelmente a venda de carros usados e motos principalmente, junta isso com investimento baixo e ineficaz no transporte público e muitos que podem fogem disso.

  5. Marcos Paulo Sousa Oliveira disse:

    O estado investiu apenas em arrecadar, colocou milhares de radares em pontos fixos apra arrecadar com multa de veloclidade, e reduziram postos de guardas de transito, radares nao pegam quando o motiqueiro anda na contra mao, sobe em cima de calçadas, empinam, etc….a culpa é do estado que só pensa em furar o bolso so cidadao

    1. Ligeiro disse:

      Não é culpa (só) do Estado (e de quem elege corruptos). Pesquise sobre Ferrari quebrada na Marginal Tietê, Empréstimo de jatinho para secretário de segurança, aplicativo Jaé e tente ligar os pontos…

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