Aplicativos têm “roubado” cada vez mais passageiros do transporte público e ganham maior espaço entre as pessoas de baixa renda, revela pesquisa da CNT

Levantamento ainda mostra que dobou o número de pessoas que consideram que o transporte um problema e que, tanto ônibus como metrô, têm perdido usuários

ADAMO BAZANI

Os aplicativos de transporte têm “roubado” parcelas cada vez maiores de passageiros de ônibus, trens e metrôs.

É o que mostra a Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana, da CNT Confederação Nacional do Transporte, lançada nesta quarta-feira, 07 de agosto de 2024, na Lat.Bus, com apoio da NTU (Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos).

A Lat.Bus e o Seminário Nacional da NTU ocorrem até esta quinta-feira (08) no São Paulo Expo, na zona Sul da capital paulista.

O Diário do Transporte obteve a pesquisa na íntegra.

De acordo com o levantamento, que ouviu 3.117 pessoas, em 319 municípios com mais de 100 mil habitantes, de 18 de abril a 11 de maio, entre 2017 e 2024, a modalidade de aplicativos, dentro do grupo de viagens realizadas em veículo particular, teve uma evolução expressiva neste período de sete anos, passando de 1,0%, em 2017, para 11,1%, em 2024.

Segundo a CNT, esta migração é um dos fatores da queda significativa da demanda do transporte coletivo. Outro aspecto que chama a atenção na pesquisa é que a maior parte das pessoas que “abandonaram” os ônibus em seus deslocamentos frequentes integram as camadas de renda mais baixas.

É possível que essa evolução seja um dos fatores que contribuem para a substituição de um meio por outro, uma vez que, neste ano, 56,9% dos entrevistados confirmaram que deixaram de usar totalmente o ônibus (29,4%) ou diminuíram o uso (27,5%). Além disso, essa modalidade vem ganhando espaço na população de baixa renda. Segundo a pesquisa da CNT, dentre as pessoas que substituíram o ônibus pelos aplicativos de transporte, 56,6% pertencem à classe C e 20,1% às classes D/E.  – diz a entidade por meio de nota.

O que pode parecer, num primeiro momento, um bom sinal de “empoderamento” das camadas com renda mais baixa da população, revela, na verdade o que poder ser um grande problema de mobilidade urbana.

Quanto mais carros nas ruas, sejam particulares ou de aplicativos, mais trânsito e poluição.

Por outro lado, é um dado que revela que os ônibus, trens e metrôs não estão satisfazendo ou atendendo adequadamente a população. Caso contrário, esta migração entre meios de transportes não ocorreria ou seria menor.

PERDA DE PASSAGEIROS PELOS ÔNIBUS E METRÔ:

Segundo a Pesquisa CNT de Mobilidade da População Urbana, o percentual de pessoas que utilizam ônibus diminuiu significativamente. Neste ano de 2024, o quantitativo é 14,3 pontos percentuais menor na comparação com 2017, quando a parcela que utilizava esse veículo era de 45,2%. Nesse mesmo sentido, o uso do metrô reduziu de 4,6% para 4,2%.

A CNT entende que, entre os fatores que podem ter influenciado a queda, são o aumento da utilização do carro próprio, que passou de 22,2% para 29,6% no período, e a obtenção de moto própria, que também teve um salto significativo. A utilização desta mais que duplicou, saltando de 5,1% para 10,9% em sete anos.

ÔNIBUS É AINDA O PRINCIPAL MEIO DE TRANSPORTE DO PAÍS, MAS EM GRANDES CIDADES, APLICATIVOS SE DESTACAM:

Essa migração de passageiros de transportes coletivos para os aplicativos é mais sentida em cidades maiores.

Em todo o Brasil, em média, o ônibus ainda é o principal meio de transporte e responde por 30,9% dos deslocamentos diários.

Mas, em cidades de 500 mil a um milhão de habitantes, os ônibus representam agora apenas 11,8% das viagens diárias.

Os serviços oferecidos por aplicativos possuem 27,2% das suas viagens concentradas nos municípios desse porte (500 mil a um milhão de habitantes), enquanto o percentual de mototáxi por aplicativo sobe para 37,4% também nessas cidades. Os meios não motorizados, como bicicletas e os deslocamentos a pé, se destacam nas localidades de 100 mil a 300 mil habitantes.

Os ônibus são a única alternativa disponível para mais de 52% dos entrevistados.

A CNT diz que tal fato pode ser atribuído à capilaridade do modo rodoviário (ou seja, chega a lugares que outros meios de transportes não chegam), assim como a existência dos elementos de priorização que podem reduzir o tempo de deslocamento em relação aos carros, como faixas preferenciais, corredores comuns e corredores mais elaborados como os BRTs (Bus Rapid Transit).

Outro fato é que o custo de deslocamento em ônibus é, ainda em geral, menor em relação aos demais meios ofertados, mostrando que o critério financeiro é um aspecto importante na escolha das pessoas.

TRANSPORTE É PROBLEMA, MAS PASSAGEIRO ACEITA PAGAR MAIS POR ÔNIBUS COM MAIOR CONFORTO E QUE POLUAM MENOS:

Segundo a CNT, em comparação com a edição anterior da pesquisa, realizada em 2017, a parcela da população que considera o transporte um problema quase dobrou. Em sete anos passou de 12,4% para 24,3%.

O que chamou a atenção da entidade é que, apesar de as altas tarifas serem um dos fatores que podem afugentar passageiros, os entrevistados disseram que concordariam pagar mais por ônibus com maior conforto e até mesmo nos que poluam menos.

Em meio à busca por acesso a melhores condições, chama a atenção, nos resultados, o percentual de pessoas que são favoráveis ao investimento em conforto nas viagens e em soluções ambientais. A coleta indica que mais de 57% dos entrevistados estão dispostos a pagar uma tarifa mais cara para viajarem somente sentados nos ônibus. Em relação à sustentabilidade, 52,6% afirmaram estar dispostos a pagar uma tarifa diferenciada por uso de veículos menos poluentes e 32,1% por ônibus elétricos. – diz a CNT, por meio de nota.

PRIORIDADE E SERVIÇO ESSENCIAL:

A pesquisa conclui que o transporte coletivo, mesmo com todas as mudanças e perda de passageiros, é encarado como serviço essencial indispensável pela população que, em sua maioria, defende os investimentos que priorizem os deslocamentos por ônibus, trens e metrô.

Mesmo com todas as mudanças, o transporte público coletivo urbano ainda se caracteriza como um serviço fundamental para a faixa populacional de baixa renda, haja vista as classes C e D/E serem as que mais se deslocam por ônibus (79,2%), trem urbano/metropolitano (77,1%) e metrô (62,3%). O alto percentual ressalta a importância de maior atenção ao acesso da população com menor poder aquisitivo.

O presidente do Sistema Transporte, Vander Costa, disse, em nota, que, ao conhecer os principais problemas enfrentados pelos usuários do transporte público, a CNT tem a oportunidade de propor e trabalhar em prol de soluções que possam fomentar a utilização desses serviços no território nacional.

“Em um ano com eleições municipais, é fundamental que os candidatos coloquem a mobilidade urbana no centro de suas propostas, garantindo investimentos e políticas que tornem o transporte público mais eficiente, seguro e acessível para todos.”

Segundo a entidade, os dados divulgados podem auxiliar os entes públicos, sendo referência na formulação de políticas para o setor e aos agentes privados em seus processos de tomada de decisões, planejamento e desenvolvimento de ações.

O diretor executivo da NTU, Francisco Christovam, afirmou, na nota, que “a revitalização do transporte público urbano passa por colocar o passageiro em primeiro lugar. Ele é o nosso cliente e a razão de ser do nosso trabalho. Por isso, precisamos ouvir o passageiro, entender suas expectativas e suas necessidades, para poder entregar um serviço de melhor qualidade. Daí a grande importância da pesquisa CNT de mobilidade”.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

 

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Comentários

Comentários

  1. Renan Cabreso disse:

    Eu não concordo de forma alguma com essa decisão.

  2. ED disse:

    Boa tarde!
    A EMTU disponibiliza ônibus com intervalos de 1hora ou + de um carro para outro na cidade de Guarulhos.
    Como que o passageiro que perder o horário de um ônibus desse vai ficar 1hora ou mais aguardando o próximo ônibus?
    Linhas que sai de guarulhos para o metrô armênia passa de 30 minutos e para o metrô BRÁS + de 60 min…
    É Uma vergonha isso!
    A secretaria de transportes metropolitano tem que rever isso.

  3. Marcos disse:

    Com ctz…destruiram com as linhas de onibus..antes se pegava 1 onibus agora pega 3, o uber deixa onde vc quer o onibus nao….vai ter gente que vai dizer que o povo tem que se acostumar com as baldeaçoes, nao meu amigo….vc paga o onibus nao é de graça..se nao leve onde vc quer ir entao partimos para outro meio de transporte

  4. José disse:

    Tem que continuar “roubando
    passageiros ” mesmo!
    Transportes ruins… E Deus nos Ajude!

  5. Francisco Araujo disse:

    Enquanto empresas junto com prefeituras tratarem o passageiro como um nada , esse situação não terá volta , só vai aumentar , a quantidade de pessoas deixando de usar principalmente ônibus , eu que moro em Guarulhos passo nervoso a toda vez que uso o transporte municipal da cidade , que sem dúvidas é o pior entre as grandes cidades da grande Sp , pois tem um conluio entre prefeitura e empresas que fazem pouco caso dos passageiros , pois quem mora aqui sabe o que passa todo dia , principalmente quem usa os micro ônibus que é uma zona total pois não tem fiscal nem nada .

  6. Rodrigo Zika disse:

    Transporte de app depende, em SP capital a maioria usa pra trajetos curtos, quem usa pra esse objetivo por dia até dez reais compensa, agora quem vem da periferia longe do centro é inviável, ainda compensa o transporte público mesmo com seus problemas.

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