História

HISTÓRIA: Jaime Lerner ensinou que o transporte pode remodelar cidades para melhorar a vida das pessoas

Jaime Lerner (de azul ao centro) em inauguração de sistema nos anos 1970

Considerado pai do BRT no Brasil, o arquiteto e urbanista pensou em municípios feitos para pessoas e não para carros; Ônibus são essenciais neste objetivo

ADAMO BAZANI

O legado de Jaime Lerner vai além de obras, mas deixa ensinamentos de planejamento de vida nas cidades.

O arquiteto e urbanista que morreu em 27 de maio de 2021, aos 83 anos de idade, foi governador do Paraná e prefeito de Curitiba por três mandatos.

Uma de suas principais marcas foi pensar na organização do crescimento das cidades por eixos de deslocamentos que privilegiem o transporte coletivo por meio de um planejamento que encurte as distâncias entre moradias, locais de trabalho, estudo, serviços essenciais e lazer.

Neste contexto, surgiu em 1974, em Curitiba, o BRT (Bus Rapid Transit), solução que se modernizou com o tempo e, ao contrário do que dizem os mais exaltados, não rivaliza com outros sistemas também de maior capacidade de transportes, como trens e metrôs. Basta planejamento em rede.

No caso específico de Curitiba, nos anos 1970, a cidade estava em rápida expansão e seria necessário encontrar uma organização urbanística eficiente, mas ao mesmo tempo de baixo custo e rápida implantação.

Cidades feitas para pessoas e não para carros privilegiam o transporte coletivo em seus planejamentos e investimentos.

Mas, infelizmente, não é isso que se vê na maioria das cidades brasileiras, onde o crescimento foi desorganizado e os carros tomaram um papel de destaque.

Lerner era formado em arquitetura desde 1964 quando concluiu seus estudos na Universidade Federal do Paraná e trabalhou no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba desde sua criação em 1965.

Como prefeito de Curitiba por três vezes, Lerner, ganhou notoriedade internacional pelo seu projeto de planejamento urbano e transporte integrado de Curitiba, inclusive com o BRT no município que possui vias exclusivas para seu tráfego e terminais com integrações, o que aumentou a fluidez dos ônibus.

Este modo de sistema foi na sequencia copiado e colocado em operação em várias cidades.

Outras de suas criações aos curitibanos foi o Jardim Botânico e A Ópera do Arame.

Já na liderança do estado como governador, Jaime Lerner elaborou o plano do Anel de Integração.

Alguns prêmios e reconhecimentos internacionais marcaram a trajetória de Lerner, como o Prêmio Máximo das Nações Unidas para o Meio Ambiente, em 1990, e Unicef Criança e Paz, em 1996.

No ano de 2010, Lerner foi classificado pela revista americana Time como um dos 25 pensadores mais influentes do mundo e recebeu a Medalha de Urbanismo da L’Académie D’Architecture, na França.

O NASCIMENTO DE UMA SOLUÇÃO QUE MUDARIA AS CIDADES EM DIVERSAS PARTES DO MUNDO:

Folheto explicando novo sistema à população, na época

Em 22 de setembro de 1974, a cidade de Curitiba, no Paraná, ganhava sua primeira linha de ônibus expressa em corredores, algo nunca visto no mundo, mas que era simples e eficiente.

Começaram a operar esta linha 20 ônibus no eixo Norte-Sul, entre Santa Cândida/Praça Rui Barbosa e Capão Raso/Praça 19 de Dezembro.

A ideia deu tão certo, apesar de algumas resistências de que se sentia confortável em deslocar-se de carro, que foi se expandindo.

Em abril de 1991, o BRT passou por uma reformulação no sistema de embarque e desembarque, que se tornou mais ágil e acessível. Surgiam as estações-tubo, que permitiam acesso ao ônibus no mesmo nível da plataforma e possibilidade de pagamento antes da chegada do coletivo. Inicialmente, as estações-tubo foram planejadas para os chamados Ligeirinhos, ônibus que faziam poucas paradas. Logo em seguida, ônibus de outros tipos de linha, como as expressas, também começaram a fazer paradas nas estações-tubo.

Em outubro de 1991 também, a Volvo desenvolveu um veículo também inédito: o ônibus biarticulado, com capacidade para aproximadamente 230 passageiros e com 25 metros de comprimento.

Hoje os biarticulados chegam a ter 28 metros de comprimento e podem atender sem grandes apertos 270 passageiros de uma só vez. Foi apresentado também um modelo de 30 metros pela Volvo.

Na época, o prefeito de Curitiba, Jaime Lerner, arquiteto e urbanista, afirmou que muito mais que oferecer uma solução de mobilidade, os corredores de ônibus tinham o objetivo de permitir um crescimento urbano mais ordenado, ao longo das vias onde há oferta de transporte público, e cidades mais humanas, nas quais, através do transporte coletivo, o espaço urbano seja dedicado às pessoas e não aos carros.

E esse é o principal resultado do investimento em transporte coletivo.

Além de as pessoas conviverem mais, interagindo e melhorando as relações humanas, os espaços nas cidades são aproveitados de maneira mais inteligente.

Enquanto um ônibus convencional de 13,2 metros de comprimento atende 80 passageiros de uma só vez, para transportar estas mesmas 80 pessoas, são necessários 40 carros que ocupariam 153,2 metros perfilados, levando em conta que em média cada carro transporta apenas duas pessoas, mesmo tendo capacidade para quatro ou cinco.

O BRT não substitui o metrô e o trem e vice-e-versa, mas hoje é impossível pensar em cidades desenvolvidas sem sistemas de ônibus eficientes e de qualidade.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. laurindo martins junqueira filho disse:

    Meus caros companheiros de lida da circulação urbana deste país e deste mundo, permitam-me fazer alguns reparos. Lerner – um excelente marketeiro, segundo opinião de um dos seus parceiros curitibanos – baseou-se em modelos pré-estabelecidos pelos engenheiros Mário Garcia e Pedro Zaszs. Teve o mérito extremo de conseguir propagar, mundo afora, um modelo novo de circulação urbana de ônibus e tróleibus. Mas deixou aos seus bons acólitos o demérito de relegar a colombianos de incerta competência, a glória de « terem inventado » aquilo que coube a brasileiros da gema criar. Chamar de « BRT » (« Bierrrtchiii ») os bons e inovadores corredores de ônibus brasileiros, foi uma desdita imensa para o Brasil (embora tenha sido uma felicidade suprema para alguns aproveitadores dessa « moda »). Que tal passarmos, nestas épocas de crise extrema, a cultuar um pouco mais a nossa nacionalidade, ao invés de perseverar em nosso eterno complexo de vira-latas? Glória eterna a Lerner! Mas, glórias terrenas aos nossos mui competentes e esquecidos projetistas de circulação urbana!

  2. MARIO CUSTÓDIO disse:

    Excelente reportagem. Globalmente Jaime Lerner teve mesmo excelentes ideias para Curitiba, uma cidade inegavelmente excelente para morar. Atrapalha um pouco o frio intenso e os semáforos em sistema de contenção, não permitindo rápidos deslocamentos pela cidade. No mais, exclusivamente em relação a ônibus urbanos e metropolitanos de lá, pena que padronizou o design e pintura de todos os ônibus de Curitiba (e depois da Grande Curitiba), prejudicando diretamente a população local. E o sistema de lá de há muito não é mais exemplo. Uma pena mesmo, pois as ideias dele podem e devem ser copiadas mundo afora (algumas o foram). Exceto pela padronização dos ônibus. E quanto a BRT, no Brasil e no Mundo, hoje em dia, a METRA ABC é considerada uma EXCELÊNCIA EM TRANSPORTE POR ESSE MODAL.

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