OPINIÃO: Transporte rodoviário após coronavírus – um panorama

Publicado em: 27 de abril de 2020

Pejo foi Secretário Nacional de Mobilidade e Serviços Urbanos. Foto: Divulgação / ALESP.

ENTREVISTA COM JEAN CARLOS PEJO

Muitas são as dúvidas de empresários do setor de transporte rodoviário sobre como proceder e de que maneira encarar o mercado com o baque econômico causado pelo coronavírus – ou Covid19 – a gripe altamente contagiosa que impactou o mundo, e colocou o Brasil em estado de calamidade pública.

Afinal, seja no setor de logística ou mesmo no transporte coletivo de passageiros, todos foram atingidos de alguma forma. De acordo com dados colhidos pelo SETCESP – Sindicato das Empresas de Transportes de Carga de São Paulo e Região, já na primeira semana de isolamento social, houve uma queda de 26,1% no volume de cargas em relação à operação normal das transportadoras.

Nas semanas seguintes, o número saltou, chegando a 43,9% na primeira quinzena de abril. Em carga fracionada, a queda representou 46,28%, enquanto que, em carga lotação, o número é de 41,84%.

Já no transporte de passageiros, os números são ainda mais preocupantes. De acordo com consulta realizada pelo grupo de pesquisa WRI Brasil, com participação de mais de 15 cidades, houve uma queda média de 75% de passageiros após as medidas de isolamento social.

As consequências ainda são desconhecidas. No entanto, é possível encarar este momento como uma transformação otimista de um setor que, mesmo antes da pandemia, vinha sofrendo com diversos entraves.

Assim, é possível que o Brasil repense seus modelos de produção e consumo, bem como diretrizes políticas e econômicas, que não puderam suportar a crise causada pela pandemia, mais se tornarão melhores após o fim da crise.

Nesse sentido, a Praxio, empresa de tecnologia que desenvolve softwares específicos para operações de transporte rodoviário, convidou Jean Carlos Pejo, Secretário Geral da ALAF/Brasil e ex-Secretário Nacional de Mobilidade e Serviços Urbanos, para um bate-papo essencial a todos que desejam entender melhor o cenário atual e como lidar com a crise no transporte rodoviário causada pelo coronavírus.

Pela oportunidade e importância do tema, a Praxio cedeu a entrevista para divulgação no Diário do Transporte.

Confira!


Estima-se que as medidas de isolamento, decorrentes do novo coronavírus, tenham diminuído uma grande porcentagem de passageiros no transporte rodoviário. Quais são as medidas governamentais que, com base na experiência do senhor, são plausíveis e podem contribuir para a retomada de fôlego dessas empresas?

Jean Carlos Pejo: Primeiramente, precisamos levar em conta que, imediatamente antes da pandemia do coronavírus, as empresas de transporte coletivo já vinham passando por uma situação econômica e financeira difícil.

Isso em decorrência de políticas tarifárias, das condições de capacidade de subsídios, e também de uma série de fatos novos ocorridos, como a própria entrada de serviços privados de transporte de passageiros no mercado.

Ou seja, começamos a pandemia já numa posição de muita dificuldade dessas empresas. Então, passando objetivamente à pergunta, hoje temos quase 80% de perda de movimento que se tinha antes. Isso se aplica tanto no transporte interestadual, como transporte intermunicipal e o transporte público.

O transporte público também tem um aspecto muito importante, que o diferencia de outros setores: ele não pode adequar a oferta à demanda. Isto é, se a demanda caiu 80%, ele não pode reduzir em 70% o número de ônibus.

Se fizer isso, a empresa vai gerar uma fila enorme de espera dos ônibus. Os ônibus circularão lotados, o que vai contra a orientação de evitar aglomerações.

Em situações normais, a oferta do ônibus tem que ser bem maior do que a demanda. Não sendo, há uma drástica redução da receita, e uma redução de despesa que não é tão acentuada. E isso aumenta mais ainda o prejuízo dessas empresas.

Essa situação exige ações de vários setores da sociedade. Em relação ao Governo, eu não tenho dúvidas em afirmar que o primeiro ponto a estabelecer, que também é a principal questão em relação às despesas, é o pessoal.

É importante manter os funcionários com seus empregos. Para isso, deve-se criar a possibilidade de que essas empresas tenham acesso a crédito, independentemente da situação econômica que elas se encontram.

Isso porque, se for solicitar as condições exigíveis antes da crise para a captação de recursos, poucas serão as empresas que terão condições de aproveitar esse recurso no mercado financeiro, especialmente nos bancos do Governo – Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal e o próprio BNDES.

Portanto, essa é uma ação importante a fim de preservar os empregos dos motoristas, dos cobradores, pessoal de manutenção, etc. Afinal, a quebra dessas empresas e a demissão dessas pessoas pode gerar um problema muito sério quando chegarmos ao período da reconstrução.

Outra ação que é fundamental está relacionada ao combustível. O combustível hoje está apresentando, de fato, uma redução. No entanto, é muito mais proveniente do próprio mercado do que de ações positivas de Governo. Nesse sentido, ela poderia ser feita nos ajustes dos impostos, numa regulação de sistemas como CIDE, para diminuir o impacto do custo do combustível nessas empresas.

E a energia elétrica também. Mesmo nesse período de pandemia, as empresas ainda pagam mais caro por energia. Isso porque o pico do transporte coincide com a tarifa mais cara do pico de energia. Como agora nós temos uma redução grande no consumo de energia, não entendo o porquê ainda não foi atenuado o valor da tarifa nos horários de pico, para valores passíveis de serem assimilados pelas empresas.

Essas três medidas são essenciais, factíveis e que dependem de uma atuação do Governo junto a esse setor da sociedade. Finalizando, se o repasse de recurso for para as prefeituras, para que elas viabilizem o aumento de subsídio para o sistema de transporte, esta ação não terá impacto positivo.

É fundamental que esse socorro seja feito diretamente para as empresas, porque as prefeituras tem tanto problema, tanta falta de recurso, que existe uma grande chance de que isso não seja levado para o setor de transporte. Uma vez feito diretamente, os recursos destinados às empresas não serão perdidos, e se tornarão um financiamento que será pago oportunamente pelas empresas, e o cofre do Estado não será penalizado.

Diferentemente do setor de transporte rodoviário de passageiros, o setor rodoviário de cargas tem sido menos afetado. Ainda assim, algumas empresas e profissionais autônomos têm sentido pelo menos algum impacto no bolso. Nesse sentido, quais são os impactos do COVID19 no mercado transporte de cargas? E como eles podem ser superados?

Jean Carlos Pejo: De fato, o sistema de transporte de cargas tem sido também impactado com a pandemia, mas não tão drasticamente como tem acontecido com a movimentação das pessoas. Até porque o abastecimento precisa ser mantido, e as pessoas, via de regra, estão em regime de quarentena. Ou seja, não saem de casa, apenas aquelas tem necessidade.

O que ocorre é que, no transporte de cargas, até pela própria condição da diminuição de consumo, o transporte de produtos de petróleo tem caído muito. Gasolina, óleo diesel e querosene, por exemplo. Todos esses componentes tem tido uma redução grande, e tem várias transportadoras cujo principal produto é o transporte desses combustíveis, desde as distribuidoras até os postos de varejo.

E também, até pela situação mundial, os produtos tem tido diminuição na exportação. Isso ocorre com a soja e com o milho, por exemplo, mas não em números tão grandes. Pelo que temos apurado, essa diminuição vem em uma ordem de 5% a 10% – diferente dos alarmantes 80% do sistema de passageiros.

As ações que o Governo pode tomar não são muito diferentes na questão da folha de pagamento e no acesso ao crédito para as transportadoras. Além disso, existe um problema que aflige caminhoneiros e, por que não, também as empresas de ônibus, que é não ter os restaurantes abertos nas rodovias, tornando mais difícil a vida dos motoristas.

E essa condição também exige alternativas que possam evitar esse efeito. Ou seja, regras estruturadas: não ter pessoas próximas a menos de dois metros de distância, por exemplo. Mas, realmente, fechar todos os restaurantes e lanchonetes na extensa malha rodoviária brasileira, não faz sentido.

Essas condições para empresas de logística são muito importantes, porque o abastecimento não pode ser prejudicado. Nós já tivemos um exemplo claro quando ocorreu a greve dos caminhoneiros, e o que a falta de abastecimento trouxe para a sociedade.

Então, a preocupação do Governo deve ser primeiramente, no meu ponto de vista, a liberação de condições de crédito que permita a sobrevivência das empresas de logística, bem como do motorista independente.

Temos que ter em vista que estamos enfrentando uma guerra. A pandemia do coronavírus é uma guerra. E, como guerra, ela tem que ser combatida em condições específicas. Nós não podemos tratar uma guerra com os procedimentos burocráticos, que realmente tornam o setor público bastante lento. É fundamental que haja maior liberdade do Governo na concessão de créditos, e nas condições que permitam os setores de logística continuarem suas atividades.

Quais são as principais perspectivas de retomada para o setor de transporte e mobilidade no Brasil após o período da quarentena?

Jean Carlos Pejo: Essa pergunta é de uma profundidade muito grande. Então, vou tentar respondê-la da forma mais objetiva possível. Nós não podemos fugir de uma análise de cenários. O término dessa pandemia, ou a regularidade dela, dependerá muito da avaliação de cenários.

Isto é, se ela terá mais dois, quatro ou seis meses de duração, ainda que seja esse isolamento parcial que temos hoje. Então, olhando para o cenário que seja o mais positivo, em que já possamos retomar as atividades em meados de junho, o que precisamos?

Primeiramente, durante o período da pandemia, que foi objeto das perguntas anteriores, é manter as empresas vivas, os empregos vivos, estabelecendo as condições para a retomada. Para isso, será fundamental os investimentos em infraestrutura.

Assim que as coisas forem se regularizando, é um papel muito importante do Governo a reconstrução de setores que, independentemente da pandemia, dependem de investimento do Estado. O transporte público é uma situação clara disso. Este setor exige (e muito) que se tenha investimentos em infraestrutura – seja nos sistemas metropolitanos, bem como sistemas de cidades menores.

Será preciso tornar esses sistemas mais confiáveis, modernos e eficientes, que consiga tirar pessoas do automóvel. Nesse sentido, também com uma tarifa mais justa, que viabilize que as pessoas que hoje trabalham caminhando, por exemplo, prefiram o transporte coletivo devido às condições tarifárias mais adequadas.

Isso deve acontecer através de tecnologia, investimentos, sistemas de bilhetagem, sistemas de integração, sistemas intermodais…. Enfim, é muito importante aquilo que a gente chama de “cidade inteligente” – que seja dada inteligência para o sistema de transporte.

Essa é a única forma que o setor tem de ser competente. E, mais de que nunca, as empresas tem que ser competentes para garantir a continuidade de seus serviços, aumentando a atividade e recuperando o fôlego para pagar aquele passado que foi financiado durante o período da pandemia.

Então, é fundamental o investimento em tecnologia. Hoje não se pode pensar em transporte público sem tecnologia. Essa é a base principal, bem como a infraestrutura de transportes.

E um ponto que não está tão diretamente ligado ao que estamos falando, mas é indireto, é a situação da construção civil e o investimento em habitação, o que tem se mostrado um grave problema nesse nosso período de pandemia.

Lembrando sempre que infraestrutura e construção civil geram empregos diretos, e é o que vamos precisar muito após esse período.

Em sua opinião, no final dessa crise, o que aprenderemos com tudo isso? Como o setor de transporte pode ser transformado e como será a adaptação a essa possível nova realidade?

Jean Carlos Pejo: Essa última pergunta está bastante atrelada à questão anterior. Aqui, tentarei não envolver outros setores que, com certeza, devem ter muitas lições aprendidas, especialmente na área da saúde. Voltando especificamente para o setor de transporte rodoviário, está claro que as empresas precisam ficar mais sólidas.

Não podemos mais viver a situação em que estávamos no aparecimento da pandemia, de um setor muito fragilizado – que precisa, nesse recomeço, ser pensando em uma estruturação mais sustentável.

A base da tecnologia é fundamental, precisamos de muito mais engenharia. Vivemos um período de muita judicialização em tudo, por projetos de engenharia mal feitos ou não feitos.

Além disso, precisamos entender que nem sempre o preço mais baixo é o mais econômico. E precisamos ter uma atuação de maior confiança entre o Executivo e os órgãos de controle.

A participação do setor privado será fundamental para alavancar o desenvolvimento da infraestrutura de transporte, tanto para o segmento de passageiros, como para o transporte de cargas.

Outra lição muito valiosa, é a possibilidade de trabalhar com aquilo que já há algum tempo vem sido discutido, que chamamos de infovias*. Nesse período, todos precisaram se adaptar, e parece que as pessoas estão recebendo esse acesso remoto à informação muito bem, seja por meio de conference calls, streaming, lives – recursos que até então não se dava muita atenção e gera uma grande melhoria na mobilidade urbana.

Temos visto lives de cantores, por exemplo, com até 10 milhões de pessoas participando. Isso veio para ficar. As conferências utilizando dos recursos da internet. A tecnologia 5.0 chegando para dar maior eficiência.

Como eu disse, mas vale reafirmar, o período pós pandemia vai exigir muito investimento em infraestrutura e tecnologia, em engenharia, maior qualidade, e uma sustentabilidade melhor das empresas do setor de logística.

Isso é uma lição dura que nós estamos aprendendo. Lembrando que minha resposta à questão anterior levou em conta o cenário mais otimista. Se a pandemia ocorrer por mais tempo – por mais seis meses, por exemplo – o quadro será muito mais caótico.

Mas temos certeza de que Deus vai iluminar as pessoas, e que conseguiremos encontrar soluções técnicas, com planejamento e inteligência. E que todos entendam que, no momento que estamos passando, realmente a quarentena é muito importante. A movimentação de pessoas precisa ser reduzida, e o Governo precisa encontrar, junto com a sociedade (e as formas existem, como eu disse nas perguntas anteriores) os caminhos para manter as empresas de transporte e logística vivas.

*Fluxo de informações de transporte gerenciadas eletronicamente em vez do papel.

Sobre Jean Carlos Pejo

Pejo possui pós-graduação com MBA em Logística Empresarial e Gerência de Projetos, ambas pela Fundação Getúlio Vargas. Engenheiro mecânico pela UNICAMP e Administrador de Empresa, também possui cursos de especialização e estágios em ferrovias do Japão, França, Reino Unido e Estados Unidos em seu currículo.

Foi Diretor de Planejamento e Gestão da FEPASA – Ferrovia Paulista S.A., membro do Conselho da Cia. Paulista de Força e Luz (Empresa de Transmissão e Distribuição de Energia), bem como consultor técnico das empresas MITSUI e Poyry Engenharia.

Em 2019, foi Secretário Nacional de Mobilidade e Serviços Urbanos (SEMOB). Atualmente, Pejo é Secretário Geral da ALAF/Brasil – Associação Latino-Americana de Ferrovias.

 

Sobre a Praxio

Na Praxio, tecnologia é a ferramenta para descomplicar e mover o mercado, sempre em busca dos melhores resultados em gestão para transporte de passageiros e cargas. Conta em seu portfólio soluções como o sistema Globus, AvaCorp-i, Siga-i, Manu360, Monitoramento, Ponto Virtual, Escala de Motoristas, entre outros. Após 30 anos atuando como a marca BgmRodotec, a empresa passou a se denominar Praxio (www.praxio.com.br) desde novembro de 2018, e tem como novo posicionamento direções conectadas ao futuro.

 

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Comentários

  1. JAIR R CASSIANI disse:

    Parabens Pejo. Sempre coerente

  2. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    O prejuízo trazido pelo COVID-19 é irreversível para qualquer empresa, independentemente da área de atuação.

    Tecnologia não vai tirar o buzão da crise, por um simples motivo.

    Deslocamento é uma condição física; onde o passageiro precisa ir do ponto A ao ponto B.

    Para aumentar o faturamento do buzão para minimizar (não zerar) o prejuízo trazido pelo COVID-19 é preciso fazer o buzão funcionar.

    Enquanto o buzão de Sampa NÃO funcionar, pode até colocar buzão voador movido a hidrogênio, que nem isso vai atrair passageiro, portanto não haverá aumento de faturamento.

    Enquanto operarem o buzão em Sampa a lá CMTC (20/20, sobreposição, carro bota, articuladinho trucadinho batendo lata, linhas ziguezaguadas caranguejadas, linhas Penha Lapa e todo o resto que todo mundo já está careca de saber), o buzão de Sampa não terá aumento de faturamente; nem com o conceito de smart citys ou tecnologia 6.0.

    O problema do buzão é a operação arcaíca escorada no subsídeo que paga tudo isso.

    Quero ver é o buzão rodar só na catraca e se continuar com essa operação JURÁSSICA, nem com subsídios sobreviveram.

    VIVA O COVID-19 o único que foi capaz de fazer limpar o buzão internamente.

    Vamos torcer para ele acabar com a operação a lá CMTC.

    Fica ai para a reflexão de todos!

    Se o buzão de Sampa não modernizar a operação, ESQUEÇAM.

    SAÚDE A TODOS!

    Att,

    Paulo Gil

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