Qual cidade queremos?

JOÃO PICANÇO*, ESPECIAL PARA O DIÁRIO DO TRANSPORTE

As cidades são ótimos lugares para se viver. Seus benefícios encantam e atraem milhões de pessoas pelas suas facilidades. Empregos, renda, lazer, cultura e serviços de saúde. Entretanto, as construções das urbes em muitos casos vieram acompanhadas de florestas de prédios áridas, poluídas e com trânsito caótico. A dinâmica de crescimento das cidades parece ter chegado de mãos dadas com um movimento de biofobia, em que a natureza é algo a ser superado e suprimido. O resultado desse movimento nos leva a questionar em que tipo de ambiente queremos erguer nossas casas. Qual é o lugar adequado para o bem-estar dos nossos filhos? Que território estamos deixando de legado para as próximas gerações?

A crescente urbanização e as más decisões tomadas para o “desenvolvimento” das cidades fizeram com que as metrópoles ficassem expostas a um efeito conhecido como “ilhas de calor”, em que edifícios e ruas absorvem as altas temperaturas. Além de feias, muitas cidades ficaram mais quentes e desconfortáveis para se viver. Nesse contexto também devemos arguir como se dá a produção das cidades. Ela é baseada em que lógica? É possível termos o direito à uma cidade com áreas verdes, caminháveis e acessíveis por transporte público de qualidade? Qual cidade queremos? A arquitetura e o urbanismo podem manifestar nossos sonhos no mundo real? Ou seguiremos criando cidades num pesadelo diário de trânsito de três horas seguido de ameaças de enchentes letais?

Felizmente, na antítese da biofobia, cresce a tendência da biofilia, em que o amor a vida e aos sistemas vivos é incorporado no planejamento e na construção das nossas cidades e casas. A partir de 2016, Medellín – a segunda maior cidade da Colômbia – chamou a atenção do mundo com a implementação de “corredores verdes”, conectando estradas verdes, jardins verticais, parques e montanhas, melhorando substancialmente a qualidade do ar e alcançando a redução das temperaturas locais em 2°C, segundo um artigo da BBC Future. Conforme ressaltado pela Prefeitura de Medellín as intervenções permitiram “a regulação da temperatura, a absorção de poeiras e poluentes, o isolamento do ruído, bem como a captura de dióxido de carbono. Com tudo isso, gera-se oxigênio limpo e aumenta a biodiversidade”.

Nessa mesma direção, um projeto liderado pela prefeita de Paris, Anne Hidalgo, pretende fazer da capital francesa a cidade mais verde da Europa até 2030. Até 2026, serão plantadas mais de 170 mil árvores, com 50% da cidade coberta por áreas verdes até 2030. O plantio de “túneis de árvores” promete melhorar a qualidade do ar ao longo das avenidas, tornando-as mais amigáveis para se caminhar e pedalar. Dessa forma, é preciso redefinir a visão atrasada de que viver nas cidades implica em estar apartado de áreas verdes.

A produção de cidades reconciliadas com a natureza cria lugares bons de se viver e que atraem as pessoas. Ruas nuas de árvores e jardins não incentivam a caminhada e outras formas de mobilidade ativa e estão fadadas a uma dinâmica urbana de pouca vitalidade. Integrados a um bom planejamento e uma legislação de uso e ocupação do solo moderna, o verdejamento das cidades pode moldar o comportamento de seus habitantes para uma vida mais saudável e ativa. O caminho da biofilia pode guiar a transformação da paisagem urbana a partir de um propósito de criar cenários promotores de bem-estar. Afinal, queremos viver em lugares feios e tristes ou belos e com vitalidade?

Jaime Lerner, destacado arquiteto brasileiro, escreveu: “se a vida, como disse Vinicius de Moraes, é a arte do encontro, a cidade é o cenário desse encontro.” Permitir que as áreas verdes cresçam como cenário das cidades é um ato de gentileza, pois melhora nosso bem-estar. Por outro lado, se a vida urbana ficar restrita aos espaços privados, a cidade morre, pobre de vitalidade e de encontros. Sem a natureza, até a “Garota de Ipanema” do poeta não seria assim tão linda e cheia de graça.

Além disso, o influente urbanista dinamarquês Jan Gehl defende o conceito de Cidades para Pessoas. Gehl advoga que bons espaços públicos são caminháveis, estão protegidos dos carros, têm ciclovias e, em tempos de aquecimento global, têm árvores e áreas permeáveis em profusão. Esses conceitos estão em sintonia com a visão de biofilia e inspiram os debates sobre o futuro das cidades.

Por fim, a construção da cidade que queremos requer mais áreas verdes. Uma cidade para pessoas que incentive a caminhabilidade e as ciclovias integradas com um transporte público de qualidade. Uma cidade que se permita florescer.


O autor é engenheiro do BNDES e mestre em políticas públicas.

*a opinião do autor não reflete necessariamente as opiniões do BNDES.

Informe Publicitário
Assine

Assinar blog por e-mail

Digite seu endereço de e-mail para assinar este blog e receber notificações de novas publicações por e-mail.

     
Comentários

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Diário do Transporte

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading