Eletromobilidade

Modernização da indústria automotiva no Brasil com foco em eletrificação, automação e conectividade caminha na direção da exclusão social

Setor de transporte público vai precisar de um novo modelo de negócios para mudar a forma de remuneração dos operadores. Foto: Divulgação/SPTrans

Estudo do IEMA alerta que mudanças, pelas forças de mercado, não caminham favoravelmente para a melhoria do transporte público

ALEXANDRE PELEGI

Em parceria com a Fundação Rosa Luxemburgo, o Instituto de Energia e Meio Ambiente (IEMA) divulgou nessa quinta-feira, 1º de julho de 2021, estudo sobre a transição pela qual passa a indústria automotiva brasileira.

O objetivo do trabalho, realizado no período de janeiro a março de 2021, foi “identificar os desafios pelos quais a indústria deve passar para que possa contribuir com uma mobilidade inclusiva e de baixas emissões, conservando, criando e melhorando empregos, bem como mantendo e desenvolvendo a capacidade de produção nacional”.

O trabalho se concentrou na mobilidade urbana inclusiva e de baixas emissões, na priorização do transporte público coletivo sobre o transporte individual particular, bem como a aplicação de tecnologias de menor impacto ambiental.

Para o estudo foi realizada pesquisa documental e entrevistas com representantes-chave do setor, incluindo diversos segmentos da indústria automobilística, da indústria de equipamentos e serviços de transporte público, gestores públicos da mobilidade urbana, trabalhadores, pesquisadores, ONGs e jornalistas especializados.

O Diário do Transporte contribuiu como um dos entes entrevistados para o trabalho do IEMA.

Uma das observações do trabalho é que para uma mobilidade mais inclusiva, “seria necessário melhorar o transporte público por meio da implantação de sistemas de média e alta capacidades (BRTs), faixas exclusivas de ônibus, política de renovação de frota de ônibus e adoção de veículos de emissão zero no longo prazo, redução das tarifas, além de instrumentos de gestão de viagens (TDM). O Brasil já conta com um arcabouço legal e técnico para estimular esse desenvolvimento como a Política Nacional de Mobilidade Urbana (PNMU), o conhecimento sobre requisitos para a elaboração de planos de mobilidade e a Política Nacional de Mudança Climática. Mas somente a demanda social poderia impulsionar tais mudanças estruturais”, diz o IEMA, a partir das visões capturadas nas entrevistas.

Como uma das conclusões, o estudo fortalece a percepção de que o futuro da indústria automotiva, do transporte público e de seus trabalhadores “não deve ser tratado de maneira isolada, fazendo-se necessário considerar as relações e as transformações que ocorrerão em várias dimensões, passando pelas visões sobre o redesenho da mobilidade urbana, pelas condicionantes estruturais do parque industrial instalado e pelas fortes transformações digitais e tecnológicas em curso”.

Para o IEMA, o desenvolvimento tecnológico dos veículos com foco na eletrificação, na automação e na conectividade pode até contribuir com a necessária redução de emissões de poluentes e gases de efeito estufa, “mas não se tem demonstrado como uma solução para enfrentar o uso desigual e injusto do espaço viário, para a acessibilidade e para promover o direito à cidade”.

O setor da indústria automotiva se prepara para um novo mercado. “Estão sendo criados novos núcleos de negócios complementares à venda de veículos, e estes serviços têm sido disputados com as bigtechs e as transport network companies (TNC), que são as plataformas de gestão de viagens”.

As mudanças tecnológicas, o estudo ressalta, modificarão profundamente a forma de interação do sistema de mobilidade urbana, abrangendo o transporte, os tipos de veículos, os motivos de viagens, os serviços disponíveis, os custos relativos e os níveis de renda, “que resultarão em externalidades positivas e negativas a serem distribuídas de forma diferenciada para toda a sociedade”, diz o IEMA.

O setor de transporte público também vai precisar de um novo modelo de negócios para mudar a forma de remuneração dos operadores. “Para o Rio de Janeiro, por exemplo, há a proposta da criação de um fundo para garantir a remuneração dos operadores. O Brasil ainda remunera a operação por passageiro transportado ou quilômetro rodado, mas é preciso mudar o modelo“, conclui o IEMA.

Em suma, uma das conclusões pessimistas do estudo é que há a tendência de uma mudança de patamar dos negócios com forte interesse na melhoria e na expansão transporte individual, o que provocará grandes impactos na mobilidade urbana, tornando as soluções mais complexas. “Mas não parece que tais mudanças, pelas forças de mercado, caminham favoravelmente para a melhoria do transporte público, para o aumento de sua participação nas viagens e para a substituição da sua fonte de energia. Há o risco de uma certa ‘modernização conservadora’, em que são mantidas as injustiças que pesam sobre a mobilidade urbana no país, caso apenas o transporte individual mais limpo e os serviços associados formem a principal alternativa econômica e política perseguida”.

Parece claro para todos a quem o IEMA entrevistou, que “se o país continuar dando prioridade ao transporte individual e a novos serviços baseados em tecnologia da informação e em serviços bancários, que não são compreendidos ou utilizados por grande parte da sociedade, pode haver uma radicalização e um aprofundamento do atual fosso entre as parcelas de maior e menor renda, levando os mais pobres a ficarem ainda mais sem acessibilidade”.


Para ler o estudo na íntegra, faça o download: IEMA_rosaluxemburgo_transicao energetica industria automotiva 2021

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. laurindo martins junqueira filho disse:

    IEMA: só trataram de ônibus? E os trens e metrôs, onde ficam nessa história? Fundação Rosa Luxemburgo: quando a polonesa Rosa Luxemburgo morreu baleada na Alemanha, um dos maiores apoios que possuía estava entre os ferroviários …

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