Pesquisa aponta que poluição produzida por tráfego de veículos compromete vida de fetos

Publicado em: 17 de setembro de 2019

Estudo de universidade belga encontrou partículas de poluição do ar na parte fetal das placentas

ALEXANDRE PELEGI

Uma pesquisa da Universidade de Hasselt, na Bélgica, traz um alerta para os efeitos da poluição do ar na vida dos futuros bebês.

Segundo matéria do jornal inglês The Guardian, o estudo encontrou partículas de poluição do ar na parte fetal das placentas, indicando que os bebês ainda não nascidos estão diretamente expostos ao carbono negro produzido pelo tráfego de veículos e pela queima de combustível.

A pesquisa é o primeiro estudo a mostrar que a barreira placentária pode ser penetrada por partículas inaladas pela mãe“, descreve a matéria do jornal inglês. O estudo encontrou milhares de pequenas partículas por milímetro cúbico de tecido em todas as placentas analisadas.

Médicos já vêm alertando que os danos causados pela poluição do ar em bebês por nascer podem se tornar uma catástrofe global para a saúde, comprometendo as próximas gerações.

A ligação entre a exposição ao ar sujo e o aumento de abortos, nascimentos prematuros e baixo peso ao nascer está bem estabelecida, segundo o jornal inglês. A pesquisa da universidade belga sugere, no entanto, que as próprias partículas podem ser a causa, não apenas a resposta inflamatória que a poluição produz nas mães.

O dano ao feto tem consequências ao longo da vida, afirma o professor Tim Nawrot, da Universidade de Hasselt, que liderou o estudo. “Esse é o período mais vulnerável da vida. Todos os sistemas orgânicos estão em desenvolvimento. Para a proteção das gerações futuras, temos que reduzir a exposição”, disse o professor.

Apesar de afirmar que os governos têm a responsabilidade de reduzir a poluição do ar, o professor alerta às pessoas para que evitem ruas movimentadas sempre que possível.

Uma análise global abrangente concluiu que a poluição do ar pode estar danificando todos os órgãos e praticamente todas as células do corpo humano. Nanopartículas foram encontradas atravessando a barreira hematoencefálica e bilhões delas foram descobertas no coração de jovens moradores da cidade.

Embora a poluição do ar esteja diminuindo em alguns países, as evidências de danos causados por níveis baixos de poluição estão aumentando rapidamente, sendo que 90% da população mundial vive em locais onde a poluição do ar está acima das diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS).

A pesquisa, publicada na revista Nature Communications, examinou 25 placentas de mulheres não fumantes na cidade de Hasselt. A cidade belga possui níveis de poluição por partículas bem abaixo do limite da União Europeia, embora acima do limite da OMS. Os pesquisadores usaram uma técnica a laser para detectar as partículas de carbono preto, que têm uma impressão digital leve e única.

Em cada caso, foram encontradas nanopartículas no lado fetal da placenta e o número correlacionado com os níveis de poluição do ar experimentados pelas mães. Havia uma média de 20.000 nanopartículas por milímetro cúbico nas placentas de mães que moravam perto das vias principais. Para as moradoras mais distantes, a média foi de 10.000 por milímetro cúbico.

A detecção das partículas no lado fetal da barreira placentária significa que é muito provável que os fetos tenham sido expostos, disse Nawrot. O trabalho de análise de partículas no sangue fetal está em andamento, assim como a pesquisa para verificar se as partículas causam danos ao DNA.

A equipe também encontrou partículas de carbono preto na urina de crianças em idade escolar. O estudo, publicado em 2017, encontrou uma média de 10 milhões de partículas por mililitro em centenas de crianças de nove a 12 anos testadas. “Isso mostra que há translocação de partículas dos pulmões para todos os sistemas orgânicos“, disse Nawrot.

É realmente difícil dar conselhos práticos às pessoas, porque todo mundo precisa respirar“, disse ele. “Mas o que as pessoas podem fazer é evitar o máximo possível de estradas movimentadas. Pode haver níveis muito altos ao lado de estradas movimentadas, mas a poucos metros de distância pode ser mais baixo.”

O caso brasileiro é preocupante diante desses resultados. Em primeiro lugar porque, como alertam especialistas da área ambiental, os Padrões Nacionais de Qualidade do Ar (PQArs), que vigoram até hoje no Brasil, estão extremamente defasados, e não guardam mais qualquer correlação com as referências científicas atuais de proteção à saúde pública definidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em segundo lugar, programas de inspeção veicular, apesar de definidos por lei, até agora não saíram do papel, e as propostas de substituição de ônibus a diesel por tecnologias limpas enfrenta ainda forte resistência pelo lado do custo.

Por mais que se demonstre que o custo para a saúde pública é altíssimo e, portanto, qualquer investimento na substituição da frota poluente por veículos verdes valeria a pena, nada avança pelo lado das políticas públicas. A começar da resistência do poder público em implementar redes de corredores de transporte público de baixo potencial poluidor.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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