OPINIÃO: Pesquisa Origem-Destino online e não presencial, no Recife tem

Foto: Bruno Campos de Souza / WRI Brasil

SIDENEY SCHREINER

Fazer uma pesquisa Origem-Destino integrada à rotina da cidade, em formato on-line e não presencial, foi o desafio que a cidade do Recife se propôs a superar em 2015, numa experiência inovadora que mudou o panorama da disponibilidade de dados para o planejamento da mobilidade na quarta maior capital do país.

Para superar os desafios impostos pelo custo e pela dificuldade de realizar uma pesquisa origem-destino pelo método tradicional, uma nova metodologia foi desenvolvida pelos técnicos do órgão de planejamento urbano do município, o Instituto da Cidade Pelópidas Silveira, e em 2016 foi realizada a quarta Pesquisa OD do Recife, sendo a primeira edição utilizando a nova metodologia.

Naquela edição, em caráter de teste, mais de 86 mil pessoas foram pesquisadas no município. O sucesso da aplicação da metodologia levou o Estado de Pernambuco a apoiar a iniciativa e a pesquisa foi expandida para as 15 cidades da Região Metropolitana do Recife na segunda aplicação da metodologia em 2018, quando mais de 200 mil pessoas foram pesquisadas.

A terceira edição com a nova metodologia estava planejada para 2020, mas pela necessidade de se redesenhar a pesquisa para abranger questões relativas ao impacto da pandemia no deslocamento das pessoas, esta foi adiada para 2021.

Agora a Prefeitura do Recife se prepara para dar início à terceira edição da pesquisa em Abril, o que destaca uma importante característica do novo processo, ele pode ser realizado em intervalos menores que os tradicionais 10 anos, permitindo aos órgãos de planejamento um melhor acompanhamento e dinamismo na gestão da mobilidade urbana.

A metodologia desenvolvida no Recife tem em comum com a metodologia tradicional apenas a forma de dimensionar a amostra mínima a ser obtida para garantir a validade estatística dos resultados. Os outros aspectos da pesquisa são todos inovadores.

A pesquisa traz empresas e instituições de ensino para dentro do processo, tornando esses atores meios de comunicação e divulgação entre as pessoas com as quais se relacionam. Para tanto, o Recife adotou uma lei municipal, a Lei da Informação de Mobilidade (Lei Municipal 18.205/2015), que torna a participação na pesquisa OD um componente do processo de licenciamento dos empreendimentos, que são os principais beneficiados por uma mobilidade urbana eficiente. Por esta lei, cada empreendimento promove entre seus funcionários, alunos e clientes a participação na pesquisa, que é feita através de um formulário online que pode ser acessado por computador, tablet ou celular.

http://pesquisaodmetropolitana.recife.pe.gov.br/.

A facilidade de divulgação do link do formulário foi percebida pela circulação em grupos de aplicativos de mensagens.

O envolvimento das escolas públicas e particulares promove a ampla participação na pesquisa, tanto em relação à situação econômica, quanto distribuição geográfica. Além disso, permite levar a pesquisa até as famílias que não fazem parte do mercado de trabalho formal, que é abordado pela participação das empresas.

Naturalmente, qualquer pessoa interessada pode acessar o site da pesquisa e participar, mesmo que não tenha vinculação com empresas ou instituições de ensino.

Exemplo de comunicado enviado pelas escolas aos pais de alunos

 

As respostas são despersonalizadas e cada resposta recebe um comprovante de participação online com um código de verificação. As empresas e escolas recolhem e reportam os códigos de seus funcionários, alunos e clientes ao município, que ao validar os códigos considera esse item do processo de renovação do licenciamento como cumprido.

A segurança das informações é garantida já que o código não dá acesso aos dados que foram respondidos, mas apenas comprova que as respostas foram recebidas pelo sistema.

Como o processo foi realizado integralmente pelo município, o custo de realização da pesquisa nessa modalidade é bastante reduzido, praticamente sem custos externos. No Recife, o formulário eletrônico foi desenvolvido pela empresa municipal de informática e o processamento dos dados foi realizado pelo próprio instituto de planejamento.

No pico de recebimento de respostas, quando coincidiram ações de divulgação junto a grandes empresas da cidade com o período de matrículas escolares, que é momento quando as escolas solicitam aos pais dos alunos participem da pesquisa, o sistema chegou a registrar uma nova resposta a cada 2 segundos.

Outra grande vantagem que a metodologia proporcionou foi a capacidade de rápida análise dos resultados que foram divulgados à população pouco mais de um mês após o encerramento da coleta de respostas. Alias, devido à integração com o processo de licenciamento, a entrada de respostas é permanente.

Diversas cidades já se mostraram interessadas na aplicação da metodologia, mostrando que há espaço para modernização dos processos de aquisição de dados e melhoria do planejamento da mobilidade urbana no país a partir de soluções nacionais.

Sideney Schreiner foi o idealizador da nova metodologia enquanto Diretor Executivo de Planejamento da Mobilidade (2015-2019) no Instituo da Cidade Pelópidas Silveira – Prefeitura do Recife. Hoje atua como consultor na EWS Engenharia de Transportes (www.ews.eng.br).

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