Coronavírus: Londres adota mais medidas de proteção aos motoristas de ônibus

Motorista Nelson Campos, da Tower Transit, foi infectado pelo coronavírus. Foto: Lucas Cumiskey / Islington Gazette (UK)

Mudança se deve após o registro de 20 mortes causas pelo coronavírus em trabalhadores deste setor. Trabalhadores reivindicam EPIs

WILLIAN MOREIRA / ALEXANDRE PELEGI

A partir da próxima segunda-feira, 20 de abril de 2020, o sistema de transporte por ônibus em Londres, capital da Inglaterra e Reino Unido, colocará em prática novas medidas de proteção aos motoristas de ônibus da cidade.

Os passageiros passarão a embarcar pela porta de trás e não mais pela frente, o que foi sinalizado como uma boa medida pelo Sindicato dos trabalhadores. Também os assentos próximos ao motorista devem permanecer livres de uso, sendo que o local é protegido por uma espécie de placa de acrílico. A mudança acontece após 20 motoristas terem falecido em razão da Covid-19.

Desde o dia 23 de março deste ano, quando medidas de contingenciamento social foram adotadas, o número de passageiros no transporte de Londres caiu 85%, mas o sistema segue operando para permitir o deslocamento de funcionários de serviços essenciais, como da área da saúde.

A prefeitura de Londres pediu ao governo federal que recomende o uso obrigatório de máscaras no transporte público sobre trilhos e nos ônibus como uma ação de prevenção a transmissão. A proposta está em análise.

No sistema metroviário, quatro funcionários perderam a vida pelo mesmo motivo, o coronavírus.

Nesta sexta, 17, o governo britânico contabilizou até aqui mais de 11 mil mortes e 108 mil infectados desde o começo da crise do vírus.

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Oxford Street, em Londres, umas das ruas mais movimentadas da Europa, está praticamente vazia com o fechamento do comércio. Foto: Verônica Kierme / especial para o Diário do Transporte


MOTORISTAS EXIGEM EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL

Um motorista de ônibus que pegou o Covid-19 enquanto trabalhava pediu que todos os trabalhadores do transporte recebessem Equipamentos de Proteção Individual (EPI).

Nelson Campos é motorista da rota 236, de Finsbury Park para Hackney Wick, e apoia a ação de um grupo de sindicalistas que realizou uma vigília em frente à Holloway Bus Garage na quinta-feira, 16, para homenagear dois motoristas que trabalharam lá e morreram com coronavírus.

Os sindicatos estão pedindo agora ao prefeito de Londres, Sadiq Khan, que forneça imediatamente EPIs a todos os trabalhadores do transporte.

Nelson Campos teria participado do protesto se não estivesse acamado. Ele pegou o Covid-19 enquanto trabalhava e tem se ficado isolado em casa nas últimas duas semanas.

Nelson, que trabalha para a Tower Transit, diz que cerca de seis de seus colegas pegaram o vírus na mesma época.

Pelo menos três de seus colegas morreram com o vírus – e Nelson afirma que um motorista desmaiou na garagem antes de ser levado ao hospital.

Em entrevista ao jornal inglês Islington Gazette, Nelson relatou: “Eu tive grandes problemas, meu sobrinho pegou o vírus por minha causa, eu o levei para dentro de casa e esse garoto estava morrendo, tendo espasmos e gritos. Uma ambulância veio e deu a ele oxigênio por uma hora. É horrível. É uma sensação muito ruim quando você pensa que alguém está morrendo em seus braços“.

Nelson disse que seus empregadores estão fazendo o possível para manter os serviços, “porque temos que levar médicos e enfermeiros”. No entanto, o motorista completou: “Acho que deveríamos ter luvas e máscaras – eles poderiam ter evitado isso facilmente. Mesmo álcool gel para as mãos, eles devem fornecer a todos os motoristas talvez um litro por semana”, disse.

Um dos motoristas de ônibus de Holloway que morreu foi Emeka Nyack Ihenacho, 36 anos, cuja mãe disse ao jornal Gazette que “lutaria por funcionários públicos” para que tivessem Equipamentos de Proteção.

Claire Mann, diretora de operações da Transport for London (TfL), afirmou ao Gazette que segurança dos motoristas de ônibus de Londres, que estão ajudando outros trabalhadores a combater o coronavírus, “é nossa prioridade absoluta”.

Também estamos protegendo a equipe em instalações de assistência social com limpeza regular usando fluido antiviral de nível hospitalar e menos mesas e cadeiras nas áreas de descanso para garantir o distanciamento social, além de proporcionar melhores salários por doença, para que as pessoas não tentem trabalhar quando não estão bem”, afirmou.

O conselho mais recente de especialistas é que o EPI não é necessário em ambientes que não sejam de atendimento e pode ser contraproducente. Como isso está sendo constantemente revisado, o prefeito de Londres pediu que analisássemos a disponibilidade de EPI para os trabalhadores do transporte, caso esta indicação mudasse”, concluiu a gestora.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

Willian Moreira, especial para o Diário do Transporte

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