Os entusiastas dos transportes, principalmente admiradores de ônibus, alguma vez já se depararam com uma simples pergunta, que resulta em belas histórias como resposta: por quê?
Por que gostar tanto de ônibus? Por que conhecer chassis e carrocerias? Por que usar o transporte público em vez de optar por carro ou moto para se locomover?
São questões que nos levam a reflexões pessoais, mas também sociais e políticas. Portanto, decidi responder, de uma vez por todas, porque gosto tanto de ônibus.
Tudo começou na infância, pois cresci em um bairro chamado Jardim Joaquim Eugênio de Lima, em uma área de Proteção de Mananciais que fica entre Rio Grande da Serra e a Vila de Paranapiacaba, em Santo André, no ABC Paulista.
O local possui poucas residências e, em sua maioria, chácaras. Para sair do bairro, era preciso andar três quilômetros até o ponto de ônibus mais próximo, uma vez que a Estação Campo Grande da CPTM está desativada para o transporte de passageiros.
Por ser um bairro cercado por Mata Atlântica, muitos metros da caminhada até o ponto de ônibus eram feitos em locais completamente ermos e, acredite se quiser, com cobras, aranhas e onças perambulando pela região. Portanto nunca tive permissão dos meus pais para ir até lá sozinha, com razão.
Neste período, estudei em Paranapiacaba e a única forma de ir até a vila era por meio de ônibus escolares. Veículos antigos, como o Caio Vitória, faziam o transporte dos estudantes do bairro até a escola.
Por mais que a gente vivesse aventuras quando os ônibus quebravam e nossa roupa ficasse preta por conta da fumaça que saía dos veículos antigos, era nossa única ligação com o aprendizado e com nossos amigos.
A admiração começou nesse momento, quase que como um agradecimento, mas teve seu auge alguns anos depois: Aos 17 anos, fui morar na área urbana de Santo André e descobri que perto da minha casa passavam mais de 15 linhas de ônibus municipais e intermunicipais.
Assim que cheguei, embarquei em um ônibus para descobrir um dos destinos que eu poderia conhecer por meio de tantas linhas. Pela primeira vez, passei por uma catraca e, por ser estudante, não paguei a passagem.
Foi mágico poder chegar a tantos lugares e, nesse momento, senti a liberdade que tanto queria quando morava em uma área com acesso precário ao transporte. Essa sensação foi trazida por um ônibus.
Desde então, me dispus a conhecer todos os itinerários existentes no meu bairro, saber para onde poderia ir com tantos ônibus perto de mim. Foi quando comecei a me interessar por mobilidade urbana e saber como eram definidos os trajetos.
Sem que pudesse perceber, comecei a ficar curiosa para saber o porquê de estar escrito “Caio” nos bancos e fazer piadas com os amigos dizendo que vou de Mercedes para a faculdade, afinal, é a marca do chassi de alguns dos ônibus que fazem o trajeto.
A cada curiosidade “matada”, uma nova surgia. Então, conheci o jornalista Adamo Bazani, especializado em transportes e mobilidade, admirador e conhecedor de todos os detalhes sobre ônibus. Desde então, o aprendizado não parou, pois passei a trabalhar com o dia a dia da notícia do setor
A cada dia aprendo algo sobre tudo o que envolve o assunto: licitações, mobilidade urbana, contratos, chassis, carrocerias, peças, entre outros detalhes. Tenho a sensação de que uma vida é pouco para saber sobre tudo o que envolve ônibus.
Salvem os ônibus!
Quanto mais conhecimento busco e quanto mais utilizo o transporte coletivo, porém, percebo que o momento é delicado para os ônibus. Com o surgimento dos aplicativos como Uber, 99 e Cabify, os bons e velhos “busões” estão sendo deixados de lado aos poucos.
O “abandono” ocorre em partes pelos passageiros, pois pesquisas mostram queda de demanda em linhas de ônibus de todo o país.
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Por outro lado, porém, é preciso uma resposta mais rápida do poder público para “salvar” esse meio de transporte, junto a inovações propostas pelos empresários.
Certo dia, estava muito atrasada e pensei em me render a um desses aplicativos de transporte. A espera pelo carro era de dez minutos e eu estava no centro de São Paulo.
Poucos segundos depois, decidi fechar o aplicativo e abrir uma ferramenta que mostra o horário de chegada dos ônibus. O tão amado veículo estava lá, pronto para me salvar mais uma vez, passando trinta segundos depois.
O melhor de tudo é que, por estar em uma faixa exclusiva, o ônibus não ficou preso no congestionamento e cheguei ao meu destino muito antes do horário.
Como moradora de Santo André, me pergunto: por que nosso aplicativo que mostra a previsão de chegada dos ônibus não funciona mais? Quando serão implantados novos corredores ou faixas exclusivas?
Notando a importância de políticas públicas em prol da mobilidade urbana para favorecer o coletivo, levar todos aos respectivos destinos de forma rápida e financeiramente acessível, tento exercer meu papel de jornalista na área dos transportes para cobrar medidas como estas não somente no município onde resido, mas em diversas regiões.
Seria um sonho fugir do trânsito em corredores de ônibus e faixas exclusivas de forma eficiente e integrada. Até mesmo, talvez, utilizar aplicativos de ônibus sob demanda, como já foram implantados em algumas regiões do país.
Muitas ações já foram implantadas em diversas cidades brasileiras, mas parecem nunca ser suficientes. Imagino que um dia essas e outras soluções de mobilidade urbana possam se integrar e contribuir para a redução de poluentes, tornar nossa ida ao trabalho mais confortável e rápida, além de proporcionar transporte gratuito ou ao menos a um preço acessível para todos.
Parece uma utopia, mas meu amor por ônibus começou com o sonho de conhecer a cidade, então sei que não faz mal sonhar. É esse desejo de ver o transporte melhorar que me serve de combustível para trabalhar diariamente como jornalista em um site especializado em mobilidade.
Jessica Marques, jornalista formada pela Universidade Metodista de São Paulo. Repórter no Diário do Transporte.
