Histórias de passageiros de ônibus da madrugada inspiram livro gratuito no Instagram

Os autores no Terminal Sacomã, em São Paulo: Lucas Alves (esquerda), Marcos Candido (centro) e Rafael Moura (direita). Foto Divulgação.

‘Instalivro’ reúne personagens que utilizam as linhas noturnas da capital paulista, da meia-noite às 4h

JESSICA MARQUES

Quem anda de ônibus na madrugada da capital paulista? Trabalhadores, estudantes, pessoas em busca de diversão, viajantes… Os mais diversos perfis de passageiros das linhas noturnas de São Paulo serviram de inspiração para um “Instalivro”. O nome moderno é utilizado para designar um formado de livro gratuito criado para a rede social Instagram.

O Instalivro intitulado “Noturno” traz histórias reais de pessoas que utilizam os ônibus em operação na cidade de São Paulo da meia-noite às 4h. O projeto foi criado por três jornalistas da capital e do ABC Paulista.

Durante três meses, os jornalistas Lucas Alves, Marcos Candido e Rafael Moura produziram crônicas sobre os personagens da madrugada paulistana. As ilustrações foram feitas pela artista Tuia.

Ao todo, a capital conta com 150 linhas gerenciadas pela SPTrans. Em alguns destes itinerários, os autores do projeto encontraram diversos personagens para as crônicas.

HISTÓRIAS

Todas as histórias publicadas são reais. Entre elas, estão a de um motorista que largou a faculdade para dirigir ônibus e a de uma prostituta que reclama da crise econômica. Os jornalistas também falaram com a única mulher motorista da madrugada e relataram até uma fuga policial feita por um passageiro na tentativa de se livrar de um crime.

Outros relatos trazidos pelo Instalivro incluem o de um chapeiro de padaria que sofria com homofobia dos colegas e tinha o sonho de viajar para o Canadá, onde imaginava que poderia ser aceito. Também há personagens como um grupo de garçons que apostava tudo o que ganhava no baralho; um passageiro que usou o ônibus para fugir do cerco da polícia; uma mulher que lutou contra uma tentativa de feminicídio; e a de um segurança orgulhoso por ter trabalhado em campo durante uma partida da Copa do Mundo no Brasil, embora não tenha visto o jogo, pois ficava de costas para o gramado.

O livro pode ser acessado gratuitamente pelo Instagram @cronicasnoturno. Para ler as histórias, é necessário ter uma conta na rede social e clicar nos stories em destaque. O acesso é feito da mesma forma que os usuários visualizam as publicações dos amigos. Até o fim de abril de 2021, o projeto vai disponibilizar uma crônica a cada terça-feira.

DO ÔNIBUS PARA O ÔNIBUS

O jornalista Marcos Candido, um dos autores do projeto, contou que a ideia surgiu a partir da união das experiências dos três jornalistas, colegas na universidade. Inicialmente em versão impressa, o livro foi criado com dez tiragens para o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) dos então estudantes. Desde o início, a proposta sempre foi criar um material fácil de ler no ônibus.

“A ideia do Noturno começa por uma união entre nós três jornalistas. Estudávamos juntos e nós três éramos bolsistas. Estudamos em escola pública e viemos de famílias mais pobres. Por sermos pobres e cada um de uma cidade, pegamos muito ônibus. A gente nunca teve carro próprio e inclusive nenhum dos três tem automóvel, ainda continuamos utilizando o transporte público”, contou Candido.

“O Lucas Alves trouxe a ideia de contar a história de pessoas que pegam ônibus na cidade de São Paulo. A gente já tinha visto outras experiências e reportagens nesse sentido, só que a gente queria trazer uma peculiaridade, encontrar pessoas dentro de ônibus com histórias particulares, com uma diferença das pessoas que pegam ônibus de dia. Na época, ele falou que tinha acabado de ser lançado o ‘ônibus noturno’, que opera durante a madrugada de São Paulo, quando a cidade está mais vazia, são outras pessoas, com outras profissões, e não é mais o mesmo espaço. É completamente diferente, dentro da própria cidade”, detalhou também o jornalista.

A versão física do Noturno ficou guardada por cerca de dois anos, quando os jornalistas decidiram retomar o projeto com um formato digital. A ideia, ao publicar as crônicas por meio do Instagram, foi permitir que as pessoas pegassem o celular dentro do ônibus, para ler algo rápido e encontrar histórias sobre pessoas que pudessem inclusive estar sentadas ao lado, no transporte público.

Para dar vida ao Instalivro, a artista Tuia, designer visual na consultoria de inovação Questtonó, criou templates com as histórias e desenvolveu artes para ilustrar cada uma das crônicas. O objetivo do projeto é permitir que o acesso ao conteúdo seja democrático, pois o “Noturno”, pode ser lido gratuitamente em qualquer lugar, inclusive dentro de um ônibus.

“Aquele ambiente vazio e solitário de ônibus da noite se transformava quando a gente sentava para conversar com as pessoas, que se mostraram muito mais abertas do que costumam ser durante o dia. O espaço se tornava um lugar acolhedor e íntimo, o que foi uma das nossas principais descobertas e fez com que pudéssemos coletar relatos bem mais ricos. Tinha muita vida ali’”, afirmou um dos autores do livro, Lucas Alves.

FORMATO INSTALIVRO

O formato Instalivro é disponibilizado por meio da função stories do Instagram, para trazer as crônicas de maneira interativa. No caso da conta @cronicasnoturno, cada conjunto de stories em destaque reúne uma crônica. Por sua vez, no feed da rede social, as chamadas para as histórias são acompanhadas por ilustrações criadas pela designer Tuia, prontas para serem compartilhadas, curtidas e comentadas pelos leitores.

A inspiração para o formato foi trazida por Rafael Moura, um dos três autores. A ideia veio a partir de um projeto de adaptação de livros da Biblioteca Pública de Nova York, nos Estados Unidos. O trabalho foi premiado por adaptar obras com “A metamorfose”, de Franz Kafka, e “Alice no País das Maravilhas”, de Lewis Caroll.

Conforme explicam os autores de Noturno, o formato é parte de um movimento para subverter a lógica do papel, baratear custos e ter alcance maior para autores, em uma época de influenciadores e criação massiva de conteúdo digital.

“Procuramos editais da Prefeitura para viabilizar o livro na versão impressa, mas além de escassos durante a pandemia do novo coronavírus, vimos que o formato já não fazia tanto sentido. Os leitores estão nas redes sociais, que são usadas de graça, democratizam a leitura e ainda aumentam o alcance da nossa obra”, explicou Rafael Moura.

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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