Ônibus movido a gás natural é realidade no exterior, mas mercado nacional apresenta resistência

Publicado em: 29 de julho de 2019

FPT Industrial equipa frota de Pequim com ônibus GNV desde 2013. Foto: Divulgação.

Segundo o presidente da FPT Industrial para a América do Sul, desvalorização na revenda e problemas de distribuição do gás estão entre principais entraves

JESSICA MARQUES

O uso de energia limpa para o transporte coletivo está aquecendo as discussões no mercado de ônibus, no Brasil e no mundo. Entre as opções consideradas, está o uso de GNV (Gás Natural Veicular) ou biometano.

O presidente da FPT Industrial para a América do Sul, Marco Rangel, afirmou ao Diário do Transporte que ônibus movidos a gás natural para o transporte coletivo já são uma realidade no exterior, mas o mercado nacional ainda apresenta resistência.

A desvalorização na revenda e problemas de distribuição do gás natural estão entre os principais entraves para que haja maior aceitação desta aplicação no Brasil.

“Existe uma resistência dos frotistas de ônibus em comprar um veículo puramente a gás, porque depois que usar a primeira vida do ônibus, há o risco de ter que revendê-lo para uma cidade que não tem gás natural, desvalorizando”, afirmou Rangel.

Segundo o executivo da fabricante e vendedora de motorizações para veículos industriais, a partir do momento em que houver distribuição do gás natural em cidades mais distantes, a resistência será menor.

“A produção e distribuição de gás natural ainda é um desafio a ser vencido em nossa matriz energética. Ao longo das últimas décadas a gente vê ondas de esforços do governo para implementar uma solução energética de gás natural, mas sempre acaba esbarrando no fator distribuição”, disse.

Na visão de Rangel, o ônibus movido a GNV ou biometano tem vantagens como ruído mais baixo, eficiência energética e o fato de o combustível ser renovável. Contudo, a tendência do mercado no momento é investir em eletrificação.

“Quando se fala em energia limpa, a tendência é ir para a eletrificação. Ainda assim, parece-nos que o gás natural será o mais adequado para nossa região como solução energética mais eficiente”, disse.

Marco Rangel

Presidente da FPT Industrial para América do Sul, Marco Rangel. Foto: Divulgação.

“No segmento de transporte público, a gente brinca que está voltando ao tempo do bonde e do trólebus. Nós ganhamos um prêmio na Europa com a Iveco, por um ônibus que pode se acoplar à rede e ainda tem baterias”, completou.

Além disso, segundo Rangel, o ônibus parece ser um dos veículos mais fáceis de ser operado com gás natural, em vez de energia elétrica.

“Muito se falava antigamente da limitação na performance, mas hoje em dia não tem mais isso, porque a gente tem os controles adequados. A eletrificação pode acontecer dependendo da equação financeira também, porque infelizmente bateria pesa muito. A gente tem visto testes de ônibus puramente elétricos que limitam a capacidade de transporte”, avaliou o executivo.

ÔNIBUS MOVIDOS A GÁS NATURAL NO EXTERIOR

A FPT Industrial informou ao Diário do Transporte que, apesar de ser uma tecnologia recente no Brasil, os motores GNV já são amplamente utilizados pelos clientes da empresa em vários países ao redor do mundo, como Espanha, Itália, China e Israel, além de França, Holanda e Alemanha – países que mais utilizam esse tipo de tecnologia.

Em Pequim, na China, desde 2013 a fabricante possui ônibus GNV em operação na BPTC, empresa pública de transporte, além de vans na Europa, validando as tecnologias nestes produtos.

Além disso, em 2017, a FPT Industrial entregou 116 unidades dos motores híbridos F1C CNG à empresa pública, para serem utilizados nos ônibus de Pequim.

Segundo a fabricante, os F1C CNG são montados em ônibus urbanos híbridos de 12 metros. A potência máxima é de até 100 kW a 3500 rpm e pertencem a uma série de motores a gás natural reconhecidos no mercado.

Motores FPT F1C

Motores FPT F1C híbridos também foram fornecidos à BPTC. Foto: Divulgação.

Ainda de acordo com a FPT industrial, o desempenho dos motores movidos a gás é o mesmo entregue por um motor a diesel, com emissões menores e próximas de zero quando o uso do propulsor é feito com biometano.

Na América Latina, a fabricante já forneceu mais de 800 motores para a Modasa, fabricante de ônibus urbanos do Peru. No Brasil, por sua vez, a FPT Industrial, em parceria com a Iveco, desenvolveu veículos movidos a GNV que passaram por testes. Entre eles, estão dois Iveco Daily GNV equipados com motor FPT F1C, que pode ser utilizado para o transporte de cargas ou passageiros.

No IAA 2018, em Hannover, na Alemanha, a fabricante também apresentou soluções para vários tipos de combustíveis. Na ocasião, a marca da CNH Industrial levou opções movidas a gás natural e biometano, disponíveis em uma faixa de potência de 136 a 460 cv.

Os motores movidos a gás natural da FPT Industrial têm desempenho equivalente aos movidos a diesel, com baixa emissão de CO2 e baixíssimas emissões de NOx. No ano passado, durante o IAA 2018, a marca apresentou o motor Cursor 13 Gás Natural para aplicações para ônibus”, informou empresa, em nota.

Com um novo cárter de óleo e arranjo frontal projetado especificamente para atender todas as necessidades de aplicações em ônibus, o Cursor 13 Gás Natural entrega uma potência de até 460 cv a 1.900 rpm e torque de até 2.000 Nm a 1.100 rpm, e pode funcionar com GNL (gás natural liquefeito), GNC (gás natural comprimido) ou biometano, segundo a fabricante.

Como os outros motores da FPT Industrial movidos a gás natural, o Cursor 13 Gás Natural usa combustão estequiométrica para gerar energia. O motor também apresenta redução de 98% de emissões de material particulado e de 48% de NOx em comparação com os motores a diesel.

“Sem o uso de Arla 32, a tecnologia da FPT Industrial oferece uma solução mais leve e compacta, permitindo a otimização da carga útil e da disponibilidade de espaço do ônibus. Esse recurso permite que tanques de combustível maiores sejam montados, ampliando assim a variedade de missões”, informou a FPT Industrial, em nota.

“O Cursor 13 Gás Natural é protegido por duas patentes: um controle que possibilita aumentar o desempenho, proteger o motor e o catalisador de três vias contra falha de ignição, e o sistema de gerenciamento de controle de fluxo de ar reativo, uma nova lógica de controle estequiométrico que é aplicada durante as mudanças de marchas. Ela garante fornecimento contínuo de torque quando associado ao câmbio manual automatizado, o que permite desempenho maximizado e a mais rápida mudança de marchas.”

Confira a ficha técnica do Cursor 13 Gás Natural:

Arquitetura: 6 cilindros em linha

Sistema de injeção: multiponto com combustão estequiométrica

Tratamento de ar: Turbocompressor com Wastegate

Válvulas por cilindro (número): 4

Deslocamento (L): 12,9

Diâmetro interno por curso (mm): 135×150

Potência máxima HP (kW) a rpm: 460 (338) a 1.900

Torque máx (Nm a rpm): 2.000 a 1.100

Intervalos de manutenção (Km): Até 90.000

Dimensões L/C/A (/mm): 1.610/1.027/1.178

Peso seco (kg): 1.240

ATS: Catalisador de 3 vias (sem EGR, DPF e SCR)

MOTORES ELÉTRICOS

A FPT Industrial informou ainda que atua no segmento de motores híbridos elétricos no mundo, oferecendo esta opção como forma de energia limpa para aplicações variadas.

“Apresentamos no IAA 2018, a maior feira de transportes do mundo, o conceito e-Powertrain com os novos eixos elétricos, além dos motores F1A Euro VI Step D Diesel e F1C Gás Natural combinados com motores elétricos. Um trem de força movido a células de combustível a hidrogênio, desenvolvido para a IVECO, também foi apresentado como conceito”, ressaltou a FPT Industrial, em nota.

Relembre: https://diariodotransporte.com.br/2018/08/11/iveco-exibe-veiculos-com-tracao-eletrica-e-gnv-na-iaa-2018-em-hanover-alemanha/

MOMENTO IDEAL PARA O GÁS

Apesar de haver uma tendência nacional para a eletrificação no transporte público, Rangel considera que os dias atuais são o momento ideal para investir em gás natural no Brasil, em outros segmentos.

“Esse momento parece ser o mais atrativo do mercado regional sul-americano, não somente no Brasil, mas também na Argentina. Não só pelas reservas [de gás natural] que estão sendo consideradas alternativas ao diesel como também vemos com bons olhos do ponto de vista ambiental”, disse.

“Pensando nesse sentido, o biometano pode ser uma solução interessante para produção do gás de maneira independente, em fazendas, aterros, cidades, em uma escala que possa se viabilizar de forma consistente os produtos que tenham necessidade de energia”, completou.

Segundo Rangel, o fato de o biometano já ser homologado pela ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) facilita a produção do gás de forma independente e, consequentemente, o uso de motores movidos pelo gás natural.

Frente a este cenário, a FPT Industrial criou um gerador de energia movido a biometano. O equipamento foi apresentado na FIEE Smart Future, 30ª Feira Internacional da Indústria Elétrica, Eletrônica, Energia e Automação, um dos mais importantes eventos do setor na América do Sul. O lançamento ao mercado está previsto para 2020.

O gerador GENEF160B BIO movido a biometano, Gás Natural Comprimido e Gás Liquefeito de Petróleo utiliza uma tecnologia de combustão estequiométrica multiponto. Por esse motivo, segundo a empresa, apresenta maior eficiência, menores consumo de combustível, emissões e ruído, comparado aos geradores tradicionais movidos a diesel.

a Gerador de energia FPT GENEF160B BIO - Foto Fábio Augusto Divulgação FPT Industrial.jpg

Gerador GENEF160B BIO movido a biometano, Gás Natural Comprimido e Gás Liquefeito de Petróleo. Foto: Divulgação.

Neste caso, a aplicação é para demandas de energia em aeroportos, bancos, canteiros de obras, hospitais, redes de hotéis, shoppings, plataformas de petróleo e gás, e também o uso doméstico, dentre outras aplicações.

“Os planos da FPT Industrial são de expansão das vendas, ampliação dos negócios em todos os segmentos e maior presença por meio da nova rede de distribuidores. A FPT Industrial produz seus geradores e motores no Brasil e na Argentina e está preparada para atender os diversos requisitos dos mercados latino-americanos”, afirmou o presidente da FPT Industrial para América do Sul, Marco Rangel.

Confira a ficha técnica do gerador, segundo a FPT:

Motor: FPT N60

Cilindrada: 5.9 litros

Potência Máxima [KW]: 130 @ 1.800 rpm

Prime Power [KVA]: 160 @ 1.800 rpm

Número de cilindros: 6

Sistema de injeção: Multiponto Estequiométrica

Aspiração: Turbinado Aftercooler

Combustível: Biometano, CNG e GLP

Alternador: G2R 250 MB/4

Jessica Marques para o Diário do Transporte

Comentários

  1. Antonio carlos palacio disse:

    Ao contrário de outros países, aqui há resistências a qualquer outra alternativa que não seja o diesel.

  2. Rodrigo Zika! disse:

    Bacana a matéria, o problema e que no Brasil os políticos pensam só em se sair bem com as empresas, e pensam somente em votos nas eleições, ou retorno financeiro em propina, ai dificultam qualquer tipo de energia limpa entrar, SP e um exemplo, fora o lobby de encarroçadoras e o diesel, uma vergonha.

    1. Paulo Gil disse:

      Rodrigo Zika, bom dia.

      Concordo com você.

      Mas os representantes do povo, seja lá quem for (vereador, deputado ou senador) têm de exigir que os buzões a gás passem a rodar novamente, nem que seja um por empresa; para chegar como está esta tecnologia HOJE.

      Nesta questão dou ponto para a CMTC; afinal ela era muiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiito mais técnica que a fiscalizadora; pois a CMTC sempre fez testes práticos.

      Só assim saberíamos qual o mistério do buzão a gás nos dias de hoje.

      “Problema técnico, custo, político ou outros”

      A CMTC na questão técnica era atuante, contemporânea e transparente.

      A CMTC era pró buzão e pró interesse público.

      Abçs,

      Paulo Gil

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