HISTÓRIA: O encontro com um dos principais cenários da luta pelos direitos civis

Publicado em: 27 de outubro de 2019

O ônibus fabricado pela GM em 1948, restaurado, é agora símbolo da luta por uma sociedade mais justa.

Empresário de ônibus e colecionador, Júlio Cézar Diniz, da empresa Rouxinol, de Minas Gerais, esteve no Museu Henry Ford e viu de perto o veículo onde a humilde costureira, Rosa Parks, em 1º de dezembro de 1955, com uma atitude de coragem, deu início a um dos maiores movimentos contra a discriminação

ADAMO BAZANI

Ir ao Museu Henry Ford de Inovação, em Michigan, nos Estados Unidos, é uma oportunidade não apenas de ver de perto a evolução da máquina, mas da própria humanidade.

O empresário de ônibus, Júlio Cézar Diniz, da Rouxinol, de Minais Gerais, que também é colecionador de veículos históricos, esteve neste mês de outubro de 2019 no local e compartilha com os leitores do Diário do Transporte uma emoção especial ao ver uma peça única no mundo, que foi o palco de uma das principais páginas da história da luta pelos direitos civis: o “ônibus de Rosa Parks”, um modelo da GM – General Motors, fabricado em 1948.

Este veículo resistiu ao tempo assim como a luta de Rosa Parks

Quem diria que um ônibus seria cenário de um fato capaz de mobilizar o mundo? Nas pesquisas sobre os ônibus, seja aqui no Brasil ou lá fora, é possível perceber que a história deste veículo, muitas vezes tão criticado, é o retrato do desenvolvimento das pessoas: algumas anônimas, algumas bastante simples, algumas que se transformaram em referência.

Rosa Parks, apesar de sua importância, nem sempre é o nome mais lembrado. Mais fácil é se recordar de Martim Luther King. Os dois se cruzaram justamente devido a um episódio envolvendo um ônibus, na luta pelos direitos civis e contra as desigualdades. Juntos contribuíram para a evolução da vida em sociedade no Ocidente, muito embora, há ainda muito a ser feito.

Nos anos de 1950, o racismo no mundo era explícito. A segregação, legitimada. A discriminação, sinal de status para alguns. Neste clima, vivia a costureira Rosa Parks, 42 anos, moradora de Montgomery, no Alabama. Em 1955, os ônibus da pequena cidade americana tinham lugares separados para brancos e negros, com preferência para os brancos.

O ônibus, velho, estava lotado e Rosa se negou a dar o lugar dela para um passageiro branco que acabara de entrar. O motorista advertiu de que isso poderia levá-la à polícia, mas ela se manteve firme. Pressionado pelos passageiros da “ala branca do ônibus”, o motorista teve de chamar o policiamento.

O ato levou Rosa à justiça e chamou atenção da comunidade local. No dia do julgamento, o Conselho Feminino do Alabama decidiu realizar um boicote ao transporte público, no Estado, que durou 381 dias. O protesto pretendia mostrar que o serviço público deveria ser um direito de todos, brancos e negros. Rosa perdeu a batalha judicial neste primeiro momento. Revoltada, a população negra criou uma associação de lutas pelos direitos civis, a MIA – Montgomery Improvement Association.  Foi eleito para presidente da Associação, o recém-chegado a cidade, Pastor Martin Luther King. Nascia ali um líder.

A eloquência e o desejo de justiça sem violência eram marcas de Luther King. Já em seu primeiro discurso, o pastor dizia: “Quero assegurar a todos que trabalharemos com vontade e determinação para fazer prevalecer a justiça nos ônibus da cidade. Não estamos errados. Se estivermos errados, a Suprema Corte desta Nação está errada. Se estivermos errados, a Constituição dos Estados Unidos está errada. Se estivermos errados, Deus Todo-Poderoso está errado.”

O discurso comoveu a multidão em frente de uma Igreja Batista e marcaria o início de uma luta de dor, sofrimento e superação. O boicote aos ônibus que só deveria ter ocorrido no dia do julgamento de Rosa se prolongou.

Como reação, a prefeitura de Montgomery usou lei de 1921 que combatia qualquer tipo de boicote a negócios lícitos. 80 pessoas foram indiciadas. Entre elas, o pastor que teve de pagar U$ 550 de multa para não ser preso. Outros ativistas, como o pastor Ralph Abernathy e o líder negro ED Nixon também sofreram. Este, assim como Luther King, teve sua casa incendida.

Nada disso os fez desistir. O que era uma questão local ganhava destaque internacional. O boicote aos ônibus continuava e lideranças nacionais de luta pelos direitos civis, Bayard Rustin e Glenn Smiley, se uniram à ideia. Mais de 42 mil negros entraram nesta luta.

Os taxistas negros implantaram um sistema de carona para que os apoiadores do boicote pudessem se deslocar. Os motoristas – mais de 300 – foram reprimidos. Alguns tiveram a permissão de trabalho cassada, outros foram presos. Mas Luther King, milhares de anônimos, inclusive Rosa, na cadeia ainda, não se rendiam. Os ônibus de Montgomery circulavam vazios, só com os brancos, insuficientes para sustentar o serviço.

Após intensa luta, em 5 de junho de 1956, a Corte Federal dos Estados Unidos, reconhece que a segregação nos transportes públicos era ilegal. A distinção continuou por mais alguns meses por causa de uma apelação, até que em 13 de novembro do mesmo ano, a Suprema Corte do País tem o mesmo entendimento:  Vitória para os direitos iguais.

Um dos momentos mais marcantes na vida de Martin Luther King foi dia 21 de dezembro de 1956, pouco mais de um mês do posicionamento da Suprema Corte. Um dia antes, após 381 dias de boicote, o protesto teve fim, e Luther King e o colega pastor Ralph Abernathy entraram num ônibus, em Montgomery.

Rosa estava ao lado

O fim do boicote aos ônibus foi o sinal concreto de que, naquele momento, os que luravam contra a exclusão social tinham conseguido uma das mais importantes vitórias da história

Apesar da vitória naquela batalha, a luta contra o racismo, pela igualdade e pelos direitos civis, continua. A passageira de ônibus Rosa Parks, cuja determinação mobilizou o mundo, pressionada e sem emprego, teve de se mudar para Detroit.

O episódio traz a certeza de que a história do transporte público não se conta a partir de marcas e modelos de ônibus, mas de gente como Rosa Parks.

Para Júlio Cézar Diniz, estar bem próximo deste veículo, foi um momento sem igual.

“Nós tentamos também resgatar veículos que foram importantes para a história dos transportes no Brasil. Essa visita nos motivou ainda mais a tentar fazer de alguma maneira algo que as pessoas vejam e sintam a mesma emoção que senti ao entrar neste ônibus, conhecer sua história e saber que ali dentro, naquele banco, uma pessoa foi tão importante para a humanidade. É inigualável, é difícil colocar em palavras, mas voltei mais rico dessa viagem” – relata Júlio Cézar que faz questão de enfatizar que no local, não há somente um museu de automóveis. Trata-se de um complexo com museu, vilas, reproduções de casas de nomes notáveis em diferentes áreas do conhecimento, com a recepção de funcionários trajados tipicamente como nos anos de 1920 e possibilidade de traslados  com veículos de época.

Outros veículos históricos de transportes coletivos de diferentes épocas

ALGUNS DOS VEÍCULOS DE TRASPORTES COLETIVOS RESTAURADOS POR JÚLIO CEZAR, EM MINAS GERAIS

Ciferal Papo Amarelo em estrada mineira

Ciferal Rodonave desfila entre Belho Horizonte e Patos de Minas

Ciferal Rodonave

Ciferal Papo Amarelo, Ciferal Rodonave e Monobloco O-355

Monobloco O-355

Monobloco O-355, Ciferal Rodonoave sobre chassi Mercedes-Benz O-362 e Ciferal Papo Amarelo

Estes ônibus foram destaques no evento Confraria do Ônibus, que teve cobertura do Diário do Transporte em 2017:

Confraria do Ônibus: Histórias humanas por meio das máquinas

A HISTÓRIA DA HISTÓRIA:

Foram cerca de 30 anos ao relento desafiando o tempo

Em sua página na internet, o museu conta das dificuldades para primeiro provar que o ônibus, que operou até o início dos anos 1970, era mesmo o do episódio com Rosa Parks. Depois, a luta foi arrematá-lo, num disputadíssimo leilão, cujo lance inicial era de US$ 50 mil, mas o valor de arremate foi de US$ 492 mil.

Logo após operar em linhas, o veículo foi adquirido por um morador de Montgomery, Roy H. Summerford, que parece não ter se importado muito com a história do ônibus: tirou os bancos e transformou o coletivo aposentado num grande depósito de madeira e ferramentas.

Primeiro comprador não se importou muito com a história e transformou o ônibus em um grande depósito de madeira re ferramentas

O veículo passou por quase 30 anos ao relento e sua restauração contou com até com fundos federais, que possibilitaram US$ 205 mil.

Confira o relato:

O número de identificação do ônibus não estava registrado em nenhum documento oficial quando Rosa Parks foi presa; portanto, anos depois, muitos museus e organizações estavam procurando o ônibus, mas ninguém sabia ao certo qual ônibus era. Quando o ônibus 2857 foi retirado no início dos anos 70, Roy H. Summerford, de Montgomery, o comprou. Na época, os funcionários da empresa disseram a ele que era o ônibus da Rosa Parks. Summerford e seus descendentes mantinham o ônibus em um campo e o usavam para armazenar madeira e ferramentas. Quando Summerford faleceu, o ônibus se tornou propriedade de sua filha e genro, Vivian e Donnie Williams. Embora os Williams soubessem que isso havia sido identificado como o ônibus Rosa Parks, eles não tinham documentos para provar isso.

Robert Lifson, presidente da Mastronet, uma casa de leilões na Internet, decidiu que queria leiloar o ônibus para o Sr. e a Sra. Williams. Ele começou a procurar documentos autenticando o ônibus – e encontrou um.

O gerente da estação de ônibus de Montgomery, Charles H. Cummings, mantinha uma página de recortes de artigos de jornal durante o boicote aos ônibus de Montgomery entre 1955 e 1956. Ao lado de artigos que descrevem a prisão de Rosa Parks, ele escreveu “# 2857” e “Blake / # 2857”. James Blake era o motorista do ônibus que prendeu Rosa Parks. O filho e a esposa do Sr. Cummings, agora falecido, confirmam que ele anotou o número do ônibus porque sentiu que os eventos eram muito importantes.

Frequentemente, como neste caso, a verdade histórica não é registrada oficialmente, mas é transmitida em memórias particulares e na tradição oral.

Em setembro de 2001, um artigo no Wall Street Journal anunciou que o ônibus Rosa Parks seria leiloado on-line em outubro, e imediatamente começamos a pesquisar essa oportunidade.

Conversamos com pessoas envolvidas nos eventos originais de 1955, com quem planejou outras exibições de museus e com historiadores. Um examinador forense de documentos foi contratado para verificar se a página de recados era autêntica. Um conservador do museu foi a Montgomery para examinar pessoalmente o ônibus.

Convencidos de que esse era o ônibus da Rosa Parks, decidimos dar um lance no ônibus no leilão da Internet.

A licitação começou em US $ 50.000 em 25 de outubro de 2001 e foi até as 02:00 da manhã seguinte. Nós perseveramos, com nossa equipe oferecendo US $ 492.000 para superar os que queriam o ônibus, incluindo a Smithsonian Institution e a cidade de Denver. Ao mesmo tempo, nossa equipe também comprou o álbum de recortes e um uniforme de motorista da Montgomery City Bus Lines.

Em seguida veio a restauração. Depois de ficar sem proteção em um campo por 30 anos, não é de surpreender que o ônibus Rosa Parks precise de uma quantidade substancial de trabalho. Seus assentos e o motor foram removidos, muitas janelas foram quebradas, o metal havia enferrujado e a pintura em cal, branco e dourado era uma mera sombra de seu antigo eu.

Nossa experiente equipe de conservação examinou cuidadosamente o veículo e consultou vários especialistas. Três empresas interessadas fizeram um lance para o extenso trabalho de restauração e, finalmente, a MSX International, uma empresa de engenharia e serviços técnicos automotivos com sede em Southfield, Michigan, foi selecionada para executar o trabalho a um custo de mais de US $ 300.000.

Os funcionários do Museum e do MSX pesquisaram todos os detalhes do ônibus para que a restauração fosse realmente autêntica. O material original foi reutilizado sempre que possível e peças originais de ônibus GM idênticos de 1948 foram usadas quando necessário. Nosso objetivo era restaurar o ônibus à sua condição em 1955 – um ônibus de transporte urbano de sete anos de idade.

A restauração estava se tornando difícil e cara. Felizmente, o governo federal interveio para ajudar a cobrir o custo do projeto.

Em setembro de 2002, o Comitê de Artes e Humanidades do Presidente anunciou com entusiasmo: “O ônibus no qual Rosa Parks ajudou a inaugurar o movimento pelos direitos civis será restaurado em Dearborn, Michigan, pelo Henry Ford Museum e pelo Greenfield Village”. O projeto de ônibus Rosa Parks recebeu US $ 205.000 em financiamento através do programa Save America’s Treasures.

“Essas doações da Save America’s Treasures ajudam a garantir que a inestimável herança cultural do país seja repassada para as futuras gerações de americanos nos próximos anos. De monumentos a manuscritos, as ricas e variadas histórias da democracia americana estão sendo preservadas e contadas ”, disse Adair Margo, então presidente do comitê do presidente.

Os critérios de seleção para o programa de subsídios competitivos exigiam que cada projeto fosse de importância nacional, demonstrasse uma necessidade urgente de preservação, tivesse um benefício educacional ou outro benefício público e demonstrasse a provável disponibilidade de fundos correspondentes não federais. O ônibus Rosa Parks é qualificado em todos os aspectos.

O ônibus restaurado foi exibido pela primeira vez no programa “Celebrate Black History” de Henry Ford, que começou em 1º de fevereiro de 2003, e foi um ponto focal das comemorações da vida e do legado de Rosa Parks quando ela faleceu em 2005, bem como em seu 100 º aniversário em 2013, está agora como o artefato auge em nossa Com liberdade e justiça para todas exposições.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Comentários

  1. Evaristo H, Ferreira disse:

    Mais uma excelente matéria. Obrigado Sr. Julio Cesar Diniz. Obrigado Adamo.
    Fiquei um pouco mais rico em cultura através da leitura desta matéria.

  2. Rodrigo Zika! disse:

    Muito bacana a historia e as fotos.

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