ENTREVISTA: Duas cidades do Sul estudam Buser para o transporte urbano

Publicado em: 18 de novembro de 2019

Marcelo Abritta diz que Buser quer revolucionar o transporte coletivo. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte)

Sistema deve ser implantado no lugar de viações tradicionais e mesclaria vans e carros com ônibus. Aplicativo diz que gratuidades serão mantidas

ADAMO BAZANI

Colaborou Jessica Marques

Conhecida já no transporte rodoviário, a Buser está cada vez mais próxima de atuar em linhas urbanas.

E desta vez não é só intenção.

O fundador da empresa de tecnologia, Marcelo Abritta, em entrevista exclusiva ao Diário do Transporte disse que duas cidades do Sul do País já estão em conversas com a companhia elaborando um projeto piloto para implantar um modelo de transporte no lugar do sistema tradicional de transportes municipais.

A ideia é oferecer um serviço cuja oferta possa se adequar com mais facilidade à demanda que varia ao longo do dia.

Pelo fato de os estudos ainda estarem em andamento, o empresário não quis adiantar quais serão estas cidades, mas disse se tratar de municípios pequenos cujas concessões já venceram e as operações se dão de forma emergencial.

Os detalhes da operação ainda vão ser definidos, mas um dos modelos estudados é envolver na prestação de serviços vários operadores diferentes como donos de pequenas frotas de ônibus e de proprietários de vans escolares que ficam paradas na maior parte do dia. Até carros de passeio farão parte da rede pelo projeto. Estes veículos pequenos atuariam fora dos horários de pico.

“Vai ter ponto que vai ser atendido por um automóvel até. Em vez de mandar um ônibus lá para o fim da cidade, onde tem três passageiros, sai mais econômico mandar um carro para trazer eles para o centro da cidade. E tem a questão de integrar as vans escolares no sistema coletivo” – explicou.

Com natureza e formas de atuação diferentes do transporte rodoviário, os sistemas urbanos têm características próprias, como a necessidade de uma frequência independentemente de compra antecipada de passagens e a necessidade de garantir gratuidades, muitas das quais determinadas por legislação federal como para idosos com 65 anos ou mais.

Abritta garantiu que o modelo vai atender a todas estas determinações.

O fundador da Buser ainda revelou ao Diário do Transporte que prefeitos de outras cidades têm procurado a empresa que, além da integração entre diferentes operadores deve oferecer com empresas do setor alternativas de pagamentos de tarifas.

Ouça:

Leia na íntegra:

Diário do Transporte: A Buser já tem projetos em andamento para o transporte urbano?

Marcelo Abritta: É isso mesmo. A intenção da Buser é revolucionar o transporte coletivo, assim como os aplicativos já revolucionaram o transporte individual. Da mesma forma que a gente já começou isso e teve sucesso no transporte rodoviário, a gente está dando início a esse projeto-piloto que a gente falou. São duas cidades a princípio, no sul do país. Não está definido se vai ser em só uma delas, nas duas ou eventualmente em algumas outras, que a gente vai fazer a mesma coisa no rodoviário, que é substituir o modelo em que só uma empresa opera um monopólio por uma nuvem de operadores cooperando entre si, sob uma plataforma tecnológica que a gente vai fornecer.

Marcelo Abritta: Essa solução vai evitar ônibus rodando vazio no entre-pico?

Na verdade é uma evolução disso. Se você parar prá pensar, a gente gosta sempre de pensar qual o problema que leva a um comportamento não otimizado em uma empresa de transporte. Por que o ônibus que roda na hora do rush está rodando no horário vazio? Porque só tem um operador autorizado a fazer esse serviço. Se tivesse múltiplos operadores, você teria os ônibus rodando na hora do rush e veículos menores rodando nas horas de menor volume. É o correto. Não faz sentido ter um veículo que caibam 40 pessoas operando com duas ou três dentro. Está todo mundo perdendo: o passageiro paga mais caro, o proprietário do veículo perde dinheiro porque está operando com um veículo não adequado para aquele momento. Então, parte da nossa solução de transporte urbano é fazer uma adaptação melhor do tipo de veículo para o horário. Isso será possível porque em vez de um, terá dez operadores. Aquela van escolar que fez o transporte de um aluno de manhã, depois meio-dia, depois à noite, durante o meio da manhã e da tarde vai estar disponível. Se você a integra na rede de transporte urbano, consegue rodar com um veículo que caibam 10 pessoas, em vez de um que caibam 40. Fica muito claro o benefício que isso gera para o sistema, como um todo.

Diário do Transporte: Esses projetos levam em consideração as diferenças entre transporte urbano e rodoviário, como a necessidade de frequência e comas gratuidades por lei?

Marcelo Abritta: Sim. A frequência está muito vinculada à demanda. Quando se tem uma frequência de oferta muito grande, por exemplo, um ônibus para 40 pessoas ao meio-dia do ponto A ao ponto B, e vão dois passageiros, isso não é frequência, é um erro. Tinha que estar oferecendo um veículo de 10 lugres. É isso o que a gente vai fazer. O sistema vai ter oferta contínua para todos os pontos que são atendidos hoje nas redes dessas cidades que a gente está falando, mas vai ser com veículos diferentes. Vai ter ponto que vai ser atendido por um automóvel até. Em vez de mandar um ônibus lá para o fim da cidade, onde tem três passageiros, sai mais econômico mandar um carro para trazer eles para o centro da cidade. E tem a questão de integrar as vans escolares no sistema coletivo, respeitando as gratuidades e, de forma diversa, como no caso do intermunicipal, a gente encontrou vários prefeitos que queriam ajuda para melhorar o sistema da cidade. Muitas têm no sistema de transporte coletivo já vencida a concessão e o prefeito chegou há pouco tempo, dois anos de gestão, não sabe como funciona o transporte, é a primeira vez quando assume a prefeitura. A gente vem estudando e aprendendo com um pouco da experiência que a gente acumulou no rodoviário e a gente vem percebendo que vai conseguir trazer melhoria. Nosso objetivo é melhorar as coisas. Não faria sentido a gente começar pra tirar o direito de quem tem de uma tarifa mais econômica, estudante que pode pegar o sistema de graça para ir para a escola, idoso, não faria sentido. Isso tudo está sendo considerado.

Adamo Bazani e Jessica Marques, jornalistas especializados em transportes

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Comentários

  1. João Luís Garcia disse:

    Em um País como o Brasil aonde os contratos de concessões não são respeitados e o judiciário trabalha a serviço da concessão de liminares, nada mais assusta ao setor quando vemos notícias como essa, infelizmente.
    Falta coragem e vontade política para acabar com esses ditos “ modais “ que nada mais são do que a legalização do transporte “ clandestino “

    1. vagligeiro disse:

      Toda vez que leio “mimimi transporte clandestino”, só me lembro da TCB Trans Brasil, do ROnan Maria Pinto, do Acir Gurgacz e do fato do Nenê Constantino ter sido culpado por ter matado uma liderança comunitária.

  2. vagligeirov disse:

    Vou ser bem sincero: torço um pouco o nariz para isso. Além da briga grande, existe porquês de a operação de transporte público ser feito apenas com veículos concessionados, sem variação de frota. Falamos de depreciação, de manutenção (custos e necessidade), da questão

    A ideia é interessante no conceito e na verdade é algo que algumas concessionárias atuais tem testado (e tem sido noticiado por aqui) – usando serviços por demanda e chamada eletrônica (como o uBus). Mas no entanto, não é trocando um ônibus por um automóvel nos horários de vale que vai resolver a falta de eficiência.

  3. Alfredo disse:

    Uma completa salada de idéias sem sentido, quem garante que um operador vai transportar em um carro 4 pessoas gratuitamente e como fará se for um cadeirante que chegou naquele instante? Vai embarcar numa van escolar sem elevador? E na saída de uma faculdade, qual o veículo adequado? BUSER é tão irregular quanto os perueiros dos anos 90, qual país trocou o transporte de massa por aplicativo? Nem merece atenção essa idéia

  4. Mário Brito disse:

    A tecnologia aplicada a
    mobilidade urbana é uma tendência, mas
    as ideias mais desruptivas correm o risco de pular etapas e prejudicar um segmento já tão fragilizado.
    Nem tudo se aplica, e pior a falta de uma política nacional que trate seriamente os benefícios gratuidades logo mais a
    Sustentabilidade deste serviço será irreversível.
    Estamos a beira do abismo de norte sul do Brasil, assim este oportunismos dos milagres me deixa muito preocupado!

    1. Eloy Reis disse:

      Trata-se de tentativa de desregulamentação do serviço, que se efetivada, levará aos caos o transporte coletivo nas Cidades brasileiras.

    2. Roberto disse:

      Excelente leitura do contexto atual.

  5. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Eureka !

    UUUUUUUUUUUUUUUUUuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu

    Morte aos Jurássicos.

    Até que enfim apareceu que pensa.

    É simples, ou muda o morre.

    Prefeitos inteligentes já sacaram que se não mudarem morrem.

    Claro que em grandes capitais o dinheiro do contribuinte garante a farra do Jurassismo.

    Só discordo do Sr. Marcelo Abritta, em uma questão; quando ele diz:

    “Não faz sentido ter um veículo que caibam 40 pessoas operando com duas ou três dentro. Está todo mundo perdendo: o passageiro paga mais caro, o proprietário do veículo perde dinheiro porque está operando com um veículo não adequado para aquele momento.”

    No sistema Jurássico de licitação de buzaõ; Tubarão nunca perdeu, perde ou perderá dinheiro com buzão batendo lata, seja micro, padron ou articuladinho trucadinhao, porque esse lucro esta nas 9000 páginas e é pago com o dinheiro do contribuinte.

    E tem mais buzão roda vazio na hora de pico por causa da incompetência operacional Jurássica; mas claro que atrelada a altíssima capacidade financeira marinha; que nunca perdeu, perde ou perderá dinheiro; até na bateção de lata.

    Mais é isso ai Sr. Marcelo Arbitta ajude o BarsiLei a sair do Jurassismo.

    Sugestão, contrate uns Pós Doc´s em matemática para fazer os itinerários retos, eficientes e eficazes, pois assim será fácil deixar o carro em casa.

    Mas no 20/20 e demais problemas crônicos ninguém adotará o buzão mesmo.

    É BarsiLei, continua dormindo e deitado em berço esplendido; porque tem muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiita gente inteligente e muito bem acorda que trarão soluções para extirpar os Jurássicos.

    Que ótimo, a solução chega e não depende da vontade de ninguém nem dos Jurássicos.

    BUSER o próximo foco e cliente será área 5 do ABC.

    É isso ai; acelllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllllera BUSER.

    Att,

    Paulo Gil

  6. Alfredo disse:

    Um completo absurdo essa idéia, o aplicativo só quer saber de lucrar, vai manter as gratuidades que oneram o transporte público em várias cidades, obrigando as prefeituras a bancarem parte do contrato de serviços? Parece que o foco é se livrar das obrigações trabalhistas e dos sindicatos, precisamos de infraestrutura e veículos modernos, planejamento e prioridade para o transporte coletivo, o resto é balela

  7. Marcelo MS disse:

    Duas fortes candidatas a virarem novas “Ciudad Del Este” na mobilidade urbana, quem conhece sabe o que estou dizendo.

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