TJSP nega recurso da Garcia e mantém decisão que determinou mesmos preços praticados pela Andorinha em trecho paulista

Problema ocorre em decorrência de regulações diferentes entre ANTT e Artesp; Processo foi remetido à Justiça Federal

ADAMO BAZANI

A 1ª Câmara Reservada de Direito Empresarial negou um recurso da Viação Garcia, do Paraná,  contra decisão em favor da Empresa Andorinha de Transportes, de São Paulo, e manteve a determinação de a empresa paranaense seguir os preços determinados pela Artesp (agência reguladora de São Paulo) praticados pela companhia paulista no trecho que concorrem.

A briga jurídica entre as duas empresas de ônibus é mais um reflexo do excesso de regulação sobre o transporte de passageiros e as disparidades entre as regulações estaduais e nacional sobre o setor.

O modelo atual de regulações abre brechas para produtos como ônibus de aplicativos, que sem seguir normas como gratuidades e itinerários, horários e preços engessados, acabam atraindo passageiros do sistema regular.

A decisão da Câmara é de 20 de outubro de 2021 e foi publicada nesta quinta-feira (04).

Por meio de nota ao Diário do Transporte, a Viação Garcia diz que decisão transfere o processo da Justiça Estadual para a Federal, que vai analisar toda a questão

A Viação Garcia esclarece que o acórdão em questão decidiu que a Justiça Estadual de São Paulo é incompetente para julgar o caso e que este será remetido para a Justiça Federal de primeiro grau, a qual irá apreciar e decidir todas as questões apontadas nos autos. Desta forma, as decisões anteriormente tomadas, para terem validade e eficácia, precisarão ser novamente apreciadas, analisadas e decididas pelo Juízo Federal, tendo agora a intervenção da ANTT como parte interessada.

O Diário do Transporte já havia mostrado a primeira decisão em 23 de novembro de 2020 que foi mantida.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2020/11/23/viacao-garcia-tera-de-seguir-precos-da-artesp-no-trecho-entre-sao-paulo-e-presidente-prudente-apos-acao-da-andorinha/

Fica, por ora, mantida a tutela provisória deferida pelo MM. Juízo a quo na sentença apelada (fls. 590/595 c/c798/800), também pelos fundamentos expostos por esta 1ª Câmara Reservada no AI 2021995-40.2020.8.26.0000, cuja ementa foi transcrita anteriormente. O juiz competente para apreciar o caso, oportuno tempore, decidirá a respeito da persistência ou não da tutela.

A Câmara, entretanto, remeteu o processo à Justiça Federal, uma vez que há contestações sobre uma linha interestadual gerenciada pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), um órgão federal.

Embora no AI 2021995-40.2020.8.26.000esta Câmara tenha se posicionado pela competência da Justiça Estadual, sobreveio posteriormente aos autos, como relatado, a referida e transcrita manifestação da Agência Nacional de Transportes Terrestres, arguindo ter interesse no feito

Isso posto, como dito, por incompetente a Justiça do Estado, determino a remessa dos autos à Justiça Federal, onde também quais atos processuais instrutórios ou decisórios devam ser aproveitados, dentre aqueles já praticados nos autos.

Como explica o processo, a Viação Garcia tem linha interestadual, gerenciada por um órgão federal (ANTT – Agência Nacional de Transportes Terrestres), entre os estados de São Paulo e Paraná, mas com seção em um trecho operado pela Andorinha dentro o Estado de São Paulo, cujas atividades são gerenciadas pela Artesp (Agência Reguladora de Serviços Públicos Delegados de Transporte do Estado de São Paulo), órgão estadual.

A ANTT permite promoções de preços e é mais flexível quanto às tarifas diferentemente da Artesp.

Com isso, somando ao fato de ter ganho de escala uma vez que o trecho paulista está inserido em uma linha maior, a Garcia conseguiu ofertar melhor preços de passagens que a Andorinha.

A Andorinha, por sua vez, reclama que isso travou uma concorrência desleal e argumentou que se a seção é em São Paulo, devem ser seguidas as regras em de São Paulo.

A requerida tinha autorização para os itinerários Colorado/PR São Paulo/SP e Porecatu/PR São Paulo/SP. Após permissão da requerida para os itinerários Porecatu/PR Presidente Prudente/SP, a requerida passou a anunciar viagem de Presidente Prudente/SP São Paulo/SP, por um valor bem inferior (R$ 99,00/leito e R$ 180,00/cabine com cama) ao praticado pela autora (a partir de R$ 134,49/convencional e R$ 302,71/leito), o que configura concorrência desleal. Ainda, imputa a requerida a prática de propaganda enganosa, ao informar, som maiores explicações, que o trecho tem conexão

A própria Justiça destaca que as regulamentações diferentes causam este tipo de situação.

Duas fontes de normatização e fiscalização distintas, com regras próprias. Ambas comprovaram autorização, concessão ou permissão para encetar percursos de transportes, dentro da limitação de suas atividades que, assevere-se, são distintas: uma presta serviço intermunicipal de transportes; outra serviço interestadual de transportes. O que se questiona e a requerida não quis ver é se entre os pontos de seccionamento pertencentes ao mesmo Estado da Federação pode ela também fazer o transporte.

A “não conversa” entre as mais diferentes agências ou empresas gerenciadoras de serviços públicos é comum não só nos transportes rodoviários, mas também nos urbanos e metropolitanos.

Não são raros casos de decisões contraditórias, que inviabilizam ou dificultam o atendimento ao passageiro de reguladoras dos Estados e dos municípios.


 

 

Veja a decisão na íntegra:

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Patrick Teruo disse:

    E a andorinha cobra R$ 69.00 entre são Paulo para londrina, “ah mais são dois órgãos diferentes e a artesp do é tabelado” balela!!! é só pedir o desconto na artesp pra igualar o valor da Garcia como a prata fez com a entrada da Guerino.

    1. Marco Dias disse:

      Não é bem assim! Vamos esclarecer alguns pontos. Para começo de conversa: ICMS dentro do estado de SP = 18%. ICMS interestadual = 12%. Só aí já tem um déficit de 6% contra a Andorinha. Outra coisa: a tabela da Artesp tem um limite para desconto. A Garcia sequer tem cadastro na Artesp para fazer uma linha intermunicipal em SP, como bem pontuou o juiz. Muitos agem simplesmente como “torcida” pq preferem empresa A ou B, mas é preciso agir dentro da lei. Vamos aguardar a decisão final. Pelo que li do processo até o momento, está tudo muito bem embasado.

  2. Natan Jr. disse:

    Codorninha e a justiça um caso de amor

    1. Marco Dias disse:

      Pirracinha e argumento infantilizado denegrindo a concorrente da empresa do coração acho que não ajuda na discussão. Se der ruim essa ação a Garcia poderá ter que desembolsar uma boa grana. Ainda bem que é uma grande empresa e não terá problemas caso precise arcar com indenizações.

  3. juniorcapela disse:

    Deixo meus parabéns a ARTESP, pela quantidade de normas, regras e regulamentos, sempre pensando no passageiro…
    ARTESP, um órgão que estimula a livre concorrência…
    Esse órgão sempre esteve ao lado dos passageiros, e NUNCA esteve ao lado das grandes empresas do setor…
    Um órgão ‘preocupadíssimo’ com o estado dos ônibus das grandes empresas do setor, um órgão preocupado para que as grandes empresas de transporte rodoviário ofereçam ônibus novos, uma grande variedade de horários, e principalmente, para que o passageiro possa escolher o melhor preço e em qual empresa ele pode viajar…
    Amo esse órgão regulador estadual, pois ele sabe melhor do que o passageiro, qual empresa é a mellhor e qual oferece o melhor preço…
    Na verdade, esse órgão está certo em decidir pelo passageiro, pois ele (passageiro), não tem condições de escolher a melhor empresa e os melhores preços…
    Ah, se não fossse o nosso “papai estado” para interferir na livre concorrência, para ditar (cagar) regras e normas, e decidir tudo pelos passageiros…

    1. Marco Dias disse:

      É assim em todos os estados. Não adianta se revoltar só com a Artesp. Aqui no PR também, ninguém entra no território da Garcia, por exemplo.

  4. ANTONIO MARCOS DAMETTO disse:

    Penso que, como é trecho intermunicipal, está na alçada do governo estadual. Portanto deve-se seguir as regras do Estado de São Paulo. Agora, quanto aos Onibus de aplicativo, esses sim, estão fora da lei, pois não obedecem a nenhuma regulamentação. Ai vai se formando uma terra sem lei. Um balaio de gato.

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