Impacto da pandemia no transporte urbano por ônibus causa rombo de R$ 14,2 bilhões, 77 mil demissões e cerca de 240 greves

Levantamento da NTU atualizado até 31 de março alerta para gravidade da crise, e apela para necessidade emergencial de ajuda financeira imediata e reestruturação total da forma de contratação dos serviços

ALEXANDRE PELEGI

O monitoramento da situação de crise que os sistemas de transporte público por ônibus vêm enfrentando nos últimos 14 meses no Brasil mostra um quadro nada animador.

Realizado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), os dados mais recentes sobre o impacto da pandemia, condensados no período de 16 março 2020 a 30 de abril de 2021, mostram um prejuízo acumulado das empresas em R$ 14,2 bilhões até o momento.

Este rombo vem num crescendo contínuo, o que reforça ainda mais a necessidade de uma ação imediata para que os serviços de transporte público por ônibus sejam preservados nas cidades brasileiras.

No balanço anterior, no período de março de 2020 a fevereiro de 2021, o prejuízo das empresas era de R$ 12 bilhões (R$ 11,75 bi).

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Levantamento da NTU mostra que transporte coletivo acumula prejuízos de quase R$ 12 bilhões em um ano de pandemia

Já no relatório que reuniu dados de 16 de março de 2020 até 31 de dezembro de 2020, os prejuízos acumulados alcançavam R$ 9,5 bilhões. O que mostra que de dezembro de 2020 a 31 de março de 2021, o prejuízo cresceu 67%, ou R$ 4,8 bilhões.

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Neste último relatório, divulgado nesta quarta-feira, 26 de abril de 2021, a NTU destaca o outro lado da crise: o fechamento de empresas, que deixaram de prestar os serviços. Foram 25 operadoras e 1 consórcio operacional. Este número se soma às demissões de trabalhadores do setor, número acumulado que alcança a marca de 76.757.

Não é preciso dizer que com tudo isso só fez crescer a insatisfação dos passageiros com a redução ou interrupção da oferta de transporte público nas cidades brasileiras.

O presidente-executivo da NTU, Otávio Cunha, afirma que os dados confirmam o cenário de colapso que a Associação vem alertando há alguns meses ao poder público, em vão.

Já o presidente do Sindicato das Empresas de Ônibus de Curitiba (Setransp), Mauricio Gulin, questiona: “Com menos da metade da demanda de antes, como o sistema vai parar em pé?”. Na capital paranaense, o número de passageiros caiu para menos da metade – de 750 mil por dia útil caiu atualmente para cerca de 350 mil. “O sistema terá de ser completamente reestruturado”, acredita Gulin.

O trabalho da NTU mostra ainda que com os impactos da pandemia nesses 14 meses, explodiram 238 movimentos grevistas em 88 sistemas de transporte público por ônibus em todo o país. Foram protestos e/ou manifestações que ocasionaram a interrupção da oferta de serviços em muitas cidades. Na maioria dos os protestos o motivo era a falta de caixa nas empresas para o pagamento de salários e benefícios para os colaboradores, causados pelo desequilíbrio econômico-financeiro consequência da forte queda na demanda de passageiros.

Com a suspensão da prestação do serviço no período avaliado, 13 operadoras e 1 consórcio suspenderam as atividades;  duas operadoras, 1 consórcio operacional e 1 sistema BRT (do Rio de Janeiro) sofreram intervenção na operação; cinco operadoras encerraram as atividades; e quatro tiveram seus contratos suspensos.

O presidente da NTU finaliza: “É muito importante destacar que, lamentavelmente, esse cenário só tende a piorar, enquanto o Poder Público nas três esferas de governo – federal, estadual e municipal – não atentar para as necessidades desse sistema. Há uma necessidade emergencial, de ajuda financeira imediata, e uma necessidade de longo prazo, de reestruturação total da forma de contratação e operação dos serviços, como já foi proposto ao Governo Federal. Essas mudanças são consenso entre todas as entidades do setor, especialistas e organizações da sociedade civil ligadas ao transporte público“.

Para o dirigente da Associação que represente nacionalmente as empresas do setor, se nada for feito, o transporte público, em especial o ônibus coletivo urbano, não se sustentará por muito tempo e não sobreviverá após a pandemia, especialmente se for mantido o atual modelo de remuneração do serviço.

A manutenção dos serviços com oferta superior à demanda, medida necessária para permitir um mínimo de distanciamento social, é outro fator que impactou nos custos, e contribuiu para aumentar o desequilíbrio financeiro das empresas.

Repare no gráfico abaixo, que retrata essa realidade no período do início da pandemia até 30 de abril de 2021:


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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