Mapa da Desigualdade 2020 mostra cidadão da periferia paulistana como o grande prejudicado na mobilidade

Mapa mostra que moradores da periferia dependem muito do transporte por ônibus e gastam muito mais tempo no deslocamento casa-trabalho. Foto Arquivo: Robinho Santos (ônibus na zona Sul de SP)

Quanto mais distante do centro de São Paulo, perfil do morador é o do cidadão sem automóvel, que faz mais transferências para chegar ao trabalho, tem menos acesso ao transporte de massa e é muito dependente do transporte por ônibus

ALEXANDRE PELEGI

O Mapa da Desigualdade 2020, lançado pela Rede Nossa SP nessa quinta-feira, 29 de outubro de 2020, traz indicadores importantes relativos à população, meio ambiente, mobilidade, direitos humanos, habitação, saúde, educação, cultura, esporte e trabalho e renda.

O evento foi transmitido de forma virtual, com transmissão pelo YouTube e pelo Facebook da Rede, e contou com a participação de alguns candidatos à Prefeitura de São Paulo: Bruno Covas (PSDB), Guilherme Boulos (Psol), Jilmar Tatto (PT) e Márcio França (PSB).

Com dados sobre os 96 distritos da capital paulista, o Mapa utiliza fontes públicas e oficiais, identifica prioridades e necessidades da população, servindo como instrumento de auxílio à gestão e ao planejamento municipal.

Através de um painel denominado “desigualtômetro”, os dados coletados pela Rede Nossa SP são coletados e trabalhados para dar um retrato da realidade dos distritos da capital paulista.

O painel evidencia a diferença entre o melhor e o pior para cada um dos indicadores.

No caso da Mobilidade Urbana na capital Paulista, o “desigualtômetro” aponta o forte desequilíbrio que há entre o morador da periferia e o morador das regiões centrais. A concentração do emprego em regiões mais próximas ao centro contrasta com os locais de  moradia do trabalhador mais pobre, expulso pela especulação imobiliária para o extremo da cidade.

Quanto mais pobres e mais distantes dos locais de trabalho, os moradores da periferia são os que possuem menos automóveis, são obrigados a fazer mais transferências para chegar ao emprego, têm menos acesso ao transporte de massa e são muito mais dependentes do transporte por ônibus.

TRANSPORTE DE ALTA CAPACIDADE

O cálculo da pesquisa define a proporção (%) da população que reside em um raio de até 1 km de estações de sistemas de transporte público de alta capacidade (trem, metrô e monotrilho), por distrito.

A República, num índice que vai de zero a 100, aparece com 88%, enquanto a média na capital é de 18,1%.

Ou seja, de cada 100 paulistanos, apenas 18 residem a menos de 1 quilômetro de uma estação de trem, metrô ou monotrilho.

Esse mapa, em particular, aponta a desigualdade de acesso ao transporte de alta e média capacidade, apontando uma diferença de 194 vezes entre o melhor e o pior distrito. Os distritos centrais são os mais privilegiados quando comparados aos da periferia.

Se a República tem 88% dos moradores próximos aos serviços de metrô ou trem, e a Sé 86%, o restante da população de 29 distritos só têm como opção o serviço de transporte por ônibus.

TRANSPORTE PÚBLICO X TRANSPORTE INDIVIDUAL

Já no quesito que calcula a proporção entre viagens por transporte público em relação às viagens motorizadas, o Mapa da Desigualdade destaca a Vila Guilherme, na Zona Norte, com o percentual 36,4%. Já Perus, na zona Noroeste, é o que ostenta o pior resultado, 80,5%.

Isso significa dizer que o transporte público é mais usado em Perus que na Vila Guilherme, onde cresce a dependência do transporte motorizado.

De uma maneira geral, a periferia é muito mais dependente do uso do transporte que os moradores das regiões centrais, que optam pelo uso do automóvel. A proporção entre os modos chega a ser de 2,2 vezes.

TEMPO MÉDIO DAS VIAGENS AO TRABALHO POR TRANSPORTE PÚBLICO

Com se poder ver pelos dados do Mapa, a desigualdade é evidente entre os distritos mais centrais e os da periferia.

Isso fica mais gritante quando a pesquisa da Rede Nossa SP calcula o tempo médio que a população paulistana gasta em seu deslocamento ao trabalho realizado por transporte público.

A desigualdade chega a 4 vezes entre o pior e o melhor resultado.

Marsilac, situado no extremo sul da capital, tem o pior resultado, ou seja, os moradores desse distrito gastam muito mais tempo no deslocamento.

Como na capital a oferta de trabalho está concentrada nas regiões mais centrais, os moradores dos bairros mais distantes são os mais penalizados em seus deslocamentos.

Enquanto em média o paulistano despende 56 minutos para ir ao trabalho, os moradores da periferia gastam mais de duas horas. Quem reside no Brás, região central, gasta apenas 31 minutos de viagem.

TRANSFERÊNCIAS NAS VIAGENS AO TRABALHO POR TRANSPORTE PÚBLICO

A pesquisa refina os dados, e aponta um dos motivos, além da distância entre trabalho e emprego, que reforça o motivo do maior tempo gasto no deslocamento casa-trabalho para os moradores da periferia.

A pesquisa calcula o número médio de transferências (entre veículos) das viagens ao trabalho por transporte público, por distrito.

Mais uma vez, a periferia é penalizada.

Cidade Tiradentes, no extremo leste da capital, apresenta o pior resultado. O morador desse distrito faz, em média, 2,7 transferências em seu deslocamento, ao passo que os residentes de regiões centrais, como Consolação, Bela Vista, República e Jardim Paulista, fazem apenas 1,2 transferências em média para chegar a seus locais de trabalho.

PROPRIEDADE DE AUTOMÓVEL

Um dado interessante é o que retrata geograficamente a posse de veículos particulares.

Mostrando a importância do acesso ao transporte de massa, somado à proximidade do emprego e serviços, as famílias residentes na República são as que menos possuem veículo motorizado.

A Rede Nossa São Paulo indica que 45,5% dos moradores da capital não têm carro. “Apesar do automóvel gerar mais poluição, congestionamentos e acidentes, não ter um carro em uma cidade como São Paulo, que investe proporcionalmente mais em mobilidade motorizada individual, pode significar a privação do acesso a oportunidades por uma camada significativa da população“, destaca o estudo.

No entanto, essa privação diminui substantivamente se o local de moradia reduz a necessidade de grandes deslocamentos, ou ainda se provê transporte de alta capacidade que garante regularidade e frequência, algo que os ônibus, por causa da falta absoluta de prioridade no uso do viário não conseguem prover.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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Comentários

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  1. JOSÉ LUIZ VILLAR COEDO disse:

    PRINCIPALMENTE NA ÁREA 2 ! PEDIMOS SOCORRO !

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