OPINIÃO: Empresas estão na UTI

Foto: Alexandre Pelegi

Em várias cidades brasileiras, as mais combalidas não resistiram e encerraram suas atividades

FRANCISCO CHRISTOVAM

Existem várias maneiras ou artifícios para contar uma história ou mesmo para relatar uma situação. A paródia e a metáfora são figuras de linguagem que podem muito bem ajudar nesse propósito.

Usando, então, a metáfora, pode-se dizer que as empresas operadoras de transporte coletivo de passageiros também foram contaminadas pelo coronavírus e, quase todas, se tornaram pacientes de alto risco. Isso mesmo, as empresas de transporte foram impactadas pelo vírus e precisam de tratamento como se fossem portadoras de uma doença muito grave.

Desde março do ano passado, quando começou o período da pandemia, as empresas/pacientes passaram a lidar com situações inéditas e a trabalhar com medidas sanitárias e de higienização, como nunca haviam feito antes.

Dentre outras surpresas que apareceram, o afastamento social e as várias ações propostas para se evitar aglomerações provocaram enorme danos à saúde financeira na maioria das pacientes. Os primeiros sintomas da contaminação já indicavam que aquelas, portadoras de algum tipo de comorbidade empresarial, enfrentariam dias muito difíceis.

Muito antes de surgir uma nova cepa do vírus, com o agravamento da doença, algumas delas começaram a dar sinais de que a situação provocada pelo coronavírus havia superado a sua capacidade de reagir sem uma medicação apropriada. O nível da temperatura e da oxigenação de seus órgãos mais importantes se tornou preocupante e passou a indicar a necessidade de cuidados muito especiais.

Tratamento precoce e medidas paliativas não estavam mais sendo eficazes e a medicação caseira, então, não permitia que as mais enfermas pudessem cuidar do seu dia a dia, da forma como sempre fizeram. Em alguns poucos casos, operações de emergência permitiram ajustes e mudanças de tratamento e de postura que possibilitaram uma razoável recuperação das moribundas e o prolongamento da sua existência. Entretanto, na maioria dos casos, o seu estado de saúde indicava necessidade de cuidados intensivos ou, lamentavelmente, a sua morte por asfixia.

O anúncio de que haveria uma injeção na veia de insumos provenientes do Governo Federal trouxe novas esperanças, num primeiro momento; porém, acabou se tornando uma grande frustação, quando as mais debilitadas se deram conta que tudo não passava de um “sonho de noite de verão”. Boa parte delas, em diferentes estágios de contaminação, ficou com “inveja branca” de suas congêneres americanas, que foram assistidas pelo governo com medidas curativas que vieram para, definitivamente, tirá-las da situação periclitante em que também se encontravam.

Em várias cidades brasileiras, as mais combalidas não resistiram e encerraram suas atividades. Outras, mesmo estando na UTI, em estado grave, continuam ainda lutando com todas as forças para se manterem vivas e sempre acreditando que alguma nova vacina ou algum outro remédio possam surgir, em futuro bem próximo.

Em alguns locais, houve tratamento de choque e foram usadas armas que a medicina não recomenda, tais como a retirada do pouco oxigênio fornecido às enfermas em estado crítico, o uso do poder judiciário para indicar remédio alternativo e até intervenção direta no seu processo vital.

As entidades de classe nunca desistiram e continuam buscando algum tipo de alívio para superar a situação vigente e combater as variantes virais que possam surgir no curto prazo. Porém, todas têm a mais absoluta consciência que, sem um tratamento específico, rápido e eficaz, utilizando medicamento potente e eficiente, mais pacientes serão internadas na UTI e, muito provavelmente, boa parte delas não sobreviverá.

A moral dessa história é que as empresas de transporte de passageiros, acometidas pelo coronavírus, não têm mais muito tempo de vida sem um remédio forte, que possa resolver os problemas atuais de maneira contundente e definitiva. Todas elas necessitam de atenção e tratamento de emergência, com vacina de amplo espectro, de maneira a assegurar a sobrevivência e a permanência de cada uma no seu local de atuação.

Francisco Christovam: especialista em transporte

As opiniões nos artigos não necessariamente representam o posicionamento do Diário do Transporte

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Comentários

Comentários

  1. vagligeiro disse:

    Cá entre nós?

    Quem botou o transporte público na UTI foram os próprios empresários, (muitos dos) sindicalistas, profissionais e demais da área de transporte público.

    O apoio ao presidente atual, em 2018, foi um tiro suicida, pensando que com um suposto “presidente liberal”, as empresas teriam mais “liberdade”, e por consequência, “ganhos”, dentro do mercado do transporte público.

    Pois bem, 2 anos depois, uma pandemia que pegou todos de surpresa e a ficha não caiu. Notório aqui.

    O transporte público, na forma atual, tem problemas que fazem o próprio não se sustentar. E o esforço para “pedir ajuda” ao governo federal esbarra na fila furada dos empresários (que no final foram devidamente enganados) que compraram uma suposta proteção – pena que tal não ocorra com advogados, promotores, juízes, policiais, fiscais de trânsito, secretários de transporte e políticos de alto gabarito, já que estes são pagos e dão a infeliz e devida proteção a quem não deveria ser protegido.

    Grupos de transportes com inúmeros problemas na justiça, sem solução e postergando enquanto opera. Senador dono de viação de operação nacional. Isso falando de casos expostos. Enquanto isso cidades ainda não tiveram as vísceras dos contratos de transporte expostos e vistos pela população.

    A forma atual do transporte público infelizmente vai morrer depois disto, pois a entubação aqui tem falta de oxigênio e o médico no final quer mesmo que o paciente morra.

    É hora de renascer o transporte público, de outra forma, de outra maneira, que a população se sinta afim de usar o ônibus, de participar das decisões.

    CNPJ pode morrer vários. Tem gente que mata CNPJ e joga a alma da empresa em um CNPJ novo.

    O que não pode mais morrer é CPF.

  2. carlos souza disse:

    Estado geral do Brasil:coma terminal.Além de irreversível,resta pouquíssimo tempo de vida.Na verdade esse país já morreu e já foi velado.Falta só o sepultamento.País ilegal e sem ética nem legitimidade nenhumíssima.Aceitem que esse país já está extinto há muito tempo.

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