Sobre Kombis ilegais, “carros voadores” e Mobilidade 5.0

Marcionilio Sobrinho, CTO da Empresa 1

O desenvolvimento de novas tecnologias para o setor de transportes deve ter como norteador o pensamento e foco em quem são as pessoas que vão utilizá-las

MARCIONILIO SOBRINHO

A mobilidade urbana é um grande desafio para as capitais e outras grandes cidades brasileiras, principalmente pelo seu crescimento desorganizado, para além do planejado, em locais, por vezes impróprios para moradia e com construções que dificultam soluções de trânsito. Ao mesmo tempo, com orçamento limitado, os municípios tendem a priorizar os pontos com maior circulação de pessoas, investindo em melhorias nos centros comerciais/administrativos e grandes corredores de tráfego.

Por isso, vemos crescer dentro do setor, análoga à ideia de Sociedade 5.0 — que é humana, colaborativa e super inteligente — a ideia da Mobilidade 5.0. Esse é um movimento essencial, na medida em que a mobilidade urbana já tem na sociedade o mesmo nível de importância dos serviços de saúde e educação. A cidade inteligente é aquela em que o cidadão tem qualidade de vida, e o transporte público é um dos indutores desta transformação.

Precisamos criar uma mobilidade urbana que faça as pessoas preferirem o transporte público e “desafogar” o trânsito, oferecendo velocidade, segurança e maior conforto. De acordo com o Relatório Anual de Mobilidade Urbana da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), o número de carros nas ruas do Brasil aumentou em 119% entre 2001 e 2018, enquanto a população cresceu apenas 30%. Para trajetos mais curtos, a falta de ciclovias também faz os cidadãos optarem pelos carros, próprios ou por aplicativo. Atravessar cidades que já são grandes em vias lotadas faz a população gastar boa parte de seu tempo em trânsito, algo nada prático e demasiado estressante.

A predominância do transporte público e da bicicleta seriam essenciais, também, à questão ambiental, por diminuir as emissões de carbono. Nesse quesito, é preciso investir na transição dos meios de transporte já existentes para meios mais sustentáveis. Existe um novo projeto no Rio de Janeiro que é realmente futurístico: a Embraer está desenvolvendo um “carro voador” que promete ser o futuro da mobilidade urbana e dos aviões elétricos, contribuindo para a descarbonização do setor de aviação. Já estão mapeando rotas na cidade e o primeiro voo de teste do eVTOL será realizado até o início de 2024, com certificação prevista para 2026.

O projeto é incrível? Sem dúvidas. Mas ele só será um verdadeiro sucesso quando os moradores do Complexo do Alemão, por exemplo, não tiverem como única forma de saída da comunidade as Kombis e os mototáxis não regulamentados pela prefeitura, que não opera transporte público ali. Precisamos sim, investir em soluções de transição até que este projeto vire realidade e seja acessível. A Mobilidade 5.0 é muito mais do que a última inovação do mercado, é um ecossistema de melhoria de qualidade da vida urbana acessível a todos, e essa é uma falta vivida por muitos.

Os desafios são inúmeros e imensos, mas fico feliz por fazer parte de um movimento que quer enfrentar todos eles. Acredito que o desenvolvimento de novas tecnologias para o setor de transportes deve ter como norteador o pensamento e foco em quem são as pessoas que vão utilizá-las. É dessa forma que criamos soluções, o mais aderentes possível, a toda uma cidade, como a Empresa 1 fez em 1997, quando implantou no Brasil a bilhetagem eletrônica para o transporte público, trocando o ticket de papel por um cartão inteligente.

Hoje, todas as grandes cidades usufruem do Sistema de Bilhetagem Eletrônica (SBE), que proporciona uma gestão muito mais eficaz do embarque de passageiros no transporte público. Em primeiro lugar, traz mais velocidade para o processo, reduzindo o tempo viagem. Em segundo, mais segurança, porque elimina ou reduz o dinheiro circulante no veículo, por um lado, e porque sua tecnologia impede tentativas de fraude, por outro. Ao SBE somam-se outras tecnologias desenvolvidas ao longo desses anos, como o Sigom Telemetria (que monitora veículo e motorista em tempo real, diminuindo possíveis ações imprudentes no trânsito), com foco no bem-estar e na segurança da população. Esse é o caminho da Mobilidade 5.0.

Marcionílio Sobrinho – CTO da Empresa 1, centro de inovação em mobilidade urbana e pioneira da bilhetagem eletrônica no Brasil

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Comentários

Comentários

  1. Ligeiro disse:

    A operação do transporte PÚBLICO não deveria ser alvo de lucratividade. Este é o ponto número 1, notório quando vemos outros lugares que já tem uma estabilidade nas operações de transporte público – como países europeus.

    A existência do transporte irregular – como vans e “Kombis” – se dá tanto pela ausência (ou até conveniência) do Estado quanto pela falta de atenção de quem se diz a favor do transporte público mas quando está lá muitas vezes opera com descaso (como empresários).

    Se a tecnologia ajudasse no transporte público, teríamos talvez uma melhor atenção do usuário, dado que geralmente as tecnologias ajudam na cobrança de tarifa (bilhetagem eletrônica) quanto no monitoramento e previsão de rota (GPS).

    A realidade é outra.

    A bilhetagem eletrônica no Brasil é falha e mal implementada. Restrita apenas à operação de uma cidade ou região, sem integrações, um cidadão depende de se locomover até uma das poucas sedes onde emite o bilhete para poder ter um. E quando perde, o custo da segunda via muitas vezes acaba-se inviável. Isso também acaba no constrangimento de idosos – dado a questão da briga para o uso do RG no lugar do bilhete.

    O caso do TOP é um dos mais notórios. Os bilhetes exclusivos para operação simples (Transporte) são emitidos em poucos pontos da região metropolitana de São Paulo, enquanto que em uma tentativa de venda casada, o bilhete com “função bancária” é emitida em lojas que não tem nada a haver com transporte público.

    Em cidades menores, apenas um ponto de emissão de bilhete eletrônico é existente na cidade. E muitas vezes as cidades em uma região tem interdependência, sendo necessário integração entre serviços. Conta-se também o fato que existe cidades sem transporte público municipal, com serviços apenas operados por uma concessionária estatal ou regional – uma olhada no entorno da região do Aglomerado de Jundiaí constata isso.

    Nisso os ilegais atuam. O vácuo do Estado – e do empresariado – sempre é ocupado por uma ilegalidade. Um terreno abandonado vira ocupação irregular. Um ponto ermo em uma longa rodovia pode virar uma parada não documentada. E para ligar estes lugares, sempre haverá “uma boa alma(?)” disposta a ajudar e a ganhar algum pequeno lucro em cima com uma “lotação”. E sem a burocracia de ter que fazer um bilhete cuja segunda via é tão cara quanto uma viagem daquela parte da região até outras cidades três vezes mais distantes que o centro da região.

    A gente não precisa de reinvenção da roda. De carros voadores. De “novas formas de transportar” – da última vez que alguém falou assim, saturou a cidade de veículos particulares e motoristas mal remunerados. De terecotecos e trecnologias.

    Apenas precisamos de um transporte público funcional. Barato, justo, até se possível sem custos diretos ao cidadão (Vargem Grande Paulista que o diga).

    Se o GPS for barato e ajudar a fazer as pessoas a preverem a rota, ótimo. O resto é supérfluo.

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