ESPECIAL: Como é a substituição de trilhos do Metrô de São Paulo

Publicado em: 13 de setembro de 2020

Trabalho não para durante a madrugada e tem de ser feito rapidamente e por profissionais qualificados

O Diário do Transporte acompanhou de perto uma madrugada de manutenção num dos sistemas metroferroviários mais movimentados do mundo

WILLIAN MOREIRA

Quando as estações do Metrô de São Paulo fecham as portas para o público, muitos acham que o sistema fica parado, mas é neste período da madrugada que funcionários correm contra o tempo para realizar serviços que mantêm o transporte operando.

O Diário do Transporte esteve no Metrô durante a madrugada da sexta-feira, 11 de setembro de 2020, acompanhando a substituição de 200 metros trilhos entre as estações Anhangabaú e República, na linha 3 Vermelha.

Apesar de aparentar ser simples e parecer um trecho pequeno, o trabalho desta troca de trilhos mobilizou mais de 30 funcionários, trabalhando de forma coordenada, um sincronismo necessário para a conclusão ser feita antes da hora de abrir as estações: às 4h40.

Logo após a estação fechar as portas, o supervisor de manutenção, Ronaldo Pereira Lacerda, recebeu a reportagem e explicou o serviço a ser executado, ….

“Substituição preventiva de trilhos que chegaram próximo ao seu limite de uso é manter a segurança operacional do sistema. Acompanhamos e monitoramos o desgaste (dos trilhos) e quando chega ao nível de troca, fazemos uma programação para a substituição dentro dos limites ditados pela nossa engenharia.

Supervisor de manutenção, Ronaldo Pereira Lacerda

“Monitoramos os desgastes de trilhos a cada seis meses e quando chega n ao limite, aproximadamente 10 a 12 anos [de uso sem defeito] é feita a troca.  A troca tem um limite total de execução da atividade de três horas e meia e tentamos fazer  no menor tempo possível com todo pessoal bem treinado para seguir as normas e procedimentos que a companhia desenvolve, para executar a atividade”, explicou Ronaldo Lacerda

Funcionário faz verificação geral da área a ser trabalhada


Ações com esta de troca de trilhos são frutos de um trabalho cuidadoso do Metrô de São Paulo que monitora diariamente as vias, buscando encontrar algo que esteja fora das conformidades como uma fixação solta ou desgastes de trilhos, trabalho feito entre 10 e15  quilômetros de vias todos os dias.

Quando determinado previamente um ponto de manutenção, é feito um planejamento que leva à execução do serviço, procedimento que leva entre três e quatro dias.

Neste período, é incluída não apenas a substituição, mas a confecção e preparação das peças que vão ser utilizadas, o transporte até o ponto onde será realizado o trabalho, o dia da troca e o transporte para fora do sistema do material que não terá mais serventia.

“Desta proporção de 200 metros, podemos levar até uma semana para fazer do começo ao fim, concluindo a troca. Estamos concentrados em tirar o velho (trilho) e colocar o novo, fazendo as duas soltadas. O tempo é em cima, no limite”, explica o Supervisor de Manutenção Jorge Augusto.

Em paralelo à troca, técnicos em topografia e de manutenção avaliam outros pontos da rede verificando se está tudo dentro do projeto original com o uso de equipamentos de alta tecnologia como ultrassom, produtos que constatam fissuras no metal que não podem ser vistos a olho nu e se for constatado algo de errado, este local entrará na lista de serviços a serem executados, com prazo variando de acordo com a urgência.

Inspeção dos trilhos é feita com equipamentos de alta tecnologia



“É feita a limpeza do local (no caso um trilho), é aplicado um produto chamado “penetrante” e se existir alguma descontinuidade, este penetrante vai entrar no trecho e vamos perceber se existe ou não uma inconformidade. Após alguns minutos é feita a limpeza novamente da superfície, com a revelação se tem condição a desgaste do equipamento,”
exemplificou Ronaldo Lacerda.

“O projeto da via já prevê a segurança e esforço que o trilho é exigido e constantemente eles são verificados, seguindo normais internacionais”, concluiu Ronaldo.

A TROCA EM SI DO TRILHO

Com a chegada das equipes e dos veículos de manutenção que trazem os equipamentos necessários, inclusive uma plataforma elevatória, trabalhadores começam removendo as peças que fixam o trilho ao concreto formando a via.

No mesmo instante, outra equipe vem atrás com um equipamento que se ajusta às vias e tem um gancho pelo qual o trilho, que é cortado no maçarico em pequenas partes, é içado e colocado entre os trilhos de uso. O procedimento permite que não seja prejudicada a passagem dos trens.

Este processo é realizado com todo cuidado, mas de forma ágil, aproveitando o máximo do tempo disponível, algo possível apenas com profissionais bem treinados, o que foi claramente notado pela reportagem.

Trabalhadores fazem a remoção dos trilhos que não terão mais serventia


Com o trilho já cortado, retirado e acomodado em local que não causa interferências, a nova peça de 200 metros já soldada é movimentada pelos mesmos “guindastes” utilizados para remoção dos trilhos antigos, que colocam os novos no lugar certo.

Em seguida, os mesmos trabalhadores que retiraram, vêm “parafusando”, ou seja, colocando as peças que fixam o trilho ao concreto de volta, mas de forma parcial para que sejam feitos ajustes na curvatura do metal.  Este processo é acompanhado pelos supervisores e com técnicos que usam um gabarito de metal responsável por definir o ponto exato onde o trilho deve estar, mantendo a bitola (medida) de 1600mm.

Já nas extremidades do novo trilho, é deixado uma pequena folga entre o trecho antigo e o novo que está sendo fixado para essa parte ser preenchida com um produto em um processo especial que requer muita atenção e treinamento dos profissionais envolvidos.

Emenda dos trilhos e ao fundo “caminhão que circula nos trilhos”


Chamado por Lacerda de o “gran finale”, é o momento em que é preparado em uma fôrma, uma solução que derrete um metal e preenche o espaço que ficou entre os trilhos, tornando-os em um só, sem uma solda simples como pode ser imaginado por muitos.

Ao todo é levado desde a preparação até a retirada da forma e o ato de esmerilhar o trilho, retirando as rebarbas de metal, cerca de 10 a 12 minutos, com uma temperatura alta para quem está próximo.

Acima da fôrma, o produto aquecido se mistura, formando um metal derretido que preenche todos os espaços.

Depois que a fôrma é retirada e com uma ferramenta especial as rebarbas também são removidas, os detritos gerados são colocados em uma lixeira metálica para evitar acidentes como queimaduras nos funcionários, ao mesmo tempo em que a via também é limpa.

RETIRADA DE SUJEIRA

Momentos finais: limpeza dos trilhos


Um questionamento levantado pelo Diário do Transporte foi o porquê os usuários vêem alguns pontos das linhas do Metrô, principalmente entre as estações, “sacos de lixo” no meio da via.

Os técnicos explicaram que é um procedimento normal, pois a limpeza diária e manutenção acabam formando muitos sacos com lixo que não tem como ser retirados em apenas um espaço de pouco mais de três horas. Por isso, ficam em locais que não causam interferências na circulação e são anotados em uma planilha, para no dia seguinte quando o Metrô encerra a operação, o pessoal responsável vir retirar estes sacos, contribuindo para o Metrô de São Paulo continuar sendo um dos mais limpos do mundo.

Outro fator importante é que também são mantidos os cuidados contra o novo coronavírus durante as manutenções: todos os funcionários usam máscara, luvas dependendo do trabalho e álcool em gel, com orientações claras e diárias quanto a essa atenção, tudo para manter o maior número de trens operando em meio à pandemia.

Depois de todo este trabalho, a via é “devolvida” ao Centro de Controle Operacional, que depois da saída dos trabalhadores e veículos de manutenção, deixa tudo pronto para o início da circulação às 4h40.

Quando os mais de quatro milhões de passageiros diários (número de antes da pandemia) começam a usar o sistema, estes trabalhadores do Metrô de São Paulo vão para um merecido descanso pata no dia seguinte, deixarem tudo em ordem de novo.

O Metrô de São Paulo que, nesta segunda-feira, tem uma data especial para comemorar: os 46 anos de operação comercial do primeiro trecho. O dia 14 de setembro de 1974 mudou a mobilidade em São Paulo: a cidade ganhava o Metrô. Eram apenas poucos quilômetros entre Jabaquara e Vila Mariana, na linha azul.

O Metrô de São Paulo hoje tem pouco mais de 100 km, pouco ainda para uma metrópole, que necessita de mais trilhos conjugados com modernos sistemas de ônibus rápidos e menos poluentes.

Willian Moreira, especial para o Diário do Transporte

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Comentários

  1. Importante saber que qualquer cidadão pode agendar visitas às manutenções monitoradas, e assim poder ver como é o serviço árduo da madrugada…Eu mesmo participei, na Marechal Deodoro. Prá que depois não pejoremos os transportes de Lixo.. PROCURE SABER.. SP TEM UM BATALHÃO QUE TRABALHA À NOITE, SEJA METRÔ OU CPTM..E MUITAS GARAGENS DE COLETIVOS.

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