ENTREVISTA: FlixBus vai somente trabalhar com linhas regulares autorizadas e garantir retorno às empresas de ônibus

De acordo com diretor da FlixBus, Edson Bezerra Lopes, em entrevista ao Diário do Transporte, haverá compartilhamento de receita com as viações, ônibus serão plotados com marca e investimento em captação on line de passageiros será todo assumido pela plataforma

ADAMO BAZANI

Ouça neste botão de áudio:

A startup alemã FlxiBus, que atua na área de mobilidade em mais de 30 países na Europa, chega ao Brasil e deixa claro: só vai atuar em parceria com as empresas de ônibus nas linhas regulares autorizadas pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e, posteriormente, com a possibilidade nos transportes estaduais.

O Diário do Transporte conversou nesta quarta-feira, 15 de setembro de 2021, com o diretor-geral da FlixBus, Edson Bezerra Lopes, que esclareceu que a empresa internacional não vai atuar da mesma forma que atuais aplicativos de ônibus, como a Buser, por exemplo. Mas também não vai ter operações com ônibus próprios.

O modelo de atuação será de parceria, em especial voltada para pequenos e médios empresários de ônibus.

“Basicamente, o que nós fazemos é tudo, menos comprar e manter o ônibus e ter os motoristas. Todo o resto: canal de vendas de passagens online, suporte ao cliente, controle de tráfego, uso de tecnologia para a parte de segurança, construção da experiência do cliente, tudo isso fica com a FlixBus” – disse.

Nosso modelo não é igual ao da Buser. Só vamos trabalhar com autorização da ANTT no transporte interestadual e, futuramente, por que não participar dos processos de autorização, licitação, etc, nos níveis estaduais.” – explicou

Compartilhamento de receitas:

Lopes também disse ao Diário do Transporte que outra característica do modelo é o compartilhamento de receitas com os donos de empresas de ônibus.

“Não será como um prestador de serviço de fretamento. O operador entra numa parceria na qual ele vai ficar com um percentual da receita e a gente também. Os dois estão com riscos somados. O operador entra com o risco do seu patrimônio, frota, e nós também temos nossos riscos. A gente só ganha dinheiro se o operador ganhar dinheiro” – disse.

Mínimo garantido:

Outra característica do modelo da Flixbus, segundo o executivo ao Diário do Transporte, é o mínimo garantido.

“Independentemente da estratégia de precificação que a gente for adotar, para cada quilômetro naquela rota, a gente vai pagar um valor mínimo. Estes valores são negociados de acordo com cada caso.”

O executivo disse que inicialmente, a FlixBus vai assumir os riscos de passagens mais baratas.

Marketing e captação online de passageiros:

O orçamento inicial nas parcerias, a não ser com as frotas, será assumido pela FlixBus.

O marketing e a captação online de passageiros serão custeados pela FlixBus

“O orçamento inicial virá da FlixBus, que é uma empresa grande, de um mercado global. Alguns riscos, até como estratégias de marketing, tem de ser do nosso lado” – garantiu

Tipos de empresários de ônibus:

A FlixBus trabalhará no Brasil com dois tipos de empresários de ônibus:

  • Operadores que não têm licença, mas que quer ter autorização da ANTT para operar ônibus interestaduais. Aí podem entrar operadores de ônibus regulares estaduais e ônibus de fretamento que querem atuar de forma regular. Nunca por “fretamento colaborativo”
  • Operadores de ônibus que já possuem autorização da ANTT, mas que não conseguem operar com a capacidade máxima que têm e estão com dificuldades de competir com grupos maiores.

Quais são os passos para as empresas de ônibus:

Após o contato com a empresa de ônibus é entender o objetivo da transportadora: se tem autorização, se não tem, quais as linhas já operadas e pretendidas. Com uso de “tecnologia de ponta” são feitos estudos sobre a viabilidade das linhas. É analisada também a aplicabilidade da frota para as pretensões da empresa.

É feito também um estudo de como adequar a situação da empresa aos padrões da Flixbus, inclusive com a adaptação de uso de tecnologia e questões de operação.

Em resumo são três passos:

– Contato inicial para a FlixBus entender a empresa de ônibus e a empresa de ônibus entender a FlixBus

– Negociação dos termos do contrato, que podem variar de acordo com cada empresa, com a análise das linhas e da frota

– Aplicação do contrato.

Ônibus plotados:

Obrigatoriamente todos os ônibus dos parceiros vão receber a plotagem verde-limão com a pintura mundial da marca FlixBus.

Segundo o diretor-geral da FlixBus, Edson Bezerra Lopes, porém, o passageiro vai saber qual é a empresa transportadora

Passagens mais baratas:

A FlixBus promete que seu modelo vai garantir bilhetes mais baratos para os passageiros de ônibus rodoviários. Isso se dará, segundo a empresa, pelo aumento competitividade, aumento de pontos de embarque, com os riscos assumidos pela startup e pelo uso da tecnologia, além da “otimização” de processos.

E se o ônibus bater ou a viagem extraviar?

O diretor-geral da FlixBus, Edson Bezerra Lopes, disse ao Diário do Transporte que a startup vai trabalhar com as empresas para criar um padrão de atendimento que reduza acidentes e incidentes nas viagens.

Entretanto, em ocorrências como acidentes e extravios, cada caso será analisado individualmente sobre a responsabilização das partes: FlixBus e empresas de ônibus.

PL 3819:

Edson Bezerra Lopes acredita que o Projeto de Lei 3819, do senador Marcos Rogério, sobre a regulamentação do transporte rodoviário, aprovado pelo Senado em 15 de dezembro de 2020, vai passar por modificações na Câmara.

“Não foi votado na Câmara ainda justamente porque existem alguns pontos polêmicos. Na nossa visão, temas como a frota própria e viabilidade econômica são temas que nem combinam com o regime de autorizações e com o processo de abertura de mercado. Estes temas foram adicionados ao PL por interesse de alguns grupos econômicos.” – disse.

Lopes diz que a FlixBus acredita que a regulação do setor será mais flexível, até mesmo pela posição assumida nesse sentido pelo Minfra (Ministério da Infraestrutura), mas que a startup está apta a se adaptar com as atuais normas em vigor, com base na resolução atual 4770, que, entretanto, não é considerada ideal pela empresa.

A FlixBus não pretende atuar como “intermediadora” entre passageiros e empresas, como aplicativos como a Buser se propagam, mas atuante por meio de contrato com as empresas de ônibus nos processos de prestação de serviços, gestão e marketing.

Ouça neste botão de áudio:

Veja alguns pontos da redação aprovada pelo Senado em 15 de dezembro de 2020 e que podem ou não ser mudadas pela Câmara:

INTERMEDIADORAS FICAM PROIBIDAS DE ATUAR NO TRANSPORTE REGULAR:

A intermediação de serviços e venda individual de passagens por intermediadoras ficam proibidas.

Art. 1º A Lei nº 10.233 de 5 de junho de 2001 passa a vigorar com as seguintes alterações: “Art. 13………………………………………………………………… V – autorização, quando se tratar de: a) prestação não regular de serviços de transporte terrestre coletivo de passageiros, vedada a intermediação e a venda individual de bilhete de passagem. …………………………………………………………………………….” (NR)

SEM LIMITES DE AUTORIZAÇÕES:

Pela nova proposta, não haverá limites quanto ao número de autorizações, a não ser em caso de inviabilidade econômica de cada mercado

Art. 47-B. Não haverá limite para o número de autorizações para o serviço regular de transporte rodoviário  interestadual e internacional de passageiros, salvo no caso de inviabilidade técnica, operacional e econômica.

SEM SECCIONAMENTOS INTERMUNICIPAIS:

A nova redação prevê o impedimento de prestação de serviços intermunicipais dentro das linhas interestaduais

A outorga de autorização deverá considerar, sem prejuízo dos demais requisitos estabelecidos em lei: I – os mercados ofertados em cada linha a ser autorizada, vedada a realização de seccionamentos intermunicipais;

GRATUIDADES:

Todas as novas autorizações devem prever as gratuidades e benefícios sociais para os passageiros com direito

– a obrigatoriedade de oferecimento de gratuidades e de descontos tarifários previstos na legislação, com a devida forma de ressarcimento desses valores, que se limitarão exclusivamente ao serviço convencional, nos termos do regulamento do Poder Executivo;

CAPITAL SOCIAL MÍNIMO:

A nova redação da proposta exige que as empresas interessadas em autorizações tenham um capital social mínimo de R$ 2 milhões.

– a exigência de comprovação, por parte do operador, de: a) requisitos relacionados à acessibilidade, segurança, capacidade técnica, operacional e econômica da empresa, proporcional à especificação do serviço, conforme regulamentação do Poder Executivo; b) capital social mínimo de R$ 2.000.000 (dois milhões de reais).

FROTA MÍNIMA PRÓPRIA:

A proposta nova prevê ainda que a empresa que solicitar autorização tenha frota mínima de 60%

III – as características técnicas e de segurança da frota com que pretende operar as linhas, limitada a utilização de 40% da frota de veículos de terceiros;

ESTUDO DE VIABILIDADE ECONÔMICA:

A empresa interessada deve apresentar também um estudo de viabilidade econômica para a linha

IV – os endereços e as coordenadas geográficas dos terminais, dos pontos de apoio e dos pontos de parada que pretende utilizar; V – o estudo de viabilidade econômica para o mercado pretendido.

MULTAS DE ATÉ R$ 3 MIL:

A nova proposta também cria um limite de R$ 3 mil para multas a operadores de ônibus, com possibilidade de correções anuais.

As infrações aos serviços de transporte rodoviário interestadual e internacional de passageiros, realizado por operador brasileiro, sem prejuízo de sanções por infrações às normas legais, regulamentares e contratuais serão de, no máximo, R$ 3.000,00 (três mil reais), podendo ser corrigidas anualmente pelo Poder Executivo.

INSCRIÇÃO ESTADUAL:

Outra proposta prevê que as empresas interessadas nas linhas tenham inscrição l em todos os Estados onde querem operar.

Art. 4º Os operadores deverão possuir inscrição estadual em todas as unidades da federação que pretendam operar, para fins de recolhimento do imposto sobre operações relativas à circulação de mercadorias e sobre prestações de serviços de transporte interestadual e intermunicipal e de comunicação.

AUTORIZAÇÕES CONCEDIDAS FICAM SUSPENSAS:

A proposta mantém a sugestão de suspender as autorizações concedidas depois de 30 de outubro de 2019.

5º Ficam suspensas as autorizações concedidas entre 30 de outubro de 2019 e a data de publicação desta Lei, mantidas as autorizações anteriores a esta data.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. DeSouza disse:

    O cenário antevisto pela Flixbus é bastante interessante. Baseada na cogestão do transporte com micro, pequena e até de média empresas de transporte rodoviário de passageiros, propõem modelo de negócio em que todos ganham com a modernização da gestão integrada. O maior empecilho que vislumbro é exatamente no nascedouro das micro e pequenas empresas, que operando a partir de suas microrregiões, em direção aos grandes centros, são as vítimas da ganância dos interesses contrariados (aquelas forças ocultas que agem no Senado, Câmara e Judiciário) sempre com foco em criar dificuldades aos novos empreendedores, e sempre inventando barreiras à entrada de sangue novo no sistema.
    O pais não pode ficar a mercê de interesses familiares em um setor da economia, que até hoje prima pela vício da proteção do Estado, e que os torna avessos à competitividade (e que ainda não chegou aos estados, ressalte-se) e sufoca o grande gerador de emprego e renda, que são as micro e pequenas empresas. Novos negócios que ampliam as fronteiras, geram novo desafios, promovem a fixação do home em sua comunidade, investem em formação técnica para jovens com sede de saber são muito bem vindas e certamente contará com o apoio dos poliíicos interessados no crescimento e desenvolvimento de suas bases, de seus estados e de seu país.

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