Com crise pela pandemia, viagens de ônibus voltam a superar as de avião em 2021, diz IBGE

Nos domicílios com menor renda, 35,1% das viagens foram para tratamento de saúde

ADAMO BAZANI

Em 2011, o número de viagens por avião superou as viagens por ônibus pela primeira vez no Brasil e, nos anos seguintes, a disputa foi bem acirrada entre as duas opções de deslocamento até que veio a pandemia de covid-19, alta do dólar, reação das empresas de transportes terrestres e o quadro se inverteu.

A PNAD Contínua Turismo 2020-2021 do IBGE, divulgada nesta quarta-feira, 06 de julho de 2022, revela que 12,5% das viagens realizadas em 2021 foram em ônibus de linha (sem contar fretamento) e 10,2% de avião. A maioria das viagens interestaduais foi de carro, 57,2%.

A pesquisa quantifica os fluxos de turistas nacionais entre as diferentes regiões do país e para o exterior. Em 2020 e 2021, foram apurados gastos e características das viagens realizadas, associados a outras variáveis, incluindo o rendimento domiciliar per capita.

“Os resultados refletem os impactos causados pela pandemia no comportamento das pessoas em relação às atividades turísticas. As viagens caíram 41% entre 2019 e 2021 e essa queda atingiu todas as classes de rendimento. O ano de 2021 foi ainda pior para o turismo que o de 2020”, aponta a analista da pesquisa, por meio de nota, Flávia Vinhaes. Em 2019, foram realizados 20,9 milhões de viagens e, em 2021, 12,3 milhões.

Segundo o IBGE, a proporção de domicílios em que algum morador viajou caiu de 21,8% em 2019 para 13,9% em 2020 e para 12,7% em 2021.

Em cerca de um terço (33,1%) dos domicílios com renda per capita de quatro ou mais salários mínimos, algum morador viajou em 2021. No extremo oposto, em apenas 7,7% dos domicílios com renda per capita abaixo de meio salário mínimo, algum morador viajou no mesmo ano.

A PNAD levantou pela primeira vez os gastos com turismo. Em 2021, os gastos totais em viagens nacionais com pernoite somaram R$ 9,8 bilhões, contra R$ 11,0 bilhões em 2020.

A proporção de viagens internacionais caiu de 3,8% em 2019 para 0,7% em 2021. Dos 12,3 milhões de viagens analisadas no ano passado, 99,3% tiveram trajeto nacional. Em 2020, as viagens dentro do país representaram 98,0% dos 13,6 milhões de viagens detalhadas pela pesquisa. De acordo com a analista, esse dado está relacionado a outro indicador: o meio de transporte utilizado pelos viajantes.

“Uma característica marcante nas viagens analisadas é que a maioria delas é feita de automóvel, seja de carro pessoal ou de empresa. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, é bem mais raro uma pessoa sair do país utilizando carro. Em geral, ela viaja dentro da mesma região em que mora ou até do mesmo estado”, pontua.

MOTIVOS DE VIAGEM:

Não são apenas os veículos de transporte que mudam de predominância de acordo com a renda.

A PNAD Turismo mostrou que entre as classes de rendimento abaixo de meio salário mínimo, a prioridade é outra: 35,1% das viagens se destinaram a tratamento de saúde. A visita a parentes ou amigos aparece em segundo lugar para esse grupo, com 31,4%, e apenas 14,3% delas foram feitas por lazer.

Em 2021, cerca de 85,4% das viagens tiveram finalidade pessoal, enquanto 14,6% foram profissionais. Os principais motivos pessoais de viagem são lazer (35,7%), visitas a parentes ou amigos (32,5%) e tratamento de saúde (19,6%). Essa última categoria inclui os trajetos feitos para consultas médicas, internações ou cirurgias e atendimento psicológico.

O lazer foi predominante como motivo de viagem entre os domicílios com rendimento domiciliar per capita igual ou superior a um salário mínimo. Nos lares com renda per capita de quatro ou mais salários mínimos, mais da metade (57,5%) dessas viagens pessoais foi feita por lazer.

SÃO PAULO É O PRINCIPAL DESTINO:

O IBGE aponta ainda que o principal local de hospedagem relatado pelos entrevistados em 2021 foi a casa de amigos ou parentes, com 42,9%. Em 2019, ela já aparecia como a opção de quase metade das viagens (47,2%). No ano passado, foi seguida pela categoria Outro (28,2%), que inclui casa de apoio, hospital, veleiro, local do trabalho, entre outros tipos de alojamento. Já a opção hotel, resort ou flat foi escolhida por 14,7%.

Essa categoria foi o principal tipo de hospedagem entre aqueles que viajaram com finalidade profissional em 2019, com 45,5%. Mas, em 2021, esse percentual caiu para 28,3%, ficando atrás de Outro (38,8%).

A pesquisa também aponta que as regiões mais visitadas no Brasil foram Sudeste (40,9%), Nordeste (28,2%) e Sul (17,3%). Parte expressiva dos deslocamentos aconteceu dentro de uma mesma região e até no interior dos estados. São Paulo aparece em primeiro lugar entre os destinos mais procurados para as viagens nacionais, concentrando 20,6% dos viajantes do país. Esse estado foi seguido por Minas Gerais (11,4%), Bahia (9,5%), Rio de Janeiro (6,6%) e Rio Grande do Sul (6,5%).

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

 

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