Empresas e cidades contam o que aprenderam com os ônibus elétricos
Publicado em: 31 de março de 2025
São José dos Campos (SP), e a Transcap, operadora do transporte coletivo na capital paulista, relatam suas experiências com os modelos da BYD
FÁTIMA MESQUITA, ESPECIAL PARA O DIÁRIO DO TRANSPORTE
O interesse do Brasil pelos ônibus elétricos é amor antigo, que remonta às primeiras décadas do século XX. Mas só agora o mercado parece estar pronto para abraçar de uma vez por todas a eletrificação do transporte público.
A nova energia que se sente hoje está ligada a um combo de fatores que traz, inclusive, as primeiras fornadas de administradores e concessionários com vivências hands-on com a tecnologia.
Uma aposta planejada

Foto da prefeitura de São José dos Campos (SP)
A cerca de 100 km da capital paulista, Letícia Lima, Secretária Adjunta de Mobilidade da Prefeitura de São José dos Campos, conta que desde 2022 a cidade trabalha com doze veículos com chassis BYD e carroceria Marcopolo e que o saldo não poderia ter sido melhor: “Não temos do que reclamar. São ônibus extremamente seguros, silenciosos, confortáveis e que a população adora. A cabine do motorista é supermoderna, os retrovisores são de câmera, enfim, é tudo totalmente tecnológico.”
A tecnologia, no entanto, custa dinheiro, certo? Então, é de se imaginar que a manutenção seja coisa cara e complexa. Mas Letícia Lima garante que os resultados por lá apontam para outra direção: “No geral, a manutenção é incrível, porque não tem. O que tem é pneu ou alguma pecinha que não está legal e mais nada. Os mecânicos chegam a ficar a ver navios dentro das garagens”.
Outro ponto que a secretária adjunta de São José dos Campos destaca é a questão do combustível: “A gente tem a concessão. Então, eu não entro a fundo no dia a dia deles. Mas quando a gente compara com o diesel, a economia chega até 40%, a depender do mês”.
Uma questão importante sempre foi a recarga. Nesse sentido, São José dos Campos também está tranquila porque a cidade chamou para si mesma a obrigação, construindo um pátio público dedicado à função. E, para o futuro, a Secretaria de Mobilidade conta com a ajuda de um software que aponta o melhor local para a instalação de novos pátios de carregamento e também o melhor horário para cada ônibus carregar, lançando mão assim das chamadas cargas de oportunidade.
Aliás, Letícia Lima é taxativa ao dizer que a experiência positiva de eletrificação na maior cidade do Vale do Paraíba paulista tem tudo a ver com um planejamento detalhado e constante. Assim a cidade prevê riscos, evita surpresas e garante bons frutos. Todo esse esforço agora está prestes a encarar um salto numérico significativo.
”Até setembro do ano que vem, a nossa frota vai estar ampliada e toda eletrificada. Fizemos uma licitação diferente, em um modelo de locação de ônibus. Dentro deste âmbito, vinte novos elétricos devem chegar até setembro desse ano. Em janeiro, mais 60. Depois em maio do ano que vem a gente recebe mais 120 e, em setembro de 2026, mais 200. Aí serão 400 da nova licitação, mais 12 que estamos comprando pelo PAC e o que já temos. No total serão 424, ou seja, a frota toda eletrificada, com exceção das vans alternativas”, pontua com satisfação Letícia Lima.
Mais árvores
Em doze meses, de agosto de 2022 a julho de 2023, a frota de ônibus elétricos da BYD em São José dos Campos evitou a emissão de 1.646,12 toneladas de gás carbônico. Estima-se que cada ônibus elétrico em circulação represente em média o plantio de 750 árvores por ano, e a frota em São José dos Campos evitou emissões equivalentes ao plantio de 11.729 árvores. A fabricante produz os ônibus no Brasil, na planta de Campinas (SP), e as baterias de fosfato ferro-lítio (LifePO4) utilizadas são fabricadas na própria fábrica da BYD em Manaus. No que diz respeito à eficiência, os motores elétricos possuem uma eficiência de cerca de 90%, contrastando com os cerca de 30% dos motores a combustão. Essa maior eficiência se traduz em uma significativa redução de custos, pois o custo mensal para abastecer um ônibus elétrico com energia pode ser até 6 vezes menor do que o de um ônibus a diesel.
O receio que virou entusiasmo

Foto Cedida: Transcap
Na zona sudoeste da cidade de São Paulo, Claudiana Souza é a diretora de Planejamento Estratégico e Controles da Viação Transcap. A empresa tem hoje 56 elétricos rodando nas ruas e aguarda a tramitação da papelada na SPTrans para a chegada de outras 96 unidades até o final de abril. “Recebemos os primeiros em setembro do ano passado e em janeiro veio outro lote. Agora vamos chegar à marca de 156 veículos e a nossa meta é eletrificar a frota toda o mais depressa possível!”, afirma Claudiana Souza.
A diretora da Transcap, porém, lembra que a relação com a tecnologia não foi um caso de amor à primeira vista: “A gente tinha receio em relação ao desempenho, à recarga… As nossas rotas chegam a 250 km por dia, tem morro, ladeira, buraco, muito passageiro, muito para e vai. Então, nós fomos estudar, fui pra Bogotá ver as garagens lá, o sistema todo. Também treinamos muito os motoristas que, no começo, também tinham resistência, mas agora fazem fila pra pilotar os elétricos.”
O que fez o pé atrás virar poeira foi colocar a novidade para rodar nas 23 linhas que a Transcap atende na capital paulista. “Em poucos meses, já temos unidades fazendo revisão de 30.000 km. Deu pra ver uma economia com combustível que hoje está em 33% comparando com o diesel. A mecânica mais simples e as peças robustas também economizam no quesito manutenção. Acho até que, no futuro, vamos ter menos mecânicos, vamos requalificar o pessoal, porque o volume de manutenção está despencando”, sentencia Claudiana Souza.
Em termos de recarga, a diretora da Transcap lamenta apenas as dificuldades com a ENEL: “Primeiro, ficamos trabalhando um bom tempo com três carregadores emergenciais, pela demora que teve na conexão da nossa ilha de carregamento pela ENEL. Agora, temos 19 carregadores funcionando, uma capacidade total de três megawatts e que já-já não será mais suficiente. Só que a ENEL não aceita a instalação de mais de três megas num mesmo endereço.”
Apesar deste entrave, Claudiana Souza não tem dúvidas quanto ao futuro da empresa: “Depois que a gente conheceu melhor, viramos entusiastas. Não voltaríamos atrás de jeito nenhum. Estamos buscando novas soluções para o fornecimento ou produção de energia, construindo uma nova garagem já pensando nisso tudo”. A diretora completa dizendo que até o comportamento do passageiro parece ter mudado: “Antes a gente tinha problemas constantes com os carregadores USB. Mas no elétrico a gente viu um efeito parecido com o Metrô, de mais respeito. Não temos visto carregador arrancado e até o nível de sujeira no chão diminuiu”.
Garagem especial e frota reforçada
Em 17 de outubro de 2024, a Auto Viação Transcap, que opera nas zonas Sul e Oeste da cidade de São Paulo, anunciou que teria mais 64 ônibus 100% elétricos Caio-BYD em operação até o final de novembro. São veículos chassis/tecnologia da BYD, modelo D9W básico, e carrocerias da Caio e-Millennium. Eles seguem as especificações da SPTrans e contam com piso baixo e rampa para acessibilidade, ar-condicionado, vidros colados com tratamento UV, tomadas USB para carregar celulares e wi-fi gratuito para os passageiros.
Anteriormente a este anúncio, em 16 de setembro de 2024, a Transcap já havia colocado em circulação nove ônibus 100% elétricos deste mesmo tipo na linha 809L-10 (Campo Limpo / Lapa). A empresa também anunciou o avanço das obras de uma nova garagem para atender à ampliação da frota elétrica, que incluirá carregadores para as baterias dos veículos e terá capacidade para cerca de 320 ônibus, incluindo os elétricos e a diesel, além de 45 vans do sistema “Atende”. A nova garagem está localizada no Jardim Bom Tempo, em Taboão da Serra, com inauguração prevista para 2025. A decisão pela nova garagem foi motivada pela necessidade de infraestrutura para os veículos elétricos e pela proximidade com as linhas operadas pela Transcap.
Volume, competição e inovações constantes

Marcello Schneider, Diretor de Veículos Comerciais da BYD Brasil
Já na outra ponta, Marcello Schneider, Diretor de Veículos Comerciais da BYD Brasil, entende que o caminho do elétrico no país é daqui para melhor: “Quando a gente ultrapassar mil e quinhentos ônibus rodando, vamos ter uma área de pesquisa e desenvolvimento aqui para entender como a gente pode melhorar ainda mais o produto, deixá-lo ainda mais sustentável, para o ambiente e para o cliente, que seja mais rentável dentro do seu negócio”.
Historicamente é isso mesmo que se vê em toda parte: o volume traz aprimoramentos constantes e competitivos. Mas será que a BYD já tem alguma novidade encaminhada? “Hoje a gente tem um portfólio que atende boa parte do mercado nacional, com ônibus básico, padrão e articulado de 22 metros. Todos eles de piso alto e piso baixo. E a gente está estudando outros modelos. Já começa a pensar em um ônibus escolar, de 10 metros. Enfim, a gente tem uma área de engenharia que já está olhando para isso. . Até porque esse é o DNA da BYD”, dispara Schneider.

Planta da BYD em Campinas (SP)
Fátima Mesquita, jornalista e escritora, especial para o Diário do Transporte



Em reportagem recente aqui no Diário do Transporte, diz-se que até o momento foi evitado a queima de 16 milhões de litros de diesel com a atual frita elétrica.
Se considerarmos que as garagens são abastecidas por caminhões-tanque (não creio que exista rede de dutos dedicada para tal), isso equivale à eliminação de 400 viagens de carretas com capacidade de 40 mil litros de diesel cada, diminuindo ainda mais a poluição.
Por isso essa cidade está a frente das outras, Parabéns