Crescimento da Covid-19 no Brasil não pode ser relacionado ao transporte público, diz estudo de empresas de ônibus

Publicado em: 16 de setembro de 2020

Ônibus em Teresina. Local ficou sem transporte, mas casos aumentaram

Levantamento foi feito pela NTU, associação que representa as viações, e avaliou 15 sistemas de transporte público responsáveis por 171 municípios

ADAMO BAZANI

O transporte coletivo não pode ser considerado o vilão do avanço da Covid-19 no Brasil.

É o que conclui um estudo apresentado na manhã desta quarta-feira, 16 de setembro de 2020, pela NTU – Associação Nacional da Empresas de Transportes Urbanos, que reúne mais de 500 empresas de ônibus no País.

O levantamento, segundo a entidade, “teve como base a variação da demanda por transporte, calculada pela NTU, e os dados do SUS (Sistema Único de Saúde) durante 17 semanas, entre as semanas epidemiológicas 14 e 30, de 29 de março a 25 de julho de 2020. Os dados do SUS foram agregados em semanas epidemiológicas para que fossem estabelecidos os mesmos referenciais às demandas de viagens realizadas por passageiros no transporte público por ônibus.”

A NTU diz que coletou dados do número de passageiros transportados em 15 sistemas de transportes públicos urbanos por ônibus no Brasil, responsáveis por 171 municípios, e a incidência de casos confirmados de Covid-19 nas mesmas cidades.

Foram analisadas as regiões de Belém-PA; Belo Horizonte-MG (municipal); Belo Horizonte-MG (intermunicipal metropolitano); Curitiba-PR; Curitiba (intermunicipal metropolitano); Fortaleza-CE; Goiânia-GO; Macapá-AP; Natal-RN; Porto Alegre-RS;Recife-PE;Rio de Janeiro-RJ (municipal); Rio de Janeiro  (intermunicipal metropolitano);Vitória-ES e Teresina-PI, que juntas, somam 32,5% do total de viagens de passageiros realizadas em todos os 2.901 municípios brasileiros atendidos por sistemas organizados de transporte público por ônibus (IBGE, 2017), ou seja, mais de 325 milhões de viagens de passageiros por mês, ou 13 milhões de deslocamentos diários de pessoas.

Os números de casos de Covid-19 foram então, de acordo com a NTU, agregados em semanas epidemiológicas para que fossem estabelecidos os mesmos referenciais às demandas de viagens realizadas por passageiros no transporte público por ônibus.

“O estudo concluiu que não há evidências de que o aumento do número de passageiros transportados levou a um aumento do número de casos.” – diz a entidade.

O trabalho levou em conta 255 registros de informações dos sistemas de transporte público coletivo.

“Não foram encontradas evidências de que o aumento do número de passageiros transportados levou a um aumento da incidência de casos confirmados de Covid-19. Em algumas cidades, o aumento da demanda por transporte coincidiu com a redução do número de casos confirmados, enquanto em outras a redução do número de passageiros do transporte coletivo aconteceu simultaneamente com o aumento da incidência de casos.” – diz a entidade.

O trabalho comparou, segundo a NTU, os casos confirmados de Covid-19 observados sete dias após a demanda transportada, considerando que, em caso de contaminação do passageiro durante a viagem, este seria o prazo médio entre a eventual infecção e a detecção da contaminação por testes.

“Não foi observada associação entre o número de passageiros transportados por ônibus e o aumento do número de casos.” – explicou a entidade em nota técnica.

Um dos exemplos citados na apresentação foi o de Teresina (Piauí), onde, segundo a NTU, houve paralisação dos transportes por 52 dias, entre 15 de maio e 6 de julho, e, mesmo assim, durante este período houve aumento do número de casos.

INQUÉRITO SOROLÓGICO DE SÃO PAULO:

Os dados mostrados pela NTU coincidem com a conclusão do inquérito sorológico da capital paulista, feito pela USP – Universidade de São Paulo em conjunto com a prefeitura.

Como mostrou o Diário do Transporte em 28 de agosto, atualmente na cidade de São Paulo corre mais risco de se contaminar com o novo coronavírus, causador da Covid-19, quem mora com cinco ou mais pessoas do que quem usa o transporte público.

Foram pesquisados 3.217 domicílios (excluindo imóveis comerciais) e a coleta na base das 472 Unidades Básicas de Saúde foi entre os dias 18 e 20 de agosto. Foi a quarta fase do inquérito, que realizou testagem nas pessoas pesquisadas.

O índice de prevalência, em toda a cidade, é de 11%, ou seja, estima-se que 1,3 milhão dos 12 milhões de moradores da capital paulista, já tiveram contato com o vírus.

De acordo com o levantamento divulgado nesta quinta-feira, 27 de agosto de 2020, nas residências com cinco ou mais moradores , a prevalência, ou seja, o risco de contágio foi de 16%

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2020/08/28/risco-de-contagio-pela-covid-19-em-transporte-publico-e-menor-que-em-residencias-com-cinco-moradores-ou-mais-diz-inquerito-sorologico-da-capital-paulista/

SUPERLOTAÇÃO DEVE SER EVITADA:

O presidente da NTU, Otávio Cunha, disse na entrevista coletiva, com  participação do Diário do Transporte, que as empresas devem continuar fazendo sua parte, com a higienização constante dos ônibus, desinfecção e proteção aos trabalhadores, com a medição de temperatura e uso de máscara e álcool em gel.

O executivo afirmou que a superlotação deve ser evitada, mas que para isso, não basta apenas se fixar no aumento da frota como solução.

São necessárias outras ações, como o escalonamento de entrada e saída de trabalhadores e estudantes para diluir os horários de pico, uma vez que haverá um momento em que toda a frota escalada será empregada e não será possível adquirir mais ônibus.

 

CULTURA

Cunha disse ainda que o momento tem sido uma lição para o pós-pandemia e que os hábitos e práticas das empresas de ônibus, com a higienização mais detalhada da frota, devem se tornar rotina, uma cultura nas viações.

“Está sendo a oportunidade de aprender a trabalhar de forma diferente e criar novos hábitos, não deixa de ser um avanço. A limpeza dos veículos a cada final de viagem tem se mostrado possível em grande parte dos casos. Isso inclusive viu contribuir para a melhoria da imagem do setor” – disse


AR-CONDICIONADO:

O estudo da NTU também levou em conta a existência do ar-condicionado nos ônibus.

Segundo a associação, em torno de 50% da frota urbana das regiões analisadas possuem o equipamento.

De acordo com a entidade, ficou claro que a ventilação natural com as janelas abertas ou o ar com a renovação forçada nos veículos pode reduzir o risco de disseminação do novo coronavírus.

Mas não foi possível relacionar o contágio direto com a presença da refrigeração.

A NTU destacou ainda um projeto chamado “Areja”, de uma start-up selecionada pela entidade num programa de inovação, que desenvolveu um equipamento que pode contribuir para a renovação do ar nos veículos.



Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

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Comentários

  1. Laurindo Martins Junqueira Filho disse:

    Muito estranho que cidades de SP não tenham sido consideradas no estudo… Afinal, muitas delas possuem bilhetagem automática e dados, no mínimo, D+1.

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