Covas confirma Wi-Fi em metade da frota de ônibus da Capital

Publicado em: 16 de outubro de 2020

Matéria do Diário do Transporte mostrou que decisão do prefeito poderá entrar em choque com edital de concessão ora em vigor

ALEXANDRE PELEGI

Colaborou Adamo Bazani

Confirmando matéria publicada pelo Diário do Transporte na manhã desta sexta-feira, 16 de outubro de 2020, o prefeito Bruno Covas aproveitou coletiva do Governo do Estado de SP para anunciar Wi-Fi em metade da frota de ônibus do sistema de transporte coletivo da capital paulista.

Bruno usou dados de um relatório de 2016 do Banco Mundial que estima que, segundo ele, que a cada 10% da população a mais com acesso à banda larga, isso significa um crescimento econômico de mais 1,4%.

Além de anunciar 1.120 pontos de Wi-Fi pela cidade até o fim de 2020, Covas garantiu a implantação do sistema em 50% da frota de ônibus.

A prefeitura vem investindo para criar esse tipo de infraestrutura aqui na cidade. Até o fim do ano nós teremos 1.120 pontos de Wi-Fi… [e] metade da frota de ônibus também com acesso à internet, estamos renovando todos os equipamentos do telecentro na cidade de São Paulo“, disse o prefeito.

Para justificar o ato, o prefeito disse que encaminhou à Câmara Municipal na manhã de hoje um projeto de emenda à Lei Orgânica do município instituindo o acesso à internet como um direto fundamental da população da cidade, ao lado do direito à saúde, à educação e ao transporte.

Ouça:

Como noticiou o Diário do Transporte, diversas fontes anteciparam essa informação ao Diário do Transporte.

A SPTrans teria recentemente encaminhado um pedido de forma extraoficial para que as empresas concessionárias de ônibus da cidade instalem 7500 roteadores Wi-Fi para ofertar internet gratuita para a população em um prazo de 30 dias.

Ainda segundo essas informações, para que esses equipamentos fossem viabilizados, a SPTrans teria acionado os fornecedores de tecnologia embarcada já homologados dentro de processo previsto no edital de concessão ora em vigor.

Em função disso, o Diário encaminhou um pedido formal de esclarecimentos à SPTrans, por meio da Assessoria de Imprensa, nessa terça-feira, 13 de outubro de 2020, em que solicita respostas sobre a veracidade do assunto. Apesar da boa vontade e disposição da Assessoria da estatal, até o momento não obtivemos qualquer resposta, seja negando, seja esclarecendo o assunto.

PROBLEMAS COM EDITAL

O edital de concessão, ora em vigência, prevê a adoção não só de Wi-Fi, como de outras tecnologias nos ônibus do sistema de transporte coletivo da capital paulista. O documento prevê além do Wi-Fi, especialmente na primeira fase de adoção, a instalação de um computador de bordo, cuja missão é capturar dados sobre o serviço ofertado pelas concessionárias, e uma tela de apoio à condução do motorista, com vistas a implantar processos de melhoria da qualidade de indicadores do transporte. É o que se chama de Unidade Central de Processamento (UCP).

Esses equipamentos embarcados deveriam, segundo o edital, comunicar com um novo sistema central (SMGO – Sistema de Monitoramento e Gestão Operacional), para controle de indicadores de qualidade e gestão de contrato e remuneração das empresas.

O que causa estranheza e preocupação, é que a ser verdade a informação veiculada, o Wi-Fi estaria sendo previsto de forma isolada e desconectada do cronograma oficial expresso no edital. Ou seja, ele seria implantado sem possuir o computador que deveria controlar seu funcionamento e sem o sistema central previsto inicialmente.

Ainda que isso possa ser visto como um ganho para os usuários dos ônibus da cidade, a SPTrans, caso consolide esse movimento, estaria deixando de implementar recursos previstos que podem tanto elevar o nível de serviço das empresas concessionárias, quanto tornar o sistema mais econômico, sistema, sempre é bom lembrar, altamente subsidiado.

Por que isso?

Até onde se pode entender, o novo sistema central (alimentado pelo computador de bordo) prevê os controles de indicadores previstos para aplicação da fórmula de remuneração definitiva para as empresas, que têm operado até aqui com uma remuneração de transição.

Além disso, este novo sistema prevê desconto no valor a ser repassado para as empresas concessionárias caso estas não cumpram as viagens estipuladas pela SPTrans dentro de critérios mensuráveis de qualidade (como pontualidade e reclamação de usuários).

Logo, é válido questionar o real benefício para a população da capital (usuários e não usuários) caso seja verdadeira a pressa de se equipar parte dos ônibus com sistema Wi-Fi sem antes, como entendemos pelo Edital, providenciar equipamentos vitais para o controle e a redução de custos do sistema.

Além disso, cabe também perguntar: quais empresas de fato podem assumir essa responsabilidade em prazo tão curto? Isso não poderia abrir as portas para se justificar a contratação de empresas de fora do sistema, o que significa dizer empresas que não estão homologadas? Quem pagaria por esse custo adicional?

Pelo visto, caso isso ocorra, pode-se afirmar que a pressa terá se tornado na grande inimiga dos benefícios da tecnologia.

Apesar da declaração do prefeito, o Diário do Transporte segue aguardando a manifestação da SPTrans sobre como a adoção de Wi-Fi em metade da frota respeitará o definido no Edital de concessão do sistema de transporte coletivo.

Assim que a SPTrans responder, sua manifestação será veiculada neste espaço.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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