Eletromobilidade

VÍDEO: Bogotá tem 1,4 mil ônibus elétricos em operação porque preparou infraestrutura e regulamentação de segurança

Bogotá começou de forma gradativa e, como principal diferença de São Paulo, criou modelos de concessões que previam a infraestrutura

São Paulo prometeu 2,6 mil coletivos elétricos, mas sem infraestrutura e regulamentação, só tem 117 operando; Bombeiros de São Paulo abriram consulta pública porque não há normas de segurança definidas

*ADAMO BAZANI*

*Edição de Imagem: Guilherme Strabelli*

(LEIA O TEXTO COM MAIS INFORMAÇÕES E DADOS DETALHADOS ABAIXO DO VÍDEO DA ENTREVISTA)

A capital da Colômbia, Bogotá, atualmente conta com 1486 ônibus elétricos movidos por baterias, o que corresponde a 14% da frota total de 10.674 coletivos.

Já São Paulo, no Brasil, tem apenas 117 veículos deste tipo, apesar da meta do prefeito Ricardo Nunes, anunciada em 2021 de que até o fim de 2024, serão 2,6 mil ônibus elétricos, de uma frota total de atualmente, 13.289 ônibus.

*INFRAESTRUTURA E COMPRA DOS ÔNIBUS:*

Bogotá começou de forma gradativa e, como principal diferença de São Paulo, criou modelos de concessões que previam a infraestrutura da rede de distribuição de energia elétrica e dos carregadores das baterias dos ônibus nas garagens.

A infraestrutura nasceu junto com a compra dos ônibus, mas a empresa de transportes pode ou não ser a dona dos equipamentos.

Em São Paulo, nada disso ocorreu.

Os contratos de 2019, assinados com as empresas de ônibus, e a Lei de Mudanças Climáticas, preveem reduções gradativas de gases poluentes. Mas, por meio de uma circular da SPTrans, gerenciadora de transportes da capital paulista, desde 17 de outubro de 2022, as empresas não podem comprar ônibus movidos a óleo diesel. Ocorre que nem as garagens de ônibus em São Paulo e nem a rede de distribuição estão prontas. Prefeitura, empresas de transporte e ENEL não entram em acordo. Ainda não há infraestrutura para que a meta de 2,6 mil ônibus com baterias se concretize. O prefeito Ricardo Nunes havia anunciado 600 ônibus elétricos circulando em 2023. Em abril de 2024, são pouco mais de 100 apenas.

*SEGURANÇA:*

Além disso, na questão da segurança, o Corpo de Bombeiros em Bogotá foi chamado para participar do processo de implantação dos ônibus elétricos e já há uma regulamentação sobre como devem ser instalados os carregadores das baterias e os protocolos de emergência.

Sobre a segurança, somente agora, em São Paulo, no dia 05 de abril de 2024, os Bombeiros abriram uma consulta pública para só aí definir as regras de implantação dos carregadores de veículos elétricos em todos os imóveis do Estado, incluindo garagens de ônibus.

De acordo com a corporação, se após a consulta pública, os atuas carregadores oferecerem risco, poderá ser necessário desinstalar as estruturas e começar tudo de novo.

*COMPRA DE ENERGIA NO MERCADO LIVRE E MAIS DE UM TIPO DE CONTRATO:*

Outro ponto que diferencia Bogotá de São Paulo, é que a capital colombiana ofereceu mais de um modelo de negócio e de implantação. Isso trouxe para Bogotá empresas de ônibus de outros países, como companhias europeias.

Além disso, a empresa de ônibus pode comprar energia elétrica no mercado livre, não dependendo apenas de uma distribuidora.

*VÁRIOS TIPOS DE ÔNIBUS NOS PLANOS DE REDUÇÃO DE EMISSÕES, NÃO SÓ ELÉTRICOS*

A diretora de planejamento da TransMilênio, Deysi Rodriguez, explicou ao Diário do Transporte que o processo de descarbonização do sistema de ônibus começou em 2011, com a licitação contemplando frotas de ônibus elétricos em 2019.

Além disso, diferentemente de São Paulo, nada tem sido radical.

As compras de ônibus a diesel com a tecnologia Euro 6, um padrão internacional que reduz em 75% as emissões, não serão proibidas. A previsão é de que haja redução de 50% das emissões de poluentes pelos ônibus em Bogotá até 2030.

Outra característica é a diversidade de tecnologias de frota. Não é só ônibus elétrico que faz parte dos planos.

O projeto de melhoria do ar conta com ônibus híbridos, a gás natural e com diesel Euro 6.

Na garagem da Green Movil, já há um ônibus a hidrogênio, que está em desenvolvimento, com empresas de diversas partes do mundo, inclusive, tendo a participação da brasileira Marcopolo.

Atualmente, a composição da frota de ônibus em Bogotá, de acordo com a tecnologia, é a seguinte:

*Diesel Euro 5*: 4157 ônibus (39% da frota) – serão trocados ao fim da idade permitida

*Gás Natural padrão Euro 6*: 2144 ônibus (20% da frota)

*Elétricos com bateria*: 1486 ônibus (14% da frota).

*Diesel Euro 4 (no Brasil não houve esta fase)*: 1068 ônibus (10% da frota) – serão trocados ao fim da idade permitida

*Diesel Euro 5 com filtro*: 701 ônibus (6% da frota)

*Diesel Euro 3 para baixo*: 544 ônibus (5% da frota) – serão trocados nos próximos meses e são residuais de contratos antigos, alguns de antes da implantação do sistema Transmilênio antes do ano 2000.

*Híbrido (movido a diesel Euro 5 e elétrico)*: 336 ônibus (3% da frota)

*Diesel Euro 6*: 238 ônibus (2% da frota)

*Total*: 10.674 ônibus

NOTA _Euro é uma norma internacional de restrição de poluentes para veículos de grande porte a diesel ou gás natural, quanto maior o número ao lado da palavra Euro, os ônibus e caminhões são mais novos, seguem regras mais rígidas e poluem menos_

*MODELOS DE NEGÓCIO:*

O diretor de vendas de ônibus da BYD no Brasil, Bruno Paiva, que esteve nas visitas técnicas, destacou que a flexibilidade dos modelos de contratos atraiu empresas até de fora da Colômbia e deu segurança jurídica e financeira aos investidores.

Foram feitas três licitações em separado, mas ao mesmo tempo praticamente:

– para escolher quem seria o responsável pela infraestrutura,

– quem seria o dono dos ônibus e

– quem iria operar.

Uma mesma empresa ou consórcio poderia se habilitar para tudo (infraestrutura, frota e operação) ou haver fornecedores para estes itens em separado.

Há os dois tipos em vigor atualmente porque os investidores escolheram.

Existem garagens em que uma mesma empresa é responsável por tudo e, em outras garagens, cada um fornece um serviço específico.

Paiva disse, no entanto, que, em sua maioria, o modelo de um consórcio assumir tudo acabou sobressaindo.

*COM OU SEM ENEL:*

A diretora de planejamento da TransMilênio, Deysi Rodriguez, explicou que são basicamente dois modelos de execução destes contratos, com ou sem a participação da distribuidora de energia ENEL ou sem a ENEL.

No modelo 1, a ENEL é dona do pátio e da infraestrutura. Neste caso, a ENEL tem um contrato de arrendamento com as empresas.

No modelo 2, as empresas operadoras e donas dos ônibus são responsáveis diretamente pela infraestrutura. A ENEL pode ou não ser contratada, mas há outras empresas de infraestrutura.

O investidor pode escolher o que achou ser melhor.

*DE ONDE VEIO O DINHEIRO?*

A gerente regional da BYD da Colômbia, Lara Zhang, disse que todo processo de implantação da eletrificação contou com subsídios governamentais, isenções de impostos e recursos de agentes financeiros nacionais e internacionais. A empresa chinesa também ajudou no contato com bancos internacionais.

Na Colômbia, o imposto para importação de veículos elétricos é zero.

A estimativa é que a eletrificação de parte da frota de transporte coletivo de Bogotá, com os ônibus e com a infraestrutura, tenha custado até agora, em torno de R$ 1,2 bilhão (na conversão de moedas). A cidade de São Paulo obteve linhas de crédito que somam R$ 5,75 bilhões

*TRANSMILÊNIO E SPTRANS EM NÚMEROS:*

Assim como São Paulo, Bogotá tem os serviços de ônibus troncais (estruturais) e alimentadores (locais de distribuição).

Em Bogotá, não há metrô e o trânsito é complicado quase todo o dia inteiro. Os carros, caminhões e motos são, em geral, velhos e os motoristas pouco prudentes.

Um sistema de VLT (Veículo Leve sobre Trilhos), chamado de metrô pelas autoridades, deve ser inaugurado até 2028.

Além disso, devem ser entregues até 2026, em torno de 78,6 km de novos corredores de ônibus. Hoje são 114,4 km.

A Transmilênio também envolve outros meios de transportes que têm integração tarifária e física com os ônibus, como o teleférico, que em 3,5 km registra 3,5 km de extensão total, e um sistema de bicicletas com 27 bicicletários que somam 7351 vagas.

*FROTA:*

*Transmilenio:* 10.674 ônibus, dos quais 3142 de grande porte para os corredores BRT e 7522 e menor porte nas linhas alimentadoras

*SPTrans:* 13.289 ônibus, dos quais 3.954 estruturais de maior porte; 3.374 de porte convencional e padron no grupo de articulação regional e 5.961 básicos, micrões ou micros na rede local de distribuição, que seriam os alimentadores.

*PASSAGEIROS TRANSPORTADOS:*

*Transmilenio*: 3,9 milhões de registros de passagens por dia, sendo 1,9 milhão no BRT e 2 milhões nos alimentadores.

*SPTrans*: Em torno de 6,8 milhões de passageiros por dia

*GARAGENS:*

*Transmilenio*: 61 garagens, sendo nove com frota 100% elétrica, uma com ônibus elétricos e á combustão juntos e 51 com ônibus a combustão.

*SPTrans*: 40 garagens

*EMPRESAS DE ÔNIBUS:*

*Transmilenio*: 43 concessionários

*SPTrans*: 32 concessionários

*HABITANTES*:

*Bogotá*: 7,8 milhões de habitantes

*São Paulo*: 12 milhões de habitantes

*GARAGENS E SOLUÇÕES PARA ALTO CONSUMO E PARA POUCO ESPAÇO:*

O Diário do Transporte esteve, a convite da fabricante de ônibus elétricos BYD, em Bogotá entre os dias 03 e 06 de abril de 2024, e conferiu de perto a operação em duas das nove garagens exclusivas para coletivos elétricos na cidade.

Dos 1486 ônibus elétricos na capital colombiana, 1373 são da marca BYD, feitos na China, e 13 da Yutong, também chineses.

Ao todo são 61 garagens de ônibus na cidade.

A reportagem também esteve na Transmilênio, empresa pública de transportes, responsável pelo gerenciamento do sistema, como se fosse a SPTrans na capital paulista.

Estrutura de recarga suspensa

Como já mostrou a reportagem durante a semana da visita, uma das garagens, do sistema de transportes de Bogotá, tem uma estrutura de carregamento das baterias suspensa. Tudo para economizar espaço, um dos problemas de São Paulo.

Na parte suspensa, há os carregadores e os dispensadores de energia.

Para carregarem as baterias, os ônibus entram embaixo dessa estrutura, uma mangueira com toda a fiação desce e é conectada aos veículos. É possível carregar ao mesmo tempo, 183 ônibus, e sem impactos na distribuição de energia para a vizinhança porque há subestações dedicadas a este carregamento.

Porém, quanto mais ônibus carregando ao mesmo tempo, mais lenta é a carga.

Sozinho, um ônibus pode ter a bateria completamente carregada em uma hora e meia. Se forem os 183 ao mesmo tempo, serão necessárias de sete a oito horas para a carga completa em cada um dos veículos.

No caso da empresa La Rolita, o modelo de negócio dessa operação é o seguinte: a empresa VG Mobilit é dona da garagem, da infraestrutura e dos 195 ônibus, todos BYD com carroceria Busscar colombiana.

A La Rolita, que tem como principal acionista a Transmilenio, do Governo, faz a operação e manutenção, possuindo 193 ônibus e atendendo a dez linhas que transportam 44 mil pessoas por dia.

Relembre e saiba mais detalhes sobre a La Rolita neste link:

https://diariodotransporte.com.br/2024/04/04/video-bogota-tem-garagem-com-estrutura-aerea-de-carregamento-de-onibus-eletricos/

Maior garagem da América Latina construída em um ano

A outra garagem visitada é da Green Movil, formada pela associação da empresa de ônibus francesa Transdev com a colombiana Fanalca. Cada uma tem 50% de participação na companhia.

Em 40 mil metros quadrados, é maior garagem de ônibus elétricos da América Latina. São 406 ônibus elétricos que consomem por dia uma quantidade de energia semelhante à consumida diariamente por uma cidade de 200 mil habitantes.

Duas subestações ao lado do pátio garantem que não ocorra falta de luz nos bairros ao redor. Este pátio enorme foi erguido em um ano apenas, com todo o processo de preparação do terreno até a instalação da infraestrutura.

A empresa tem 14 linhas, divididas em dois contratos de sete linhas cada, e transporta em torno de 80 mil passageiros por dia. São 1,2 mil funcionários, dos quais, 936 motoristas.

A garagem foi inaugurada em abril de 2022 e agora está com um projeto de ônibus a hidrogênio.

Toda a estrutura custou o equivalente a pouco mais de R$ 100 milhões, pela conversão de moedas.

Relembre e saiba mais detalhes sobre a Green Movil neste link:

https://diariodotransporte.com.br/2024/04/05/video-maior-garagem-de-onibus-eletricos-da-america-latina-foi-feita-em-um-ano-e-esta-em-bogota/

*Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes*

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Comentários

Comentários

  1. Rodrigo Zika disse:

    Isso é óbvio, SP é a eleição não a preparação.

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