Sistema deve ser implantado no lugar de viações tradicionais e mesclaria vans e carros com ônibus. Aplicativo diz que gratuidades serão mantidas
ADAMO BAZANI
Colaborou Jessica Marques
Conhecida já no transporte rodoviário, a Buser está cada vez mais próxima de atuar em linhas urbanas.
E desta vez não é só intenção.
O fundador da empresa de tecnologia, Marcelo Abritta, em entrevista exclusiva ao Diário do Transporte disse que duas cidades do Sul do País já estão em conversas com a companhia elaborando um projeto piloto para implantar um modelo de transporte no lugar do sistema tradicional de transportes municipais.
A ideia é oferecer um serviço cuja oferta possa se adequar com mais facilidade à demanda que varia ao longo do dia.
Pelo fato de os estudos ainda estarem em andamento, o empresário não quis adiantar quais serão estas cidades, mas disse se tratar de municípios pequenos cujas concessões já venceram e as operações se dão de forma emergencial.
Os detalhes da operação ainda vão ser definidos, mas um dos modelos estudados é envolver na prestação de serviços vários operadores diferentes como donos de pequenas frotas de ônibus e de proprietários de vans escolares que ficam paradas na maior parte do dia. Até carros de passeio farão parte da rede pelo projeto. Estes veículos pequenos atuariam fora dos horários de pico.
“Vai ter ponto que vai ser atendido por um automóvel até. Em vez de mandar um ônibus lá para o fim da cidade, onde tem três passageiros, sai mais econômico mandar um carro para trazer eles para o centro da cidade. E tem a questão de integrar as vans escolares no sistema coletivo” – explicou.
Com natureza e formas de atuação diferentes do transporte rodoviário, os sistemas urbanos têm características próprias, como a necessidade de uma frequência independentemente de compra antecipada de passagens e a necessidade de garantir gratuidades, muitas das quais determinadas por legislação federal como para idosos com 65 anos ou mais.
Abritta garantiu que o modelo vai atender a todas estas determinações.
O fundador da Buser ainda revelou ao Diário do Transporte que prefeitos de outras cidades têm procurado a empresa que, além da integração entre diferentes operadores deve oferecer com empresas do setor alternativas de pagamentos de tarifas.
Ouça:
Leia na íntegra:
Diário do Transporte: A Buser já tem projetos em andamento para o transporte urbano?
Marcelo Abritta: É isso mesmo. A intenção da Buser é revolucionar o transporte coletivo, assim como os aplicativos já revolucionaram o transporte individual. Da mesma forma que a gente já começou isso e teve sucesso no transporte rodoviário, a gente está dando início a esse projeto-piloto que a gente falou. São duas cidades a princípio, no sul do país. Não está definido se vai ser em só uma delas, nas duas ou eventualmente em algumas outras, que a gente vai fazer a mesma coisa no rodoviário, que é substituir o modelo em que só uma empresa opera um monopólio por uma nuvem de operadores cooperando entre si, sob uma plataforma tecnológica que a gente vai fornecer.
Marcelo Abritta: Essa solução vai evitar ônibus rodando vazio no entre-pico?
Na verdade é uma evolução disso. Se você parar prá pensar, a gente gosta sempre de pensar qual o problema que leva a um comportamento não otimizado em uma empresa de transporte. Por que o ônibus que roda na hora do rush está rodando no horário vazio? Porque só tem um operador autorizado a fazer esse serviço. Se tivesse múltiplos operadores, você teria os ônibus rodando na hora do rush e veículos menores rodando nas horas de menor volume. É o correto. Não faz sentido ter um veículo que caibam 40 pessoas operando com duas ou três dentro. Está todo mundo perdendo: o passageiro paga mais caro, o proprietário do veículo perde dinheiro porque está operando com um veículo não adequado para aquele momento. Então, parte da nossa solução de transporte urbano é fazer uma adaptação melhor do tipo de veículo para o horário. Isso será possível porque em vez de um, terá dez operadores. Aquela van escolar que fez o transporte de um aluno de manhã, depois meio-dia, depois à noite, durante o meio da manhã e da tarde vai estar disponível. Se você a integra na rede de transporte urbano, consegue rodar com um veículo que caibam 10 pessoas, em vez de um que caibam 40. Fica muito claro o benefício que isso gera para o sistema, como um todo.
Diário do Transporte: Esses projetos levam em consideração as diferenças entre transporte urbano e rodoviário, como a necessidade de frequência e comas gratuidades por lei?
Marcelo Abritta: Sim. A frequência está muito vinculada à demanda. Quando se tem uma frequência de oferta muito grande, por exemplo, um ônibus para 40 pessoas ao meio-dia do ponto A ao ponto B, e vão dois passageiros, isso não é frequência, é um erro. Tinha que estar oferecendo um veículo de 10 lugres. É isso o que a gente vai fazer. O sistema vai ter oferta contínua para todos os pontos que são atendidos hoje nas redes dessas cidades que a gente está falando, mas vai ser com veículos diferentes. Vai ter ponto que vai ser atendido por um automóvel até. Em vez de mandar um ônibus lá para o fim da cidade, onde tem três passageiros, sai mais econômico mandar um carro para trazer eles para o centro da cidade. E tem a questão de integrar as vans escolares no sistema coletivo, respeitando as gratuidades e, de forma diversa, como no caso do intermunicipal, a gente encontrou vários prefeitos que queriam ajuda para melhorar o sistema da cidade. Muitas têm no sistema de transporte coletivo já vencida a concessão e o prefeito chegou há pouco tempo, dois anos de gestão, não sabe como funciona o transporte, é a primeira vez quando assume a prefeitura. A gente vem estudando e aprendendo com um pouco da experiência que a gente acumulou no rodoviário e a gente vem percebendo que vai conseguir trazer melhoria. Nosso objetivo é melhorar as coisas. Não faria sentido a gente começar pra tirar o direito de quem tem de uma tarifa mais econômica, estudante que pode pegar o sistema de graça para ir para a escola, idoso, não faria sentido. Isso tudo está sendo considerado.
Adamo Bazani e Jessica Marques, jornalistas especializados em transportes
