OPINIÃO: COVID-19 e o transporte público

Publicado em: 20 de março de 2020

Ônibus na cidade de São Paulo. Foto: Alexandre Pelegi

OLMO XAVIER

Em uma visita à Feira de Exposição da Filadélfia em 1876, que comemorava os 100 anos da Declaração de Independência dos Estados Unidos, o Imperador do Brasil, Dom Pedro II, esteve com Alexander Graham Bell, que por sua vez estava na condição de expositor e trazia consigo alguns protótipos que havia desenvolvido. Historiadores, como Laurentino Gomes, autor do livro 1889, atribuem a Dom Pedro II o fato de Graham Bell não ter passado despercebido na prestigiada Feira e isso, contribuiu com o desenrolar dessa história que culminou na invenção do telefone.

De lá até aqui, os então revolucionários cabos submarinos e navios a vapor foram substituídos por meios de comunicação e transporte mais modernos, rápidos e eficientes. Hoje, as fronteiras entre países se diluíram e as milhas náuticas dos oceanos que separam os continentes estão a um clique de smartphone de distância.

Todo esse cenário globalizado faz com que a pandemia provocada pelo coronavírus seja algo diferente de tudo que já experimentamos. Líderes mundiais já atribuem esse momento como o mais difícil da humanidade desde o fim da 2ª Guerra Mundial na década de 1940. O poder de contaminação do vírus e sua dissipação global, têm exigido das nações medidas de proteção austeras e anticapitalistas, que fogem do padrão convencional adotado pela grande maioria dos países. O Brasil, fora algumas assintonias de comando iniciais, busca se adequar a essa realidade e proteger sua população de um mal maior.

É evidente que os serviços públicos essenciais, garantidos na Constituição Brasileira de 1988 como direitos sociais, sofrem um grande impacto nesse processo. Hoje, a população escolar de todos os níveis de ensino, está fora das salas de aulas para evitar a propagação do vírus. Os sistemas de saúde público e privado, têm nesse contexto, o maior desafio de sua história. E os transportes, seja rodoviário, sob trilhos, aéreo ou aquaviário, um dos involuntários vetores de entrega e propagação do vírus, amargam uma queda de demanda sem precedentes em virtude das recomendações à população para evitar os deslocamentos não essenciais.

Não existe nenhum fundamento científico que questione as atitudes tomadas pelas autoridades com relação aos sistemas de transportes. As fronteiras da maioria dos países estão fechadas. Navios estão à deriva sem portos para ancorarem produzindo enredos surreais. Os sistemas de transporte público coletivo têm que se adequar aos esforços a disseminação da doença e a necessidade de seguir transportando pessoas para que, hospitais, farmácias e supermercados, nos assegurem, no mínimo, a condição de atravessar esse momento.

Entretanto, cabe ressaltar, mais uma vez, o descaso, ou pouco caso, sofrido pelos transportes públicos. Todos os dias, ônibus, metrôs e trens urbanos transportam 50 milhões de pessoas, assegurando o direito de ir e vir, fundamental para economia do País e bem estar dos brasileiros. Os ônibus urbanos respondem a 86% desse total e ainda assim, com raras exceções, não contam com qualquer subsídio governamental que contribua com a melhoria e qualidade desse serviço.

Ainda com dados preliminares e certamente subestimados, a NTU – Associação das Empresas de Transporte Públicos, aponta queda de até 50% da demanda nesta primeira semana de paralisação de escolas, universidades e alguns departamentos de serviço público. O fechamento do comércio, bares, restaurantes e academias, anunciado pela maioria dos governadores, irá agravar a situação. Afinal, a recomendação é para que as pessoas não se desloquem. Algumas cidades, como as do ABC Paulista, anunciaram a paralização completa dos serviços como medida de prevenção.

Contudo, até o presente momento, nenhuma ação dos governos nas três esferas federativas foi colocada à mesa para discutir o agravamento da crise financeira da qual o setor já padecia em virtude de uma série de problemas. Ao contrário, já aventam socorro público às companhias aéreas, cujos serviços não têm o caráter de essencialidade dos transportes públicos urbanos.

É triste constatar, que a própria sociedade que, em sua maioria sequer já fez uso de aeronaves para algum deslocamento, aceita com naturalidade a ordem de prioridade dos governos. Também não seria surpresa alguma, um novo pacote de ajuda financeira à indústria automotiva que, devido à crise, certamente reduzirá a comercialização de carros e motos no País.

Sem reduzir a importância desses outros modos de mobilidade, é claro que o transporte público coletivo merece mais atenção e cuidados por parte do poder público. O setor produz mais de meio milhão de empregos diretos no Brasil e movimenta toda uma cadeia produtiva na indústria de fabricação de ônibus, combustíveis, peças e lubrificantes. É o único modo de mobilidade com função estrutural no desenvolvimento das cidades e regiões metropolitanas, por sua característica de vencer longas distâncias com um preço suportável pela população.

A história, desde sempre, mostra que crises são também momentos de oportunidade para o desenvolvimento de novos conceitos, ideias e padrões sociais que, por sua vez, podem vir a contribuir com melhorias na qualidade de vida de homens, mulheres e crianças. Que essa mal vinda pandemia sirva como catalisador de uma tomada de atitude pelos governos locais e federal com relação aos transportes públicos coletivos, na exata proporção de sua importância para as cidades e Nação.

 

Olmo Xavier

Arquiteto e Urbanista

Mestrando do Programa Projeto e Cidade da UFG

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Comentários

  1. Vcm disse:

    Muito parabéns pelo texto amigo Olmo!
    Ótimo ponto de vista, onde mostra o valor do transporte público para a sociedade, onde os governos ,que ao invés de ficar dando privilégios ao setor aéreo ea indústria de automóveis, deveria olhar com mais atenção aos sistemas de transportes públicos,principalmente os sistemas de ônibus!
    Muito bom o ponto de vista do texto!

  2. Santos Dumont disse:

    Sabem qual a melhor forma de subsídio ao transporte essencial? Aquilo que se fazia muitas anos atrás: empresas públicas. Assim era a travessia da baia de Guanabara por barca, ou o transporte urbano em várias capitais (Brasilia resiste com a TCB, embora minguada), ou ainda o transporte por bondes (resiste em Santa Tereza, no Rio de Janeiro) e por ônibus elétricos (os chamados ‘chifrudos’). Então pensamos nós que subsidiar essa atividade (não nos esqueçamos que vários impostos – IPI, por exemplo – estão zerados, e outros, como o ISS são isentos de recolhimento) seria viável apenas com redução de alíquotas sobre insumos, e dos encargos financeiros na aquisição de frotas novas. Quanto aos encargos trabalhistas, não – o motorista é que garante a segurança de quem transporta.

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