OPINIÃO: Propostas para melhorar o transporte coletivo e deixar as tarifas mais baratas são possíveis

Ações passam desde complementações aos custos de operação até priorização da circulação dos ônibus

ADAMO BAZANI

Há vários anos, especialistas e os operadores de transportes vêm tentando alertar aos administradores que o custeio dos sistemas de ônibus, trens e metrôs só pela tarifa é injusto e ineficiente.

Quem ganha menos paga mais e o que é arrecadado não é suficiente para garantir o ideal à população.

Com a crise provocada pela pandemia de covid-19, o que não era ideal ficou ainda pior e diversos serviços de transportes públicos foram deteriorados e alguns deixaram de ser operados.

O número de passageiros caiu e como a receita só vem pela tarifa, os sistemas de transportes ficaram inviáveis.

Desde o ano passado, o setor pede um socorro do Governo Federal e vem sendo ignorado.

Não é dinheiro para empresário de ônibus, trens e metrôs. É para manter o básico para os serviços serem continuados.

Mas passando a pandemia, como vai ficar a situação?

Caso saia algum socorro, o próprio nome diz, é para algo pontual e emergencial.

A forma como os transportes são geridos precisa ser revista urgentemente não só para momentos emergenciais, mas como políticas de setor.

Diversos sistemas do mundo, como cidades na Europa, América do Norte, Ásia e até na América Latina, têm colhido melhorias nos transportes e na qualidade de vida das pessoas com ações como:

– Fim da dependência exclusiva das tarifas: subsídios públicos em especial às gratuidades nos transportes e receitas extra-tarifárias, como a transferência de recursos do transporte individual para o coletivo já são práticas comuns em muitos países. Muitas vezes, nem é necessário criar novas taxas ou impostos, mas só direcionar melhor o que já é arrecadado com os tributos já incidentes sobre os carros e de serviços como o estacionamento rotativo de rua e parques.

-Prioridade ao transporte público: A lentidão que os ônibus enfrentam no trânsito interfere na eficiência da prestação de serviços, que cai. Ônibus presos em congestionamentos significa mais diesel queimado à toa, mais pneus e peças desgastados, mais horas trabalhadas pelos motoristas. Isso sem contar que são necessários mais ônibus para atender a um número menor de pessoas. Mais corredores, faixas e outras soluções de engenharia para aumentar a velocidade comercial reduzem os custos e isso tem impacto na tarifa, além de deixar as viagens mais rápidas e confortáveis.

-Desoneração de insumos e veículos: Por mais que já tenham ocorrido avanços na questão tributária, é ainda possível reduzir a carga tributária sobre os transportes coletivos, em especial a incidente sobre combustíveis, peças e para a compra de ônibus e trens novos. A renúncia fiscal com isso pode ser coberta pelos ganhos que o poder público pode ter com as vantagens do transporte coletivo que gera menos poluição e se envolve em menos acidentes que carros e motos, impactando diretamente em custos de saúde pública.

Há uma série de outras práticas que podem ser debatidas, como agregar novos serviços aos transportes públicos para atrair o passageiro e a implantação de tecnologias que podem melhorar o gerenciamento, mas se estes três pilares básicos já foram alcançados, os ganhos serão significativos.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. brunorodrigues90 disse:

    Com toda ajuda e subsídios, melhor estatizar logo todo o sistema. Serviços essenciais devem ser geridos por quem tem capacidade de investimento e a qualidade não seja sacrificada em prol da lógica do custo de empresas privadas. Simples.

  2. vagligeiro disse:

    Na verdade apesar de parecer que só exista estes três pilares, falta um:

    Educação.

    Nossa população ainda não é bem instruída sobre o uso e necessidade do transporte público. Com uma cultura voltada ao individualismo, a defesa do uso de um equipamento individual acaba priorizado.

    Fãs de transporte público (busólogos, entusiastas ferroviários, etc…) poderiam criar formas mais populares para cativar a população para o uso do transporte público. Incentivar a busca por rotas de ônibus diferentes, mostrar claramente (sem muita ladainha e pedância técnica) o porquê dos custos do transporte (e o que o cidadão pode fazer para ajudar a incentivar as mudanças), etc…

    Noto que o Diário do Transporte tem sua forma jornalística mais voltada para o setor, profissionais e entusiastas da área. Então não adianta eu pedir para mudar sua forma de comunicar. Quando comento aqui é para ver se pessoas que leem aqui e tem alguma atividade de comunicação popular (menos Paulo Gil, se bem que ele funcionaria bem como “tio do Whatsapp” para combater os negacionistas) pensam em formas de serem mais claros e populares com o povão e com isso mudar conceitos.

    Twiteiros como “Diário do Metrô/CPTM”, “Era do Fepasa” ou “Transporte da Depressão” ou similares acabaram envoltos em uma forma popular mais para reclamações, no que no final não ajuda tanto na conscientização – só reclamar gera uma bola de neve. Não diminuindo a necessidade deles, mas sim que entendo que apesar da existência deles, tal existência tem mais um formato político de absorção e tolerância aos problemas do que em relação a mudança e conscientização nos problemas. Amortece e conforta, mas não muda.

    Blogueiros como o “Plamurb” e “Via Trólebus” são bons em educar, mas tal como o Diário do Transporte, a forma ainda tem um quê de ser técnico. Enquanto isso, o pessoal do Commu é técnico e pedante ao mesmo tempo, que é a pior forma de lidar com “o povão”.

    Incentivar conversas com jornalistas e tentar abrir canais na mídia popular também seria uma forma de gerar educação – pena que muitas vezes o editorial prefere dar valor a uma janela de ônibus quebrada do que ao contexto da janela ter sido quebrada – no caso uma manifestação que provavelmente pede para melhorias no transporte público, e que provavelmente devido a excesso da polícia, alguém se revoltou e a pedra que era para se defender de um policial acabou indo quebrar a janela do ônibus.

    Enfim, enquanto nem empresários se entenderem (se bem que há empresários que só estão lavando dinheiro no transporte público), pedir por melhorias apenas vai ser a velha reclamação de sempre…

  3. Santos Dumont disse:

    Embora elogiáveis as propostas de subsídios ao transporte público, ainda achamos que concentrar as formas de realiza-lo em apenas no modal de ônibus cria uma espécie de armadilha para a própria administração pública. Ora, dificilmente em uma concorrência pública, seja por qual critério for, as empresas que a anos operam na cidade, onde tem garagens próximas aos locais de início de jornada, levam vantagem considerável em relação às demais no quesito do custo de operação. Praticamente o sistema fica escravizado aos mesmos operadores, ainda que troquem de nomes para fingir serem novas empresas. Erro dos empresários? Não. Cada um no seu papel.
    Achamos que se deva evoluir para forma alternativas de transporte público sem sacrifício do transporte privado, sendo este um fortíssimo gerador de emprego e renda pelas inúmeras atividades que orbitam o veiculo próprio.
    Talvez seja difícil escapar da fórmula de o transporte público, ser público, ou seja, tocado por empesa pública e subsidiado pelas fontes diversas já aqui apontadas.
    Mas não apenas isto. O crescimento das cidades deve ser baseado na nova realidade que agrega atividades em home-office e nas possibilidades de que serviços (principalmente ou públicos) sejam descentralizados, retirados de uma área central e distribuídos pela periferia. Os bancos já fazem isto: diminuíram o atendimento preferencial e aumentaram os postos de banco 24 horas, correspondentes bancários e aplicativos em celulares.
    Vamos voltar às origens, e mapear o que atrai o usuário do transporte, o que o motiva e com que frequência o faz, mas sobretudo entender o que o faz ter preferência por um ou outro modal.
    As histórias recentes de falcatruas (planilhas de custos irreais, comprovantes de despesas fajutos, etc) e negociatas (reajustes com % embutido para repassar aos políticos) nos transportes públicos municipais principalmente deveriam ser suficientes para acabar com essa farra com o dinheiro público.

    1. vagligeiro disse:

      A fórmula mais simples para fazer um transporte público funcional é deixar que os governos gerenciem e operem os modais, nem que seja com algum tipo de pequena parceria privada (sempre penso que sistemas de cooperativa são uma forma útil para isso ao invés de concessão ou terceirização à empresas, tal como feito por Vargem Grande Paulista).

      O problema das falcatruas e desvios na verdade é o velho problema da corrupção, que para isso o ideal é que pessoas mudem seus conceitos sobre ganhos financeiros e valor do trabalho, o que não cabe aqui esta discussão, apesar de fazer parte.

      Em um ponto que você fala precisamos reforçar – a criação ou adaptação de modais deve ser baseado no urbanismo planejado pelas cidades. Se a gente pensasse na lógica de movimentação moradia – trabalho – serviços, o que teria de ônibus operando próximo e dentro a condomínios estilo Alphaville…

  4. Rodrigo Zika disse:

    Enquanto continuar dando subsídio pra empresa privada que só visa lucro e quer investir pouco, não adianta.

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