O que há de alternativas para modernizar o atendimento pelo transporte coletivo?

Publicado em: 23 de agosto de 2019

Representantes de empresas de serviços tecnológicos debateram como inovações podem evitar queda no número de passageiros. Foto: Adamo Bazani (Diário do Transporte) – Clique para ampliar

Empresas de ônibus alegam queda no número de passageiros. Transporte sob demanda, fidelização dos passageiros e facilidades de pagamento de tarifa estão entre as soluções que já são realidade

ADAMO BAZANI

Cada ano que passa, mais passageiros deixam os sistemas de ônibus em todo o País e, para piorar, grande parte destes usuários não vai para redes metroferroviárias, já que a expansão dos trilhos no Brasil ocorre a passos lentos.

A migração tem sido, na maior parte das vezes, para o transporte individual, seja para motos e carros próprios ou para aplicativos.

Dados revelados nesta terça-feira, 20 de agosto de 2019, pela NTU, associação que reúne mais de 500 viações em todo o Brasil, mostram que somente de abril de 2018 para abril de 2019, 12,5 milhões de pessoas deixaram de andar de ônibus no Brasil.

O número foi anunciado no Seminário Nacional da entidade, que ocorreu em Brasília nestes dias 20 e 21 de agosto, com cobertura do Diário do Transporte.

Relembre:

https://diariodotransporte.com.br/2019/08/20/empresas-de-onibus-perderam-125-milhoes-de-passageiros-em-um-ano-no-brasil-diz-anuario-da-ntu/

O evento teve como tema principal a inovação e tecnologia, que podem oferecer alternativas para melhorar os serviços e reverter ou, ao menos, estagnar esta perda de passageiros.

Mas é possível pensar em inovação e mudança em um setor que é altamente regulado? A regulamentação existe por se trata de um tipo de serviço concedido e de interesse social, não cabendo o conceito de livre mercado que, se ocorresse pura e simplesmente poderia resultar em excesso de ônibus onde tem demanda e lucro e ausência de atendimento onde não há interesse econômico, mas que existe a necessidade social da oferta de transporte, principalmente e regiões mais periféricas, com perfil mais carente do básico.

Entretanto, apesar do que alguns empresários consideram “amarras da legislação”, em vez de só reclamar, é possível achar possibilidades.

Um dos painéis mostrou uma série de serviços que já são reais, que estão no mercado, e que podem melhorar o atendimento das empresas de ônibus e convencer as pessoas a ficarem e até mesmo retornarem aos transportes coletivos.

Apesar de coletivo, o atendimento pelo transporte deve ser cada vez mais pessoal, ou seja, próximo das pessoas.

Não existe mais a lógica de colocar ônibus nas ruas e pensar que só por isso as pessoas vão utilizá-los.

Uma das “pedras no sapato” dos empresários hoje têm sido os aplicativos de transporte sob demanda, como Uber, 99, Cabify, entre outros.

Os donos de empresas de ônibus dizem que estes serviços têm “roubado” o passageiro que mais dá lucro: o pagante e o que anda pouco, justamente o que está em moda de se chamar “first mile” ou “last mile”.

Mas também de olho neste passageiro, empresas de ônibus, em parceria com o poder concedente, já objetivam o transporte sob demanda.

Na prática, comercialmente um sistema já têm vans que são solicitadas como se fosse um carro de Uber. É o CityBus 2.0 de Goiânia, sob a operação da concessionária HP.

Na apresentação, o diretor da HP Transportes, Hugo Santana, disse que desde o início da fase de testes, em 11 de fevereiro de 2019, já são 50 mil usuários cadastrados. A avaliação pelo próprio aplicativo é ótima e o tempo médio de permanência nas vans é de 9,5 minutos.

Ainda segundo Santana, deste total de demanda, 85% vieram do transporte individual, sendo 62% de táxis e carros de aplicativo e 18% do carro próprio.

De acordo com o levantamento, 15% dos passageiros do CityBus 2.0 vieram do ônibus convencional, 3% se deslocavam somente a pé, 2% de bicicleta e 1% usava motos antes.

Outra inciativa pensada para atrair passageiros para o deslocamento coletivo e que acaba fazendo frente com os aplicativos de transporte individual, é o UBus, com origem em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, onde as vans com ar-condicionado, banco de couro, carregadores de celulares e entretimento a bordo também são solicitadas pelo passageiro por meio de um aplicativo.

A exemplo de Goiânia, o serviço em São Bernardo do Campo também recebe anuência do poder público, com operação da concessionária de linhas de ônibus da cidade, a SBCTrans.

A diretora da SBCTrans, Milena Braga Romano, explicou que o sistema UBus pode ser implantado em outras cidades, mas com a operação das empresas concessionárias.

O UBus pode ter três modelos de serviços:

– Linha: as rotas são flexíveis de acordo com a demanda, com a solicitação individual de cada passageiro. Estas solicitações em regiões próximas formam a linha que a van irá atender.

– Fretado: quando a solicitação é feita por um grupo de pessoas em comum. Entretanto, o pagamento pode ser individual. No aplicativo, é possível fazer um grupo de passageiros para festas e eventos, por exemplo, mas cada um pagando sua passagem.

– Vip: essa modalidade faz atendimento porta a porta, como se fosse um Uber mesmo, mas com vans. Nas demais modalidades, são criados pontos de embarque e desembarque virtuais próximos dos locais de origem e destino.

FIDELIZAÇÃO E INCENTIVO AO PASSAGEIRO:

Outra lição que merece ser melhor aprendida pelas empresas de ônibus é a criação de incentivos para fidelizar os passageiros.

Para a pessoa chamar um carro de aplicativo, financiar seu veículo próprio ou encontrar outras formas de se deslocar está cada vez mais fácil.

Se, por um lado, é bom para cada indivíduo ter mais opções e liberdade de escolha, diversas cidades do mundo já têm comprovado que essa escolha massiva pelo transporte individual, não tem feito bem à coletividade. As áreas urbanas estão cada vez mais inchadas e poluídas e, é consenso que a melhoria na vida das cidades passa por um reordenamento das ofertas de renda e moradia (as pessoas devem morar o mais próximo possível de onde trabalham e estudam) e também pela ampliação do transporte coletivo de qualidade.

Mas se as pessoas não forem incentivadas a ficar nos sistemas de transportes públicos, elas vão embora, como tem ocorrido.

É certo que o maior incentivo é a qualidade e rapidez dos serviços, o que requer investimentos em infraestrutura, e tarifas mais baixas, intervenções que demandam forte participação do poder público.

Mas os empresários de ônibus também devem fazer a sua parte.

Tratar o passageiro como cliente (não apenas nos slogans publicitários e em palestras) passa por ações de fidelização, muitas vezes, mas simples que os empresários imaginam.

No painel sobre inovações e soluções, o diretor da Econobuz, Túlio Lima Lessa Carvalho, diz que as cidades onde os empresários têm oferecido bônus e incentivos aos passageiros, acabam registrando resultados interessantes em permanência no transporte coletivo.

A Econobuz é uma plataforma pela qual os passageiros se inscrevem para receber bônus ou premiações.

O sistema deve ser contratado pelo empresário de ônibus e consegue identificar quais as principais ações que devem ser tomadas e para que público.

Por exemplo, quando a necessidade é aumentar a demanda no entrepico, a solução tecnológica pode identificar quais os passageiros do horário de pico e propor descontos na tarifa se a viagem ocorrer na faixa horária de menor movimento.

“Desafios” para os passageiros com promoção, como os 100 primeiros que carregarem o cartão com mais de 30 viagens ganham um desconto, foram outro exemplo citado por Túlio.

A vantagem da plataforma, segundo o diretor da empresa do serviço de tecnologia, é identificar e organizar os dados do sistema para assim, a partir deles, propor formas de fidelização.

Alternativas voltadas à bilhetagem eletrônica, com vistas à ampliação dos meios de pagamento possíveis (como cartões de crédito e débito), já corrigindo os problemas verificados nas primeiras experiências, também foram outro tema na discussão para garantir o acesso e a permanência do passageiro no sistema de transportes.

Adamo Bazani, jornalista especializado em transportes

Comentários

  1. Ligeiro disse:

    Eu não acho que “fidelizar” o passageiro vai resolver o problema da perda de passageiros. Um passageiro é um passageiro, e dependendo da forma que ele é tratado ou da sua necessidade, obviamente ele vai optar pelo modo mais possível, quando não, confortável ao mesmo.

    Antes de tudo, se o empresário do transporte não vê o mesmo como serviço social, então que faça os movimentos para sinalizar aos governos que não quer mais operar desta forma. Quanto menos desinteressados, melhor. Assim os governos podem analisar o melhor caso para o local, do município à região.

    Ofertar um serviço simples qualquer prefeitura pode operar, ainda mais de forma subsidiada e gratuita. O medo dos empresários de perder o mercado influencia nisso – e com isso temos por exemplo a perda da Carris (Porto Alegre).

    O ideal é que na verdade o público também esteja mais a frente de ações pelo transporte, botando sua voz e ações políticas para ter o transporte que almeja. Faz falta mais participação de usuários comuns, não apenas busólogos ou entusiastas da área. Gente comum que quer um transporte melhor e usa.

  2. Paulo Gil disse:

    Amigos, boa noite.

    Agora virou moda colocar culpa na regulação (ok, concordo que é engessado e demais travamentos).

    Porém, ninguém larga a teta.

    Se tá muito regulado, atrasado e engessado, por que apresentaram propostas na licitação de Sampa?

    Simples; por que dá lucro.

    E por que dá lucro?

    Simples também, porque o que roda ou não roda na catraca, paga ou não paga não importa; pois os subsídios custeados com o dinheiro do contribuinte PAGAM A CONTA E LEVAM O LUCRO.

    Queria ver se fosse receita só o que rodasse na catraca; como é com qualquer empresa, se não der lucro quebra.

    E o buzão de Sampa é isso ele sempre dá lucro.

    Como com uma queda de demanda (de e abril de 2018 para abril de 2019, 12,5 milhões de pessoas deixaram de andar de ônibus no Brasil) em Sampa são comprados articuladinhos trucadinhos que rodam batendo latas.

    Nem precisa ter frequentado as aulas da Tia Cotinha, dá lucro e pronto, mas nunca pela catraca.

    Qual empresário, da multinacional ao camelô, se tivesse essa mamata (nas costas do interesse social e pagos com o dinheiro dos contribuintes) teria falido; ninguém.

    É o que ocorre com as empresas de buzão, cai a demanda e compra buzão novo, porque o deles está garantido.

    Assim sendo, com lucro garantido pode deixar tudo como está:

    Linha ziguezague caranguejada, 20 em 20, carro bota, sobreposição, sujeira interna, pilotos mal treinados e sem a mínima capacidade para a função, goteira interna, e todos os problemas que todos conhecem e a maioria deles são antigões.

    Portanto, mais uma PREVISIVELLLLLLLLLLLLLLL do Paulo Gil.

    “Não é a inovação que irá salvar o buzão.

    Só uma coisa salva:

    ATENDER O CLIENTE.

    MAS OS JURÁSSICOS APESAR DA IDADE E DOS CABELOS BRANCOS, AINDA SE FINGEM DE MORTOS.

    Att,

    Paulo Gil

  3. Sabino Matias disse:

    Bom dia infelizmente no Brasil existem alguns que não querem mudar. O serviço de transporte tem tudo para ser o melhor porém o tratamento dado a quem paga e sustenta o serviço não é dos melhores.e preciso acordar. A prioridade é de quem paga.

  4. Rodrigo Zika! disse:

    Em SP e muito complexo por serem vários problemas, o sindicato quer manter cobradores da era jurássica, curiosamente só se importam em empresas de ônibus, porque ex cooperativas estão cagando, claro por interesses, oura coisa não modernizar compra e recarga de BU, seja online, lojas etc, precisa facilitar para o passageiro, mesmo se for usar só cartão de crédito além do BU pra pagar a passagem, e o outro problema e investimento em vias somente para ônibus, começando por corredores, não se buscam parcerias mesmo sendo PPP, sempre ficam enrolando e jogando pro próximo prefeito que vira, tudo isso causa desinteresse do passageiro utilizar, seja a demora no intervalo, trânsito, alguns abandonam porque compram carro, moto ou trocam por transporte sobre trilhos.

  5. Dan disse:

    Chama minha atenção essa parte aqui “o conceito de livre mercado que, se ocorresse pura e simplesmente poderia resultar em excesso de ônibus onde tem demanda e lucro e ausência de atendimento onde não há interesse econômico”

    Nossa, que coisa ruim né, ter excesso de oferta onde tem demanda demais, poxa vida, ninguém ia andar mais em ônibus lotado, que pena, sentiria saudades de pegar o 6451 lotado.

    Ah e sobre a falta de oferta onde não dá lucro, claro que poderia acontecer isso, mas onde empresa grande não quer operar, sempre aparece pessoas querendo prestar serviços, problema é que o preconceito do poder público e da mídia não deixa: Existe mototáxi, biketáxi, carros fretados, vans, micro ônibus. charretes. Tudo pode ser adequar a relação demanda/sustentabilidade financeira. Se não fosse assim, nao existiria apps de carona na Brasilândia (em SP capital) e não teria tantas pessoas de classe C usando Uber pagando viagens curtas de até R$ 10. Nem existiria mototáxi em cidades pequenas do Nordeste ou nas comunidades cariocas.

    Quem tem que decidir o que quer e pode pagar é o individuo, é ele que precisa chegar a tempo no serviço e cansou de esperar 20 minutos por um ônibus lotado só para chegar na estação de Metrô mais próxima. Respeitem o cidadão por favor

Deixe uma resposta