ENTREVISTA: Aplicativos auxiliam setor de fretamento a crescer em meio à crise, diz CEO do Fretadão

Fretadão é uma plataforma digital com aplicativo e site de transporte compartilhado de ônibus, micro-ônibus e vans.

Em setembro, volta ao trabalho nos escritórios resultou em aumento de 30% da procura por ônibus fretados da empresa

JESSICA MARQUES

O fretamento é um dos maiores responsáveis pela movimentação do setor de transportes em meio à crise gerada pela pandemia de Covid-19. Com a retomada das atividades econômicas, os ônibus fretados mostram-se como uma opção inclusive ao transporte público.

Neste contexto, em entrevista ao Diário do Transporte, o CEO do Fretadão, Antônio Carlos, afirmou que os aplicativos auxiliam o setor de fretamento a crescer em maio à crise.

“Os aplicativos vêm para somar para o setor de fretamento e trazer uma demanda que os transportadores antes não tinham acesso. Hoje tem empresas que contratam fretados através do Fretadão que nunca conseguiriam contratar um transportador convencional por não ter as opções de modelo compartilhado que nós temos ou por não ter acesso a essa informação que a gente leva a todos eles. É um momento que o setor tende a crescer com impacto dos aplicativos e tudo o que está mudando com essa pandemia”, disse.

O Fretadão é uma plataforma digital com aplicativo e site de transporte compartilhado de ônibus, micro-ônibus e vans. O Fretadão desenvolveu um modelo de negócio de gestão de fretados que gerencia toda a cadeia do transporte, desde a experiência inicial do usuário até o compartilhamento de um fretado entre mais de uma empresa e usuários comuns.

Atualmente, são 8.200 passageiros por dia utilizando o Fretadão e 110 parceiros transportadores homologados na plataforma. Segundo o CEO da empresa por aplicativo, em setembro, a volta ao trabalho nos escritórios resultou em aumento de 30% da procura por ônibus fretados do Fretadão.

Confira a entrevista, na íntegra, com Antônio Carlos:

Antônio Carlos, CEO do Fretadão. Foto: Divulgação.

Diário do Transporte Como funciona o Fretadão? É o mesmo modelo de aplicativos atuais de transporte?

Antônio Carlos – O Fretadão é uma plataforma tecnológica que faz a intermediação do transporte de fretamento contínuo. A gente liga empresas com empresas de ônibus ou o passageiro pessoa física com empresas de ônibus para viabilizar esse transporte.

Temos todo um sistema que cria as rotas de fretados para as empresas com o menor custo possível, gera preços de contrato considerando os custos de transporte até a gestão do dia a dia.

Temos equipamentos embarcados nos ônibus, como telemetria, controle de acesso, Wi-Fi e um aplicativo que o passageiro consegue ver onde está o fretado, falar com nossa equipe 24 horas para atendimento, os motoristas têm aplicativo para fazer as rotas dos fretados para os motoristas, mostra onde estão os pontos e os passageiros.

É uma plataforma que cuida da gestão do transporte fretado e gera negócios para os transportadores, além da redução de custos para empresas que contratam o transporte fretado através de nós.

Para o passageiro há revisão contínua da qualidade dos veículos, que garante conforto. A gente homologa os veículos dos parceiros, Wi-Fi obrigatório em todos os ônibus que trabalham conosco e o aplicativo que permite consultar rotas disponíveis, reservar veículo, ver em tempo real onde está o fretado dele ou todos da empresa, dependendo da configuração, e ele também tem acesso ao nosso atendimento 24h caso tenha algum problema no trajeto, se ele perder o fretado nossa equipe o ajuda para que ele consiga se deslocar.

Quais localidades são cobertas pelo Fretadão?

A gente está atuando nos estados de Minas Gerais, Brasília, Pará, Rio Grande do Sul e São Paulo. Atendemos mais de 130 municípios, com uma grande concentração no estado de São Paulo. A gente faz 410 mil viagens por mês em todo o Brasil.

No estado de São Paulo, temos na Região do ABC Paulista, Sorocaba e Região, Campinas, Jundiaí, Baixada Santista, São José dos Campos, Ribeirão Preto, Bauru, praticamente o estado inteiro.

Como o aumento da procura do transporte por fretamento foi observado pelo Fretadão?

A gente começa a pandemia com uma parada dos escritórios. Naturalmente, teve a parada das linhas administrativas. A gente viu que teve uma queda dos fretados no período administrativo no período da pandemia.

Porém, hoje a gente é especialista em centros logísticos e indústria. Nesse setor a gente cresceu, porque as empresas não podiam parar e de repente o fretado se tornou uma opção ao transporte público.

Teve clientes que solicitaram distanciamento social e tivemos que dividir os passageiros em dois veículos, assim teve aumento da demanda.

No primeiro mês da pandemia ficamos estagnados e depois crescemos em torno de 15% ao mês até o mês atual. Mês passado a gente cresceu 18% com relação ao mês anterior.

Agora, no mês de setembro, a gente começou a sentir uma volta da procura, a busca aumentou 30%, das empresas de escritório. As empresas que estão paradas começaram a retomar e buscar novamente o transporte fretado como alternativa segura de transporte. De setembro em diante a gente teve um aumento dos escritórios de uns 30%.

Qual era a demanda de antes do início da pandemia e qual é a demanda atual?

A gente está o dobro do tamanho do que estava quando começou a pandemia. Nós dobramos o tamanho. No começo da pandemia a gente fazia 200 mil viagens por mês, agora estamos fazendo 410 mil viagens por mês.

Nós do Fretadão não sentimos o reflexo da pandemia de forma negativa, o que traz esperança para o setor de fretamento. A gente acredita que o transporte fretado é uma forma segura de se locomover. O trabalho que estamos desenvolvendo junto com os operadores – porque não temos ônibus, somos uma plataforma – tem feito com que vários dos nossos parceiros sobrevivam a essa crise e de maneira até melhor do que eles estavam antes.

Durante a pandemia, as empresas melhoraram a qualidade dos serviços?

Com certeza. Temos empresas que começaram a pandemia com a gente com 10 veículos e hoje têm 20 trabalhando com a gente. Teve transportadores que acabaram indo na contramão do mercado e crescendo junto conosco.

Atualmente, qual a demanda de passageiros?

Hoje a gente tem 8.200 passageiros por dia utilizando o Fretadão e a gente está com 110 parceiros transportadores homologados na plataforma.

São mais de 400 veículos que trabalham para nós todos os dias no serviço de fretamento. No próximo ano a gente quer atuar em todos os estados do país, aumentar a capilaridade e investir em marketing e vendas, para aumentar o atendimento e levar a solução de transporte por aplicativo para outras regiões do país que ainda não têm acesso ao nosso serviço.

O setor de fretamento tende a ser uma opção de deslocamentos urbanos e metropolitanos com a volta das atividades econômicas em período de pandemia?

Sim. É uma boa solução para fugir do transporte público. As empresas já enxergam isso como uma opção mais segura e confortável para os colaboradores.

O setor tende a ganhar com isso sim. Por conta de muitas empresas terem quebrado no meio dessa pandemia, a gente vê dificuldade de alguns operadores de transporte por fretamento, é natural.

Os aplicativos vêm para somar para o setor de fretamento e trazer uma demanda que os transportadores antes não tinham acesso. Hoje tem empresas que contratam fretados através do Fretadão que nunca conseguiriam contratar um transportador convencional por não ter as opções de modelo compartilhado que nós temos ou por não ter acesso a essa informação que a gente leva a todos eles. É um momento que o setor tende a crescer com impacto dos aplicativos e tudo o que está mudando com essa pandemia.

De que forma o serviço oferecido pelo transporte por fretamento compensa a diferença nos custos em comparação ao transporte coletivo?

Em alguns casos, o fretado chega a ser até mais barato. Quando a empresa, por exemplo, tem viagem intermunicipal sem integrações, o fretado compete de igual para igual com o transporte público. Os custos são similares ou até menores.

Uma pessoa que sai de Guarulhos para ir trabalhar em Alphaville tem um custo maior [com o transporte coletivo] do que com um fretado. Uma pessoa que sai do ABC para ir para São Paulo tem um custo equiparável com o custo do fretado.

Quando a gente fala de veículos da cidade, no municipal, o custo do fretado é maior e tem que se pesar a questão da qualidade. Em todos os nossos veículos, a gente faz controle de poltrona. Então a gente sabe onde as pessoas sentam. No momento da pandemia, se houve teste positivo de Covid-19, a gente consegue identificar exatamente quem estava sentado próximo daquela pessoa. Esse tipo de coisa é um valor que as empresas enxergam e, principalmente depois da pandemia, tende a ter uma flexibilização de quantidade de idas para o trabalho, home office por um período, e acaba se tornando uma opção ainda melhor, porque você pode converter o custo com o transporte em um fretado de melhor qualidade, sem ter um custo maior. As empresas que olham mais para a qualidade de vida das pessoas vão começar a ponderar mais isso também.

A Artesp lançou consulta pública para uma nova regulamentação ao segmento. Quais as expectativas e o Fretadão entende que só pode ser considerado fretamento o regime de circuito fechado, pelo qual o mesmo grupo de pessoas estão na ida e volta?

No nosso caso o circuito fechado se encaixa. O Fretadão tem o circuito fechado, por isso não temos problema legal com relação ao nosso serviço. O mesmo grupo que vai volta com a mesma linha, contrato mensal, conforme todas as regras do fretamento contínuo.

Essa regulamentação não impacta nossa atuação em si, mas para as empresas de aplicativo de viagens rodoviárias, que é o caso da Buser que vem enfrentando esse tipo de situação, acho que a Artesp precisa ter um pensamento progressista, olhar para o futuro, ver a demanda dos passageiros e há necessidade de mudar a legislação para que mais empresas possam participar do transporte rodoviário, de forma mais democrática. Somos favoráveis à disrupção da tecnologia no transporte, apesar de não afetar o nosso setor.

Quanto mais flexibilizar as leis de transporte de fretamento, isso é benéfico para todos. Para os operadores de transporte principalmente, para pequenas empresas e aplicativos. A gente aguarda que as decisões sejam favoráveis ao modelo de intermediação por aplicativo no transporte, mas isso pouco impacta nosso negócio hoje.

Leia também: ENTREVISTA: Fretamento e escolares contribuem para produção de ônibus, mas não há previsão para recuperação do setor

Jessica Marques para o Diário do Transporte

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