Tarifas de transportes sobem em sistemas onde população não sabe o que é ter integração com trilhos e ar-condicionado e motor traseiro nos ônibus são artigos raros e de luxo
Publicado em: 6 de janeiro de 2025
Marco regulatório do transporte coletivo urbano ainda patina no Congresso e poderia ajudar para que o custo não recaia ainda sobre os mais pobres – *O QUE É TARIFA ALTA E O QUE É TARIFA BAIXA?*
ADAMO BAZANI
Neste início de ano de 2025, após eleições municipais, diversas cidades aplicaram aumentos nas tarifas de transportes públicos.
Medidas que, segundo as prefeituras, são necessárias para manter os serviços em operação, mas que pesam e comprometem sim a renda das pessoas, principalmente de quem ganha menos.
MAS O QUE É TARIFA ALTA E TARIFA BAIXA?
Para a população e pelo geral da qualidade dos serviços, insatisfatória em grande parte dos casos, toda a tarifa de transporte coletivo está muito alta.
Para a manutenção dos sistemas, as tarifas têm sido insuficientes para bancar os serviços.
Há sistemas que entregam menos para os passageiros. Outros, oferecem mais. Dependende da política de transportes.
Na capital paulista, é possível integrar quatro ônibus e com os trilhos. Os ônibus têm motor traseiro e ar-condicionado, MAS OS SUBSÍDIOS BANCAM 50% DOS CUSTOS.
Nas cidades do ABC, por exemplo, não há integrações com trilhos, a maioria da frota é sem ar-condicionado e se limita ao menos confortável motor dianteiro, porém, os subsídios quase não existem.
É necessário achar fontes de recursos extra-tarifárias e um projeto está empacado no Congresso Nacional: chamado Novo Marco Regulatório dos Transportes ajudaria nisso, mas há anos não avança.
Custo de transporte só pela tarifa é como se fosse um bolo. Quanto menos gente para dividir, cada fatia fica maior. E os sistemas de transportes públicos, por suas altas tarifas e qualidade insatisfatória, tem perdido demanda.
A queda de demanda de passageiros foi agravada pela pandemia de covid-19, mas já vinha de antes. É a bola de neve. Os serviços são insatisfatórios e mais caros e, com isso, cai o número de passageiros. Caindo o número de passageiros, aumenta o custo e o serviço corre o risco de ficar pior: com menos ônibus nas linhas e renovações de frota menos frequentes.
Além disso, há fatores que aumentam os custos de operação dos transportes. Como o trânsito cada vez pior. Os ônibus, sem corredores e espaços adequados, ficam presos nos congestionamentos. São necessários mais ônibus para atender menos passageiros. Isso aumenta os custos e, como a maior parte vai para a tarifa, há elevação nas passagens.
Exemplos:
Em São Paulo, é possível até quatro embarques em ônibus diferentes, no período de 3 horas, ou então até três embarques em ônibus diferentes, no período de 3 horas e um embarque no sistema de trilhos, nas duas primeiras horas. A maioria dos ônibus tem ar-condicionado, piso baixo e motor traseiro, que oferece mais conforto. Mas os subsídios cobrem cerca de 50% dos custos de tudo isso, que por ano, são de cerca de R$ 12 bilhões. Nesta segunda-feira, 06 de janeiro de 2025, a tarifa passou de R$ 4,40 para R$ 5 depois de quatro anos de congelamento.
Para 2025, a prefeitura de São Paulo reservou no Orçamento, R$ 6,5 bilhões.
Na vizinha Santo André, depois de um ano, a tarifa passou de R$ 5,70 para R$ 5,90 nesta segunda-feira, 06 de janeiro de 2025. Há integração somente entre dois ônibus municipais e nenhuma integração com os trilhos.
Nem a prefeitura e nem as empresas de ônibus deixam claros e de fácil acesso para toda a população os custos de operação do sistema de Santo André, mas os subsídios quase não existem. São apenas para integrações e algumas gratuidades.
A maior parte da frota é só de motor dianteiro, com menos conforto que o traseiro, e estão vindo ônibus zero quilômetro sem ar-condicionado.
Em ambas as cidades, os transportes coletivos perderam demanda.
Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes


Todo ônibus de sistema de transportes que tem subsídio público devia no mínimo ter somente ônibus com ar condicionado,isso teria que ser a condição mínima exigida pelos municípios,ainda mais agora que todo lugar está fazendo calor.
Não quero defender empresas nem governos, mas já notei, isso tanto por experiência própria quanto até vendo vídeos de pessoas em outros lugares no Brasil, que a questão do “ônibus com motor traseiro” é o de menos dado a qualidade e forma de nossas vias. E de fato, concordo com o texto que isso não justifica o aumento.
A questão da demanda aqui soa como a “questão tostines” (bordão da época dos anos 70-80): Tem menos pessoas por que está caro ou está caro por ter menos pessoas?
O que noto hoje é o aumento de idosos usando os ônibus. A lei da gratuidade incentivou o uso pelos mesmos, e sei de ótimas histórias, de idosos que aproveitam para passear e fazer algo diferente (ao invés de ficarem vendo grupos estúpidos online falando besteira de política). Isso mostra um ponto: a gratuidade ajudou este grupo, só uma pena que eles precisam também de passar por uma burocracia estúpida (a solicitação do passe idoso) para poder ter este direito. E detalhe também: hoje idosos trabalham por causa disso também, dado que com o passe gratuito, conseguem ir trabalhar sem o custo do vale transporte.
E uma tecla que sempre bato e poucos dão valor: fretamento tira gente da mobilidade pública. Por mais que um fretamento seja confortável e ajuda as empresas, tais operações acabam desincentivando o uso de transporte público. Isso porque as mesmas 40 pessoas que justificariam uma linha de ônibus naquele horário acabam migradas para uma linha fretada. Detalhe que com os fretamentos de longa distância – quando empresas fretadas “criam rotas” e operam entre regiões de diferentes cidades distantes entre si, isso gera um efeito similar em cima dos transportes intermunicipais.
Não é questão só de ar condicionado ou qualidade de ônibus. Mas sim de previsibilidade e eficiência. As pessoas só querem sair de A a B com a certeza que vão chegar a B sem perrengues. Sem ficarem amassados como sardinhas. Pode ser um ônibus de 50 anos atrás, 60 anos. Tem comunidades no interior do Brasil que´e assim que vem sendo e a operação é previsível de alguma forma.
Precisamos é de políticos e empresários que se preocupem menos com Ferraris e Lamborghinis e mais com o transporte público. Se parar para pensar que teve eleições que as pessoas escolheram alguém que vive viajando de jatinho sem critérios ao invés de votar em alguém que já provou que usa transporte público de boa, isso diz muito sobre quem deveria ajudar a fazer o transporte melhor, que é o cidadão.
Concordo
Não dá pra ficar esperando ônibus por meia hora ou até mesmo 1 hora dependendo da cidade, muito menos ficar espremido num ônibus lotado ou/e que quebra pelo caminho…
É só mais um problema devido a falta de ação da população em exigir do poder público e empresas o serviço com o mínimo de qualidade. Isso não só para transporte, mas em saúde, educação, infraestrutura (água, esgotos, pavimentação de ruas em geral, etc.) e vários outros serviços que o público ou “mais barato” é insatisfatório. O país é ruim de maneria geral porque a população não cobra nada de gestores públicos ou concessionárias, apenas votam e depois deixam o político eleito fazer o que quiser.
Um serviço privado tira demanda do público por que quem pode paga por um serviço melhor, ou cada um deixa de usar um hospital ou escola públicos simplesmentre porque quer gastar com um serviço privado? Acredito que sempre que se um cidadão puder pagar por um serviço privado de melhor qualidade que o público, vai deixar obviamente de usar o sistema público.
Piso baixo central também são artigos de luxos e raridades
No caso de São Paulo, mesmo os ônibus contando com piso baixo, suspensão pneumática e ar-condicionado, a péssima configuração “padrão SP-Trans” torna-os bastante desconfortáveis em termos da acomodação dos passageiros (e uma literal tortura nos horarios de lotação). Até mesmo os parrudos ônibus com motor dianteiro acabam sendo mais confortáveis e funcionais nesse quesito.
Daí ser fundamental que esse tipo de coisa seja projetada por quem conhece o que é usar ônibus nas mais diferentes situações. Esta deveria ser uma condição obrigatória para quem projeta os nossos ônibus.
Santo André consegue ter a pior frota de ônibus da região do ABC, as empresas reformaram a carroceria de alguns ônibus e deram um tapa nos assentos e entregaram como novos, o consórcio união santo André parece que brinca com a população