ESPECIAL – UITP Summit: O transporte público do mundo todo se encontra em Barcelona

Eletrificação, sustentabilidade e inovações tecnológicas dão o tom do que serão os próximos anos para o segmento

CRISTIANO MARTINS, especial para o Diário do Transporte

Apresentar ao mundo o que há de mais inovador e relevante para o transporte público mundial: esta é a importância da UITP Global Transport Summit, realizada no centro de exposições Fira Barcelona entre os dias 4 e 7 de junho de 2023.

A UITP Summit é o primeiro grande evento do segmento de transporte público realizado após a pandemia de Covid19, e se caracteriza pela presença de autoridades e especialistas de transporte público, participando em 85 sessões e mais de 300 palestrantes do Congresso da UITP, além de 335 expositores distribuídos em mais de 40 mil metros quadrados – entre eles, seis expositores de soluções nacionais ou com presença no mercado brasileiro, que apresentam aos visitantes tecnologias e tendências.

O Brasil está representado nos três dias de programação do Congresso em diferentes sessões e temáticas – entre elas, a mudança de comportamento do passageiro no pós-pandemia; a transferência de conhecimento na gestão do transporte público, e as práticas de inovação para a mobilidade urbana na América Latina.

Eleonora Pazos, Head para a América Latina da UITP, destaca que é o primeiro evento de relevância do segmento nos últimos quatro anos, e que, diferente do momento anterior, a tecnologia é a chave para as soluções a serem apresentadas. “A perda de passageiros é algo permanente na maioria das cidades, independentemente do local do mundo em que estão. O usuário tem novos hábitos de mobilidade, e há passageiros que desapareceram dos sistemas de transporte. A eficiência sempre foi importante para o transporte, mas a tecnologia se tornou mandatória para compensar as perdas.” De acordo com Eleonora, a eletrificação de sistemas, a digitalização proporcionada pelas tecnologias, e a preocupação com o impacto ambiental e sustentabilidade estão entre as principais características desse novo momento que o segmento de transporte público encontrará.

Valeska Peres Pinto, desde ontem Embaixadora Honorária da UITP, enxerga a edição da UITP Summit 2023 como um “teste” para como o segmento se comportará nos próximos anos: “No Congresso de Estocolmo, assumiu-se o compromisso da digitalização do setor, da sua automação e da eletrificação do segmento. Hoje, a pauta envolve mais que isso, a eletrificação ganhou outro contexto, fala-se em carbono zero, utilização de biocombustíveis, hidrogênio. Nós tinhamos estes objetivos, mas em 2021 e 2022 ninguém sabia o que iria ocorrer. Veio a invasão da Russia à Ucrânia, a questão do petróleo… O que esperamos encontrar nesse Congresso é uma demonstração de resiliência, com ajustes que podem ser feitos, vai mudar o ritmo que isso pode ser feito, e os momentos em que diferentes regiões conseguirão fazer“.

Já Rodrigo Tortoriello, vice-presidente de Relações Institucionais da Semove e delegado da UITP, destaca que a feira é uma oportunidade ímpar para a troca de experiências, chamando a atenção para a mudança de ótica do planejamento operacional, direcionado para atender as necessidades do cliente final. De acordo com Rodrigo, se destacam entre os expositores as tecnologias de transporte mais sustentável, como ônibus elétricos e autônomos, que, à primeira vista parecem distantes do público brasileiro, mas em 3 ou 4 anos, com o barateamento de componentes, podem fazer parte da realidade. A expertise em operação, em tecnologias de informação ao usuário e, em bilhetagem eletrônica, em um mercado grande como o nosso, são características que Tortoriello aponta como de interesse para os públicos de outros países.

A UITP

Com cerca de 1900 membros distribuídos em mais de 100 países, a UITP – sigla em inglês para Associação Internacional do Transporte Público – é a única entidade que reúne operadores, gestores, indústrias, acadêmicos e associações do mundo todo, e tem como principal missão a busca por um transporte público mais sustentável. Sediada em Bruxelas, possui uma divisão voltada para a América Latina com sede em São Paulo.

Durante a cerimônia de abertura da UITP Global Transport Summit, realizada na tarde do domingo, 5 de junho, a Assembleia Geral da UITP elege o novo comando da instituição. e Reneé Amilcar, Gerente Geral de Transportes da cidade de Ottawa, Canadá, foi escolhida para a presidência da entidade. A Assembleia também definiu a criação de um grupo de trabalho voltado para o transporte sob demanda, modalidade em expansão no mundo todo.

Também foram anunciados os vencedores do UITP Awards, premiação que reconhece as boas práticas e inovações no segmento do transporte público (foto acima). Entre os vencedores, o MetrôRio foi premiado na categoria Diversidade e Inclusão, com o projeto “Programa de Jovens Aprendizes Mulheres: Diversidade de Gênero na indústria do transporte”.

UITP, 20 anos na América Latina

O UITP Summit também é oportunidade para celebrar: a divisão da UITP para a América Latina comemora seus 20 anos de criação com programação direcionada aos associados da região e realiza a entrega do prêmio local à iniciativas e projetos de destaque. Na terça, 6 de junho, a partir das 10 da manhã (horário de Barcelona), será realizado o anúncio dos vencedores do prêmio. O evento também contará com uma homenagem póstuma a Otávio Vieira, presidente da NTU, falecido em 2023.

Escolhida como embaixadora honorária da UITP, Valeska Peres Pinto foi uma das fundadoras da divisão para a América Latina, e relembrou os primeiros movimentos para a integração do setor na região: entre os anos 80 e 90, o sistema de transporte foi desregulamentado na maior parte dos países, fragmentando também a integração entre os entes. O Brasil experimentava o crescimento do transporte clandestino, e era o único a possuir uma associação voltada ao transporte público, o que facilitou a implantação da divisão regional.

Já Eleonora Pazos destaca a profissionalização do segmento do transporte público nestes 20 anos da divisão. Em 2003, cinco membros fundadores participaram deste processo, no congresso de Madri, e a grande maioria eram de serviços ferroviários. Havia uma certa dificuldade para a UITP de estabelecer uma organização, pois era muito pulverizada a relação com operadores, grande maioria familiares, e a produção local era incipiente. “Há 20 anos atrás, a pauta de mobilidade não cruzava a sociedade como hoje em dia, todo mundo hoje tem alguma opinião sobre mobilidade, mesmo que não seja um usuário. Se falava muito em saúde, em educação, e hoje não há um governante que não fale sobre mobilidade. Muitas cidades não tinham nem autoridades para cuidar somente do transporte“, ressalta Eleonora.

Eleonora Pazos, Head para a América Latina da UITP

A integração entre diferentes países permitiu que iniciativas fossem compartilhadas entre diferentes personagens, contribuindo para a organização de sistemas de transporte. A criação de corredores exclusivos para ônibus como o Transmilênio, em Bogotá, e Transantiago, na capital chilena, e a melhoria de sistemas metroviários como o de Buenos Aires estão entre as experiências que Valeska destaca como relevantes nesses 20 anos da UITP América Latina.

A eletrificação das frotas, em consolidação especialmente no Uruguai, e a integração dos modais e das organizações que gerenciam os sistemas no México são dois dos pontos destacados por Valeska que merecem atenção. Já Eleonora enxerga uma maturidade do setor no momento atual, e aponta como principal desafio para os próximos 20 anos encontrar novas fontes de financiamento do transporte público sem deixar de lado premissas como a sustentabilidade.

Cristiano Martins é jornalista e realiza a cobertura especial da UITP Global Transport Summit 2023 para o Diário do Transporte a convite da Bus2

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