Eletromobilidade

“O futuro da mobilidade pede mais foco e menos fé no canto da sereia high-tech”, diz pesquisador americano

As “soluções” caras e de alta tecnologia que nos vendem não são tanto um esforço para satisfazer as nossas necessidades práticas de transporte, mas uma forma de perpetuar a dependência insustentável do automóvel

Peter Norton, Historiador e Professor do Departamento de Engenharia e Sociedade da Universidade da Virgínia (EUA) lançará seu livro Autonorama na Arena ANTP

FÁTIMA MESQUITA, ESPECIAL PARA O DIÁRIO DO TRANSPORTE

Em 1939, a General Motors participou da Feira Mundial de Nova York com uma atração batizada de Futurama e que fez um retumbante sucesso mostrando um futuro cheio de avenidas e highways que cortavam cenas bucólicas do interior tanto quanto o frenético dia a dia das metrópoles. Mas o que a Futurama fez mesmo foi vender muito bem duas ideias que nós ainda seguimos comprando: a de que o transporte deve ter o carro como centro do seu universo e que as cidades precisam estar sempre prontas para acomodar essa majestade, o transporte individual.

Agora, Peter Norton, Historiador e Professor do Departamento de Engenharia e Sociedade da Universidade da Virgínia, dos Estados Unidos, chega ao Brasil para o lançamento do seu livro, Autonorama. Nele, Norton faz um alerta para o mais novo canto da sereia high-tech que, dessa vez, chega na forma de carros autônomos — ou como o professor prefere falar, carros robotizados: “Usar o termo ‘autônomo’ impressiona, mas eles são veículos robotizados que apenas repetem aquilo que foram programados para fazer. Claro que existem certos casos específicos em que carros e ônibus robotizados podem ser úteis, mas são apenas nichos e o foco neste tipo de veículo está distraindo a nossa atenção”.

Norton acredita que o nosso foco deveria ir além do samba de uma nota só em que o carro surge como o meio dominante: “Ninguém diz para um carpinteiro que ele deve usar só o martelo para todas as etapas do trabalho. É a mesma coisa na mobilidade. Tem hora e lugar em que a bicicleta é a melhor opção, ou é a caminhada, o ônibus ou o carro. A questão é que não precisamos nos limitar. Podemos fazer escolhas”.

O mesmo vale para a eletrificação?

Abordagem semelhante leva o autor a questionar se a mesma obsessão pela novidade high tech não está contaminando a conversa sobre a tão necessária descarbonização: “Eles são muito caros, há a questão da recarga, alguns problemas estruturais por conta do peso das baterias, o que ainda causa um desgaste maior. Sem falar no suprimento limitado do material necessário para se fazer as baterias e na problemática mineração desses minerais”.

Voltando, porém à analogia do carpinteiro, o professor reforça à ideia de que é preciso escolher com preciso a melhor ferramenta: “Não basta apenas descarbonizar. Precisamos encontrar como mover as pessoas gastando menos energia, mesmo no contexto da eletrificação, Então, apesar de o trólebus parecer uma coisa ultrapassada quando colocado ao lado de um ônibus elétrico com baterias, se a gente fizer uma comparação real, o trólebus é o grande vencedor”.

O professor ressalta ainda que não tem absolutamente nada contra a tecnologia de ponta: “O importante é analisar tudo e fazer escolhas baseadas no que de fato a tecnologia pode oferecer. A decisão não pode ser porque isso ou aquilo é mais chamativo, porque às vezes a novidade é o melhor que temos, mas nem sempre é assim”.

Autonorama e Arena ANTP

O lançamento do livro AUTONORAMA: uma história sobre carros “inteligentes”, ilusões tecnológicas e outras trapaças da indústria automotiva, vai acontecer no dia 25 de outubro, às 16h no Transamerica Expo Center como parte do grande confesso da mobilidade que é a Arena ANTP.

A atividade fará parte do painel Os limites do tecnosolucionismo: precisamos investir em transporte coletivo e não em carros inteligentes que, além de contar com a presença do próprio Peter Norton, terá a mediação do pesquisador Guilherme Moraes e os panelistas Andreas Behn da Fundação Rosa Luxemburgo, a jornalista e cientistas social Joyce Souza e o urbanista Lucas Girard. E, ao final, todo mundo poderá levar o seu exemplar gratuito do livro pra casa.

Para ver a programação completa da Arena ANTP e garantir o seu ingresso a custo zero, é só visitar o site www.arenaanatp.com.br e se registrar para o evento.

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