História

HISTÓRIA – Pássaro Marron: Santo Guerreiro e a tradição de um nome

Diplomatas da Pássaro Marron em São José dos Campo, no Interior de São Paulo. Empresa ajudou e acompanhou o processo de desenvolvimento do Vale do Paraíba; Companhia, além de desbravadora, era inovadora. Tão logo eram lançados modelos novos, era uma das primeiras a comprar, ainda mais se fossem da encarroçadora Nielson

Essa união foi fundamental para que a região do Vale do Paraíba crescesse e tivesse uma das empresas de transportes mais tradicionais do País

ADAMO BAZANI

Muitos chamam de destino, outros de visão empresarial, há quem diga apenas que os fatos ocorrem pelo acaso.

Independentemente do que possa ser, quando a história de duas empresas de transportes se cruzou nos anos de 1970, houve inegavelmente um fortalecimento do setor na região do Vale do Paraíba, uma das mais prósperas do Brasil que compreende o leste do Estado de São Paulo e o Oeste do Rio de Janeiro, fazendo parte da bacia hidrográfica do Rio Paraíba do Sul.

São cerca de 3,5 milhões de habitantes atualmente nos diversos municípios do Rio de Janeiro e São Paulo.

Do lado do Rio destacam-se cidades como Itatiaia, Pinheiral, Piraí, Barra do Piraí, Porto Real, Quatis, Rio Claro, Valença, Rio das Flores e Paraíba do Sul.

Em São Paulo, formam o Vale do Paraíba : Aparecida, Arapeí, Areias, Bananal, Caçapava, Cachoeira Paulista, Campos do Jordão, Canas, Caraguatatuba,Cruzeiro São Paulo Cunha, Guararema, Igaratá, Ilhabela, Jacareí Jambeiro, Lagoinha, Lavrinhas, Monteiro Lobato, Natividade da Serra, Paraibuna, Piquete, Potim, Queluz, Redenção da Serra, Roseira, Salesópolis, Santa Branca, Santa Isabel, Santo Antônio do Pinhal, São Bento do Sapucaí, São José do Barreiro, São Luiz do Paraitinga, São Sebastião, Silveiras, Tremembé e Ubatuba.

Os nomes que se cruzaram em prol dos transportes e do auxílio ao desenvolvimento econômico ligando as cidades do Vale do Paraíba entre elas e para outras regiões foram das companhias Viação São Jorge e Empresa de Ônibus Pássaro Marron.

As duas empresas têm inícios diferentes, mas com o mesmo objetivo: crescer, possibilitando lucro aos seus empreendedores, e oferecer crescimento por onde começaram a trafegar.

Afinal, transporte é crescimento, é possibilidade de levar e trazer pessoas em busca de negócios, de empregos, de lazer e de outras atividades que agitam a economia.

A Empresa de Ônibus Pássaro Marron nasceu com outra cor. Era chamada de Pássaro Azul.  A companhia foi fundada em 1935 pelos portugueses Affonso José Teixeira e Affonso de Carvalho Teixeira. O objetivo era possibilitar a ligação de São Paulo a Mogi das Cruzes, Guararema, São José dos Campos, Jacareí, Taubaté e Aparecida, um dos maiores locais de concentração de religiosos em todo o País. O nome Pássaro Azul não era oficial também. A empresa ostentava como nome o trajeto entre “São Paulo e Guaratinguetá”.

As aspirações dos portugueses cresciam na medida que a população e a urbanização das áreas onde atuaram também aumentavam.

No ano de 1939, a empresa entra para a história ao ser a primeira a fazer ligações regulares com horários fixos entre São Paulo e Rio de Janeiro, na época Capital do País.

Era mais que necessária nesta época, além das ligações por ferrovia, um serviço confiável e regular por rodovia entre São Paulo (que concentrava já a maior parte das decisões econômicas) com o Rio de Janeiro (que abrigava na época o centro do poder político).

E foi fazendo parte deste eixo que o Vale do Paraíba cresceu.

No século XIX, seu principal meio econômico era o cultivo do café, a exemplo de outras regiões.

E mais uma vez a ferrovia foi a indutora do crescimento não só em prol da agricultura, mas da consolidação de uma forma urbana em vários municípios.

E era a Estrada de Ferro Central do Brasil esta grande prestadora de serviços.

Nela trabalharam anônimos e famosos, muitas vezes em condições insalubres, com trabalho difícil e jornadas diárias longas. Todos, em igual importância, fizeram com que o Vale do Paraíba crescesse e conquistasse este destaque.

Entre os trabalhadores famosos da Estada de Ferro Central do Brasil estava Euclides da Cunha. Logo após se formar em 1892 na Escola Superior de Guerra, foi designado para trabalhar no trecho de São Paulo e Caçapava.

Depois passou por vários outros órgãos públicos como na superintendência de obras públicas do Estado de São Paulo. Neste órgão, Euclides da Cunha começou a trabalhar em 1895 no 5º distrito e, em 1901, foi transferido para o 2º distrito, com sede em Guaratinguetá. Nesta época, ele decidiu morar com a esposa, Ana da Cunha, em Lorena, onde havia o Colégio São Joaquim, considerada uma das mais importantes instiuições de ensino do Estado de São Paulo.

Assim, em obras públicas, transportes, educação, economia e posicionamento geográfico estratégico, as cidades da região do Vale do Paraíba ganhavam importância com o aumento populacional.

Apesar de já nos anos de 1920 Washington Luís, como governador e depois como presidente, dizer que Governar é Abrir Estradas, o surgimento da ligação rodoviária Rio – São Paulo não pode ser considerada num primeiro momento a colocação em segundo plano da ferrovia.

Ônibus da Viação São Jorge com a pintura da Pássaro Marron. Em 31 de maio de 1977 é oficializada a compra da Pássaro Marron pela São Jorge. O nome Pássaro Marron ia desaparecer, mas até um governador fez parte do coro de apelos para manter a marca que naquela época já era tradição no Vale do Paraíba.

Mesmo porque, os serviços de ferrovia estavam plenos, mas já não eram suficientes para tanta gente. Além do número de pessoas que já estavam estabelecidas, novas áreas eram habitadas e abrigavam negócios. Os trilhos por lá não chegavam e os ônibus, as jardineiras da Pássaro, enfrentavam o desafio, que revelava que o crescimento do Vale do Paraíba não foi tão fácil e instantâneo como poucas palavras podem erroneamente dar a impressão.
Aliás, foi dessa dificuldade que surgiu a marca Pássaro Marron.
Os ônibus da Pássaro Azul, a cada viagem, ficavam todos sujos de lama e pó de terra.

Na brincadeira, meninos que carregavam as bagagens dos ônibus que eram transportadas na parte de cima das jardineiras, riscavam o nome Azul, com os dedos e escreviam frases do tipo “Azul nada, esse Pássaro é Marrom”.
A família Teixeira, vendo que a população conhecia os ônibus mais como Marrons que Azul, aproveitou o “marketing” e mudou o nome definitivamente para Pássaro Marron. (COM A LETRA N MESMO NO FINAL).
Na Junta Comercial de São Paulo, o registro como Empresa de Ônibus Pássaro Marron aparece em 21 de dezembro de 1951, mas segundo pesquisadores, o nome já era usado nas latarias antes desta data.
Paralelamente, a Junta Comercial de São Paulo, aponta a constituição em 27 de julho de 1954 da Viação São Jorge, prestadora de serviços de transportes no local.
Sua diretoria, na formação da empresa era constituída por:
Pelerson Soares Penido – presidente
David Fernandes Coelho – diretor superintendente
Vicente de Paula Penido – diretor geral
Luiz Alves Coelho – diretor-secretário
Tadeu Luciano Marcondes Penido – diretor.
Era o embrião do Grupo Soares Penido, depois chamado Grupo Serveng, atuando em ramos importantes e que requerem grandes movimentações de capital, como transportes, com as Empresas Pássaro Marron, Litorânea (que foi incorporada pela Pássaro Marron em 2021) e a Airport Service (que atende os aeroportos de São Paulo). O grupo investiu também em Engenharia e Construção, Desenvolvimento Imobiliário, Mineração, Energia e de Concessões, participando de operadoras de rodovias como a CCR e Santa Cruz Rodovias.
O fundador do Grupo, Pelerson Soares Penido, sempre teve um gosto especial pelo ramo de transportes.
E em 1977 apareceu a oportunidade de sua média empresa comprar a Pássaro Marron, de maior porte.
Ainda segundo a Junta Comercial de São Paulo, a transação foi oficializada em 31 de maio de 1977.
Mas depois da compra a dúvida: A Pássaro Marron assumiria a São Jorge ou a São Jorge a recém comprada Pássaro Marron na prátcia.
Bem, a primeira mudança foi a da cor. Penido gostava do vermelho, que denotava sangue, força e luta.
Muito devoto de São Jorge, Pelerson Soares Penido estava propenso a transformar toda a empresa em Viação São Jorge, até que, em defesa da tradição do nome Pássaro Marron foi demovido da ideia pelo então governador de Minas Gerais, Magalhães Pinto.
No site oficial da Pássaro Marron havia uma declaração antiga de Pelerson Soares Penido que explica bem a história:
“Dois irmãos portugueses vieram para o Brasil, da família Teixeira, e um deles se instalou pelas ruas Santa Rosa e Cantareira vendendo bacalhau. O outro irmão criou a primeira empresa de ônibus, Pássaro Azul, ligando São Paulo a Mogi das Cruzes, Guararema, São José dos Campos, Jacareí, Taubaté, e assim por diante. A antiga SP-66, a Via Dutra, era uma lama só. Em cada hotelzinho que os ônibus paravam nestas cidades, os menininhos iam para retirar as malas dos viajantes no porta-malas que ficava em cima do ônibus. E eles passavam os dedinhos na lataria dos ônibus e reclamavam ‘não é azul, não tem nada de azul , é marrom’. E a terra no Vale do Paraíba é super marrom. E as crianças repetiam, não é Pássaro Azul, tem que ser Pássaro Marron… E o português, muito inteligente, mudou logo o nome e a cor. E conviveu com a realidade, porque é muito mais fácil na vida você conviver do que protestar. Os ônibus conviveram tanto com a terra que eram marrom até o fundo da alma. Um belo dia nós compramos a empresa. E o meu filho, Thadeu, e minha esposa, Lúcia, tinham uma outra empresa de transporte que se chamava São Jorge, de cor vermelha. Pela nossa filosofia, é uma cor forte, resistente, é sangue, é luta, é força, tem um significado lindo. Enquanto a cor marrom tem um significado horroroso. É só terra, a pior de todas, sem expressão. Eu quis então mudar o nome da São Jorge, que era menorzinha, para Pássaro Marron. E os dois não queriam, afinal era a São Jorge que estava comprando a Pássaro Marron. Eles gostavam muito da cor vermelha, que representava o santo guerreiro São Jorge. Encontrando com o governador de Minas na época, Magalhães Pinto, contei pra ele que tinha comprado a empresa e que ia mudar o nome dela. E ele disse: “Negativo não concordo, não deixo. Quando eu era rapazinho, minha mãe era professora em Santo Antônio do Amparo e dizia que nas férias nós íamos a São Paulo tomar a jardineirinha da Pássaro Marron para a visitar a santinha de Nossa Senhora Aparecida. É uma tradição, todo romeiro já conhece, não muda.” – então chegamos num acordo de conservar a cor da São Jorge
Assim, todos os gostos foram atendidos, a cor da São Jorge com a tradição do nome da Pássaro Marron.
Logo depois da compra, o Grupo Soares Penido fez uma renovação geral da frota da empresa. Eram 312 ônibus com idade média de 16 anos.
A idade foi reduzida pela metade nos dois primeiros anos.
A região do Vale do Paraíba, nos anos de 1970, registrava um fenômeno interessante: um movimento migratório de mão dupla. Muita gente saía da região em busca de emprego e renda nas duas capitais mais próximas, São Paulo e Rio de Janeiro, mas um contingente grande de pessoas ia para o Vale do Paraíba em busca de ocupações.
E o crescimento industrial mostrava a vocação do Vale do Paraíba, tanto do lado do Rio como de São Paulo. Nos anos de 1940 começou a construção e operação, em Volta Redonda, da então maior siderúrgica integrada da América Latina, a CSN – Companhia Siderúrgica Nacional.

Ônibus Caio Amélia Articulado Volvo B 58 da Pássaro Marron. Apesar de ser conhecida pelas operações rodoviárias, a história da empresa também é marcada por prestação de serviços urbanos.

Nas décadas seguintes, se instalavam no local a Embraer, o maior complexo fabril do setor aeroespacial da América Latina, a Volkswagen, a Ford, a White Martins, entre outras.

A região do Vale do Paraíba, com destaque para cidade de São José dos Campos, despontava na vida econômica brasileira.

Era muita gente, muita mão de obra, com bastante qualificação para ramos tecnológicos, como pouco especializada para trabalhar na construção civil e atender a este crescimento.

E a Pássaro Marron acompanhou bem este processo e contribuiu para transportar essa mão de obra, que não só trabalhava, mas que precisava também dos ônibus para se divertir, passear, visitar parentes, amigos e pessoas queridas.

Em 30 de dezembro de 1982, na mesma data que a Junta Comercial de São Paulo registra a transferência das vendas de passagens na Capital Paulista da Praça Júlio Prestes, número 64, antiga rodoviária Júlio Prestes, para a avenida Cruzeiro do Sul, 1800, no recém criado Terminal Rodoviário do Tietê, o órgão registrava sinais de crescimento da Pássaro Marron. Criação de novas agências de vendas de passagens e mudanças para locais maiores.

Assim, a Junta Comercial de São Paulo mostra a mudança da garagem e escritório de São José dos Campos da Rua da Abolição 117 para a Rua Dr. Sebastião Gualberto, 2.795. Também em 30 de dezembro de 1982 revela a criação de mais agências, como a da Avenida Manoel Aguiar, 15- Bananal e da Rua Marcondes Flores, 17, em Guararema.

Em 10 de julho de 1984 era registrada a abertura de uma filial da empresa para guardar ônibus para facilitar o acesso ao Terminal Rodoviário do Tietê, na Rua José Pereira Jorge, 78 – Vila Guilherme. Em 06 de janeiro de 1986, era aprovada a mudança de endereço para a Rua Deputado Vicente Penido, 255 – Vila Maria.

Apesar de ser muito conhecida por suas ligações rodoviárias, a Pássaro Marron também obteve destaque em ligações com ônibus urbanos e suburbanos no Vale do Paraíba.

Além de desbravadora, a empresa também era considerada inovadora. Era só ser lançado um modelo novo, que a Pássaro Marron era uma das primeiras a comprar, principalmente se fossem da marca Nielson, hoje Busscar.

Os Diplomatas, por exemplo, modelos que fizeram história na trajetória da indústria nacional, eram comuns de serem vistos na Pássaro Marron.

Atualmente, a empresa atende a mais 50 municípios principalmente em São Paulo e Minas Gerais, com quase 500 ônibus transportando 20 milhões de passageiros por ano.

E o Vale do Paraíba ainda cresce, fruto da dedicação de desbravadores como Euclides da Cunha, a família Teixeira, os Soares Penido e tantos outros milhares de brasileiros e estrangeiros que a exemplo das primeiras jardineiras da Pássaro Marron ou dos ônibus da São Jorge não tinham medo de obstáculos, se adaptavam, cresciam, criavam e geravam com sua forma e inteligência, desenvolvimento.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Compartilhe a reportagem nas redes sociais:
Assine

Receba notícias do site por e-mail

Comentários

Deixe uma resposta