Reduzir percentual do biodiesel no diesel tiraria pressão sobre custos do transporte, defende NTU

NTU afirma que se aumento do diesel em 2020 fosse repassado à tarifa, aumento seria equivalente em média a 22 centavos

Nota Técnica da CNT, apoiada por entidade de empresas de ônibus urbanos, garante que medida não eleva a emissão de gases poluentes, e ainda reduzir preço do combustível, que impacta em 23% nos custos do setor

ALEXANDRE PELEGI

As constantes elevações no preço do diesel estão agravando ainda mais a crise já profunda do transporte coletivo urbano no país.

Após o auxílio emergencial de R$ 4 bilhões ter sido vetado pelo presidente Jair Bolsonaro, mesmo depois de longa negociação e aprovação no Congresso Federal no fim de 2020, o setor entra em 2021 preocupado com a pandemia que se aprofunda. Para piorar, a demanda vai seguir em patamares sofríveis, ao mesmo tempo em que a União não acena com nenhuma mudança em relação a definir políticas de remodelação e prioridade ao transporte público.

Neste cenário restam medidas paliativas, e a pressão do diesel, principal componente de custo na planilha das empresas, precisa ser aliviada.

Nesta segunda-feira, 08 de março de 2021, a Petrobrás voltou a anunciar novo reajuste no combustível, predominantemente usado em ônibus e caminhões. Com + 5,5% de aumento, somente em 2021, o combustível acumula alta de 41,6%.

Em nota encaminhada à imprensa especializada, a Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), para conter em parte os efeitos dos reajustes do óleo diesel nos custos do transporte público, decidiu apoiar a imediata redução do percentual de biodiesel misturado no diesel comercializado no Brasil.

A proposta consta de Nota Técnica elaborada pela Confederação Nacional do Transporte (CNT), e divulgada na sexta-feira (05).

No documento a CNT propõe que o biodiesel na composição do combustível seja reduzido em 50% ou mais, o que aliviaria de imediato no preço do diesel. Essa redução poderia ir mais longe, até zerar o nível do insumo por um período limitado.

Como mostrou o Diário do Transporte, desde 1º de março de 2021 o diesel passou a receber a adição de 13% de biodiesel, 1% a mais do que o percentual em vigor desde março de 2020.

A medida, prevista na Resolução 16, de 2018, do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), autoriza a Agência Nacional do Petróleo (ANP) a elevar o percentual até 15%, patamar a ser alcançado em 2023.

De acordo com a nota técnica da CNT, essa porcentagem destoa dos níveis praticados em outros países. “No Japão, por exemplo, o biodiesel representa apenas 5% do insumo. Na Comunidade Europeia, a taxa é de 7%. No Canadá, adota-se de 2% a 4% na mistura”.

Ainda segundo a NTU, de 1999 a 2020, os aumentos do diesel geraram uma variação de 511,12% no preço do insumo, que tem impacto de 23% nos custos do setor. “No mesmo período, os reajustes acumulados da gasolina só impactaram em 308,7% o preço do litro desse combustível, favorecendo os meios de transporte individuais, movidos à gasolina, em detrimento dos modais coletivos”, afirma a entidade empresarial.

O estudo da CNT, apoiado pela NTU, chama a atenção para as desvantagens que o uso excessivo do biodiesel causaria na frota brasileira. Segundo a Nota Técnica, a mistura comprometeria a mecânica e o desempenho dos veículos, em especial os mais antigos.

O biodiesel possui maior capacidade de absorver água, propriedade conhecida como higroscopicidade. Além de ser mais higroscópico, esse biocombustível possui maior quantidade de oxigênio em sua composição e maior capacidade de dissolver substâncias orgânicas”, diz o estudo.

Com essa característica, elevaria os riscos de contaminação do diesel e a proliferação de microorganismos, “com poder de degradar o combustível e causar danos nos tanques de armazenamento e componentes automotivos”, garante a NTU baseada no estudo da CNT.

A Nota Técnica afirma de forma categórica que reduzir o nível de biodiesel na composição do diesel não eleva a emissão de gases poluentes.

A NTU reforça que o Brasil está adequado à fase P8 do Proconve (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores), que orienta níveis de 6% a 7% de biodiesel puro (B100) na mistura. “A Nota Técnica da CNT cita estudos recentes segundo os quais níveis excessivos de biocombustível no diesel comercial podem elevar os níveis de emissão de dióxido de nitrogênio, poluente danoso à saúde e ao meio ambiente”.

Ou seja, a adição de biodiesel teria efeito contrário ao desejado, defende o estudo da CNT.

IMPACTO NA TARIFA

A NTU afirma que os sucessivos reajustes no preço do diesel nas distribuidoras registrados nos últimos 12 meses causam um impacto direto se fossem aplicados às tarifas de ônibus, que poderiam chegar a uma correção de 4,1% no valor médio da passagem de ônibus no Brasil, valor equivalente a mais 16 centavos.

Para superar a crise do transporte público, que enfrenta queda sem precedentes no número de passageiros e agora tem que lidar também com o aumento dos custos operacionais causados pelos sucessivos reajustes do diesel, a NTU defende ainda mudanças estruturais para resolver os principais problemas da área, como a adoção de um novo marco legal para o transporte público urbano e de caráter urbano, que inclua a segurança jurídica e a transparência nas relações contratuais das empresas operadoras”, conclui a NTU.

LEIA A NOTA TÉCNICA DA CNT NA ÍNTEGRA:


Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

Comentários

  1. Marcos Ornelas Martins Assis disse:

    Játá na hora de investir em veículos elétricos, híbridos ou gnv (mais viável no momento)

    1. Fabio Almeida disse:

      Ou em carro movido a urina. Aí sim seria sustentável 😂

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