PL da Câmara usa cidades europeias como exemplo para propor tráfego de motos nas faixas de ônibus em São Paulo

Estudo feito em Londres em 2010 “mostrou aumento da velocidade das motocicletas e aumento significativo da acidentalidade”

Vereador afirma que medida diminuirá os riscos com acidentes envolvendo motocicletas. Estudos de experiência em Londres, no entanto, mostram o oposto

ALEXANDRE PELEGI

Permitir a circulação de motocicletas nas faixas exclusivas de ônibus do Sistema de Transporte Público da capital paulista, em qualquer horário.

Esse é o objetivo do Projeto de Lei 01-00157/2021, proposto pelo Vereador Marlon Luz (Patriota).

De acordo com o vereador, a proposta pretende diminuir os riscos com acidentes envolvendo motocicletas, além de possibilitar maior segurança e agilidade para “o grande número de motocicletas que trafegam prestando serviços de delivery”.

Para justificar sua proposta, o vereador lança mão de experiências que, segundo ele, foram exitosas em cidades europeias, como Londres.

Ele afirma que a capital do Reino Unido publicou uma lei que permitiu os motociclistas a transitarem nas faixas destinadas aos ônibus (em horários predeterminados e regulamentação específica). “E após estudos, que duraram um ano e meio, comprovarem que o número de colisões e acidentes com moto caiu 40%; além da redução de emissões de gases poluentes e a melhoria da fluidez geral do tráfego”.

Além de Londres, o vereador cita os casos de estudos formulados em Madri e Sevilha (Espanha) e em Porto (Portugal).

O PL acredita que liberar as faixas de rolamento para motocicletas favorecerá a todos, não somente aos motociclistas, “pois além de desafogar o trânsito nas vias normais, claramente diminuirá o número de colisões/acidentes; a insegurança (pois o motociclista deixará de ser alvo fácil dos assaltos e roubos); a emissão de gases e; o tempo de deslocamento, proporcionando maior segurança e permitindo que atendam aos seus compromissos nos horários previstos”.

ESTUDOS DA EXPERIÊNCIA DE LONDRES

Um estudo da CET-SP, publicado na revista técnica da empresa municipal (Revista UniCET, maio de 2019), alerta para que “quando tomamos como exemplo o que é feito em outra cidade precisamos ter o cuidado de identificarmos algumas características importantes para sabermos se a proposta implantada nesta cidade serve como solução para os problemas vivenciados na nossa cidade. A questão deve ser analisada mais profundamente”.

O trabalho, assinado pela engenheira Margarida Maria Lourenço Cruz, especialista no tema desse tipo de acidentalidade, divulgou dois estudos publicados em Londres entre 2010 e 2011 que analisaram as consequências da implantação da permissão da circulação de motos nas faixas de ônibus. Margarida fez ainda uma comparação com dados de tráfego da cidade de São Paulo.

A autora do trabalho faz a ressalva, após analisar os resultados colhidos pelos dois estudos, que “antes de implementar uma medida como esta, é necessário verificar como solucionar as dificuldades já apresentadas em Londres e se as diferenças entre as duas  cidade  pode  comprometer  o  resultado  da  implementação da medida. A dificuldade, por parte de todos os usuários da via, de identificação das faixas onde a circulação é permitida é apenas uma das questões a serem estudadas antes  da  implementação  da  autorização  de  circulação  de  motos em outra cidade. Também é necessário ainda garantir que o volume de motos que circule nas faixas de ônibus não traga prejuízos ao transporte público. A priorização da circulação de motos não deve ser feita em detrimento da circulação do transporte público”, afirma o trabalho da técnica da CET-SP.

Na conclusão de seu trabalho Margarida cita importantes diferenciações entre a realidade do tráfego entre Londres e São Paulo.

Ela lembra que o motivo pelo qual Londres decidiu permitir a motocicleta em faixas de ônibus “foi priorizar a motocicleta visando reduzir os congestionamentos”. No caso do PL do vereador paulistano um dos objetivos implícitos é atender aos entregadores de delivery. Ele afirma na Justificativa do PL que a medida via possibilitar maior segurança e agilidade para “o grande número de motocicletas que trafegam prestando serviços de delivery”.

Margarida aponta ainda que atualmente a autorização em Londres é restrita, “não é regulamentada na maior parte da cidade”.

Outra importante diferenciação: as características físicas das faixas de ônibus na capital inglesa diferem das de São Paulo, como, por exemplo, a largura destas faixas.

Além disso, o perfil do fluxo em Londres também não é similar ao da capital paulista. “A participação das motos na composição total do fluxo na cidade de São Paulo é dez vezes maior que a participação das motos na cidade de Londres”.

Quanto à redução dos acidentes, o estudo feito em Londres em 2010 “mostrou aumento da   velocidade das motocicletas e aumento significativo da acidentalidade”.

Margarida aponta que “apesar das regulamentações elaboradas para garantir a segurança dos usuários, os motociclistas e os ciclistas ficaram mais vulneráveis”, ou seja, exatamente o oposto do que pretende o PL apresentado na Câmara de São Paulo.

Já o segundo estudo feito em Londres, em 2011, segundo Margarida este mostrou uma queda na acidentalidade após a implementação de campanhas educativas e de medidas de fiscalização. Entretanto, ela cita que apesar dos esforços e investimentos, estes “não foram suficientes para anular os aumentos registrados na publicação anterior.

Para ler o artigo de Margarida Maria Lourenço Cruz, faça o download no link: Motos nas Faixas de Ônibus – Comparação entre Londres e São Paulo

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. à Sra Margarida Maria, dou-lhe parabéns por saber argumentar muito bem e é esclarecedor na diferenciação entre a capital SP, com Londres (outra mentalidade de ações),,,,e na minha opinião não ajuda e sim atrapalha ao mesmo tempo que a nossa cidade ainda precisa garantir na melhoria dos corredores para melhor fluidez. Sem falar que já é autorizado o uso da via de coletivos para Taxis, ainda vindo uma nova ideia de se deixar Ubers utilizarem também,,,,Virou festa? E a coletividade,?? Tem de se dar prioridade a maioria aquelas que não dispõe de um 4 rodas para circular, e necessita cada vez mais diminuir o tempo de casa-trabalho-casa….Tomara que não passe. E se passar demonstra o quanto os vereadores não acompanham a realidade da cidade ou dão pouca importância a qualidade

  2. Denys Pierre Acura disse:

    Esse sujeito está a serviço da corporação Uber e não dá municipalidade. Assim como essa empresa pouco se importa com a mobilidade e sim com o seu lucro. Eles não pensam nós prestadores de serviço se acidenta, colocam outro e pronto. Quem precisa se lasque.

  3. Denys Pierre Acura disse:

    Londres também está obrigando a Uber a pagar salário mínimo né dar férias remunerada aos prestadores e reconhecer vinculado empregatício. Porquê ele não está defendendo está ideia tbm esse sujeito

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