OPINIÃO: Em tempos de crise a melhor solução é Intensificar Transporte Coletivo, e não restringir.

Ônibus urbano em Rio Grande da Serra, uma das sete cidades do ABC

*Roberto Sganzerla -Especialista em Marketing de Transportes e Mobilidade Urbana

 

Penso em escrever este artigo, desde quando ouvi a decisão absurda dos prefeitos do ABC e de cidades de Santa Catarina, em suspender o transporte coletivo na região, como medida de prevenção ao Corona Vírus, mesmo com fortes críticas do Governo Federal incluindo a do Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta que diz que é importante garantir o ir e vir de profissionais de áreas essências.

A guisa de introdução gostaria de dizer que nesta semana que passou me dediquei exaustivamente, juntamente com minhas equipes, a produção de uma série de campanhas informativas, criando um vasto pacote de peças publicitarias personalizadas para várias cidades e regiões metropolitanas, para veiculação dentro dos ônibus, terminais, sites e mídias sociais, lojas de atendimento ao cliente etc..  visando a proporcionar de forma mais didática possível, tendo em vista o nosso público alvo, o máximo de informações sobre a prevenção e sintomas da covid-19 e também promovendo o uso do cartão de transporte ao invés de dinheiro, também como meio de prevenção, bem como a compra de créditos por meio de Apps ao invés de deslocamentos às lojas ou estabelecimentos comercias, também como medidas de prevenção, a semelhança ao que muitas cidades ao redor do mundo estão fazendo (conforme relatório da UITP – MANAGEMENT OF VIRUS OUTBREAKS IN PUBLIC TRANSPORT CASE STUDIES AND PRACTICES AGAINST COVID19 AND ADDITIONAL REFERENCES – LATEST UPDATES (18/03/2020)

Portanto neste fim semana tomei tempo para escrever sobre o tema, e o faço após falar com vários especialistas em transportes que concordam com minha tese de que durante o período de contenção do corona vírus, INTENFICAR o transporte público é a melhor solução, nunca restringi-lo ou interrompe-lo.

Os motivos óbvios da não interrupção, é que mais de 80% das pessoas no Brasil dependem do transporte público para se locomoverem na cidade. Como os profissionais da saúde chegariam aos hospitais se o transporte público estiver interrompido?  Como os pacientes irão se tratar se não tiver transporte público para leva-los ao Hospital ou Posto de Saúde?

Se não tiver transporte coletivo como o trabalhador chegaria a fábrica para produzir álcool gel, mascas, termómetros, respiradores, abastecimentos de alimentos, etc… lembrando que nem todo trabalho dá para se fazer de casa e nem todos tem carro particular para se locomover.

Infelizmente alguns gestores públicos, por não entenderem de mobilidade urbana e serem pressionados muitas vezes por profissionais de comunicação que também não conhecem de transporte de pessoas, confundem o “evitar aglomeração” e “contato próximo com pessoas” com “transporte coletivo” e radicalizam com medidas de restrição ao transporte público, quando a solução está justamente ao contrário.

Também não precisa ser engenheiro de transporte para saber que um ônibus ou terminal fica lotado de pessoas quando há mais demanda do que oferta! Mas se houver mais oferta do que demanda, não haverá aglomeração, em outras palavras, por causa da quarentena e muitos trabalhando em home office, com uma oferta de transporte público mantida ou intensificada, teremos menos pessoas em cada ônibus e consequentemente também nos terminais, portanto a intensificação do transporte publico é melhor solução em tempos de crise.

No estudo da UITP que citei acima, nenhuma das cidade dos 27 países analisados, interrompeu o transporte coletivo por causa do corona vírus, apenas Milão, e por 2 dias apenas.

Um exemplo positivo a ser seguido é do Governo de Estado de SP, onde através da STM – Secretaria dos Transportes Metropolitanos do Estado de São Paulo e a Secretaria Municipal de Mobilidade e Transportes da cidade de São Paulo, anunciou nesta semana um conjunto de medidas, onde a de número 3* diz que os serviços de transporte em toda Região Metropolitana de São Paulo serão disponibilizados na sua capacidade máxima, justamente para evitar aglomeração:

*3) Para evitar a aglomeração de pessoas nos transportes coletivos, os trens e ônibus das regiões metropolitanas do Estado de São Paulo e da cidade e São Paulo serão disponibilizados na sua capacidade máxima

 Com uma oferta maior que a demanda, é evidente que a conta não irá fechar, mas conversando com alguns Secretários de Mobilidade, nesta hora é que os Governos, tanto municipais como estaduais, terão que entrar e fazer a sua parte pagando esta conta, e há múltiplas formas de fazê-lo: isentando impostos, mudando a formulá-la de remuneração de “tarifa” para “km rodado”, implementado subsídios que não haviam, etc…

Portanto em tempos de prevenção ao Corona Vírus, no tocante a Mobilidade Urbana, o certo é manter e intensificar Transporte Coletivo, mas nunca restringi-lo.

Termino com as palavras do Ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta em entrevista coletiva nesta tarde de domingo, 22 de março de 2020, segundo mostrou o Diário do Transporte:

 “Não se deve pensar nas próximas eleições, mas nas próximas gerações… É muito fácil dar ordem de parar, difícil e fazer reativar.”

 

Roberto Sganzerla

Especialista em Marketing de Transportes e Mobilidade Urbana

 Mestrado em Liderança pela Andrews University – Berrien Springs, MI – USA

MBA em Gestão de Negócios e Liderança

Pós-Graduação em Marketing

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Comentários

Comentários

  1. Dô Chiaranda disse:

    EXCELENTE conclusão, lamentável que as autoridades não consigam observar o óbvio dessa questão de mobilidade urbana.

  2. Vilton disse:

    E os motorista e cobradores q se foda nos n temos família e vida … pimenta no c… Dos outros é refresco !!! Opinião

  3. Santos Dumont disse:

    Concordamos em gênero, número e grau com a opinião do especialista. Há uma variedade enorme de atividades que dependem do transporte coletivo, e a tal ponto que, por ocasião de greves da categoria de motoristas, tiram do bolso a quantia para pagar um clandestino, irem na forma de ‘lotada’ de táxi, compartilharem um aplicativo ou mesmo o transporte solidário com vizinhos que tenham carros. Para citar uma categoria: trabalhadores em condomínios. Depende- se deles para manter o asseio e higiene na comunidade, recolher o lixo e prover segurança no entra-e-são de pessoas. E vejam que esses prestadores de serviço trabalham em escolas, mercados, hospitais, e podem vir a engrossar a fila de dispensados e tornar a vida nos centros urbanos um caos impensável.

  4. JOSE LUIZ VILLAR COEDO disse:

    Interromper desse jeito os Transportes Públicos é ridículo! Os Terminais e demais locais de embarque e desembarque ficarão mais lotados… e é aí que a coisa vai ficando mais feia! Varios contatos… varios contagios! RACIONALIZAR… Até entendemos! Agora cortar tudo…Péssima ideia!

  5. Santos Dumont disse:

    Quase 1 ano após, que diria que estaríamos às voltas com essa praga virotica! Mantemos mesma opinião, exceto que privilegiando classe dos trabalhadores no transporte público coletivo de passageiros quanto a vacinação.
    Pessoas com 70 anos ou mais devem se lembrar do serviço de bondes elétricos que havia em alguma capitais, como no Io de Janeiro, e ficamos a refletir como seriam adequados ao nosso tempo atual: simples, arejados e econômico.

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