OPINIÃO: Chegou a hora de vacinar os motoristas

A única solução é a vacinação imediata, urgente e prioritária dos motoristas de ônibus…

NIVALDO AZEVEDO

Se puder, fique em casa. Autoridades do mundo inteiro repetem isso à exaustão desde que um inimigo invisível, incansável e com uma enorme capacidade de adaptação deixou o planeta em pânico.

O melhor a fazer sempre foi mesmo ficar em casa, preservar a própria vida e a de seus familiares. Mas muitos não podem parar. Seja por estarem na linha de frente do combate ao vírus, seja por necessidade de sobrevivência.

Profissionais de saúde estão esgotados. Física e mentalmente. São eles que veem todos os dias pessoas sofrendo, muitas vezes sem poder fazer nada para aliviar aquela dor ou mesmo para salvar aquela vida. Milhares de médicos, enfermeiros e outros profissionais da saúde perderam suas próprias vidas, contaminados por esse vírus misterioso e traiçoeiro. A eles, nossa gratidão e nosso eterno respeito.

Não foi por acaso, tampouco por gratidão ou respeito, que os profissionais da saúde foram os primeiros a receber a vacina contra a Covid-19. Foi por necessidade mesmo. Se eles falhassem, se deixassem seus postos, o vírus venceria a guerra. Assim como é justo que as pessoas mais idosas sejam prioritárias na fila da vacinação. Embora as novas mutações do coronavírus não respeitem idade, os idosos são naturalmente mais frágeis e precisam, sim, ser protegidos.

Agora, a vacinação dos idosos está chegando ao fim e o Brasil ainda não tem vacinas disponíveis no volume necessário para a imunização de toda a população. Então, chegou a hora de discutir quem vai ser vacinado primeiro. E não parece que haja dúvida de que os motoristas de ônibus sejam prioridade para a imunização.

Os motoristas não pararam nem um segundo desde o início da pandemia, em março de 2020. Os ônibus rodaram o tempo todo transportando aqueles que também não podiam parar, inclusive médicos, enfermeiros e policiais. Não raro, em horários de pico, a lotação dos coletivos superava o aceitável para um período em que o distanciamento social virou questão de saúde pública.

A lotação, mesmo indesejável, se justifica. Embora o número de passageiros tenha caído drasticamente desde o decreto de pandemia, a frota circulante também foi reduzida. Não por ganância dos empresários, como alguns irresponsáveis da imprensa querem fazer crer, mas pela preservação da vida dos próprios motoristas. Cerca de 12% da frota foi retirada de circulação, com a anuência do sindicato da categoria, para que os motoristas com mais de 60 anos pudessem ficar em casa, protegidos do vírus. Houve um acordo nesse sentido, documentado e assinado pelas empresas e pelo representante sindical dos trabalhadores.

Com a vacinação dos idosos concluída, é possível que as autoridades sanitárias deem o aval para que os trabalhadores com mais de 60 anos voltem aos seus postos em serviços essenciais, como é o caso do transporte coletivo de passageiros. E isso é ótimo. Mas como ficam os outros motoristas, agora que o vírus não escolhe mais idade para matar?

Se o distanciamento social é tão necessário, e é mesmo. Se preservar a vida é tão necessário, e é mesmo. Se os serviços essenciais não podem parar, e não podem mesmo. Então não há mais razão para adiar a vacinação de todos os motoristas de ônibus e outros profissionais da linha de frente do transporte coletivo. Centenas já morreram, mesmo com toda a proteção (máscaras, álcool em gel, etc), contaminados dentro dos ônibus. Estavam trabalhando, afinal atuam em serviço essencial. Não dá mais pra deixa-los morrer.

Há uma alternativa, dada pelo sindicato dos motoristas, o mesmo que deveria zelar pelo emprego de seus liderados: contratar mais motoristas. É um erro triplo: aumenta o custo do sistema bancado pelos cofres públicos, sinaliza que os atuais profissionais são dispensáveis e coloca ainda mais gente sob exposição do vírus. Sem contar que os atuais motoristas são constantemente treinados e testados e os novos contratados viriam sem a mesma experiência e treinamento, deixando os usuários, além de expostos pelo vírus, sob o risco de acidentes por falta de experiência do condutor.

Fato é que a única solução é a vacinação imediata, urgente e prioritária dos motoristas de ônibus. É bem verdade que não é a única categoria que precisa ser vacinada antes das demais. Policiais e professores também devem estar na lista, pelo bem da sociedade e zelando pelas nossas gerações futuras. Mas quem leva os professores para a escola, os policiais para os quarteis, os médicos e enfermeiros para os hospitais? Esses também são heróis de todo o dia, também merecem respeito e consideração.

Nivaldo Azevedo, advogado, é assessor de relações institucionais da Urbi SP (Associação das Empresas de Mobilidade e Transporte Coletivo de São Paulo)

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Comentários

Comentários

  1. vagligeiro disse:

    Se os empresários de ônibus (que hoje aparentemente são protegidos pelos busólogos pelo que tenho notado em muitos atos dos mesmos) tivessem feito lobby para justamente agir politicamente para ajudar na vacinação dos profissionais do transporte público, seria muito legal.

    Mas não. Os empresários de ônibus fazem lobby para comprar vacina à parte para eles mesmos. e esquecem dos funcionários. Quando não atrasam salários ou brigam por áreas nas quais eles julgam que ganharão uns trocados ao invés de fazer o devido serviço público. E nada é dito pelos busólogos. Pelo contrário, o que tenho mais lido é busólogo defendendo empresário para que não gaste dinheiro, que “linhas que são ‘inúteis’ devem ser desativadas”. Busólogo hoje tá defendendo mais empresário de ônibus do que a população.

    O ideal mesmo é a vacinação para todos os brasileiros, mas infelizmente em 2018 muitos votaram errado, escolheram errado e agora todos arcam com as consequências do erro cometido – inclusive vi muitos busólogos cometendo este erro. Aí a vacinação acaba sendo por grupos – o que apesar de correto, gera uma sensação de “injustiça”. Mas bem, injustiça foi ver muitos na rua se divertindo e não se cuidando. Nos ferramos.

    Tá na hora mesmo é de acabar com o empresariado de ônibus brasileiro atual. Pena que as escolhas políticas foram erradas e não ajudaram a pensar em formas de novos nomes e forças possam entrar no setor de transporte público para ajudar a fazer o país ter uma mobilidade melhor.

  2. JOSÉ LUIZ VILLAR COEDO disse:

    Ja passou da hora ! E vacinar Professores tmb ! E toda a sorte de funcionários de Escolas Públicas e Privadas!

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