OPINIÃO: Investir no transporte

Foto: Alexandre Pelegi

OLMO XAVIER

O modelo utilizado para custear as redes de transporte na grande maioria das cidades brasileiras está ultrapassado. A ancoragem nas receitas arrecadadas com a tarifa paga pelo usuário limita a melhoria do serviço e faz com que qualquer comparação com outras localidades de países da Europa e América do Norte seja, no mínimo, grosseira.

Além do investimento em infraestrutura, ação basilar para garantir fluidez e competitividade aos modos coletivos de mobilidade, os entes federados – prefeituras, estados e união – têm que enfrentar o problema do custo operacional dos sistemas de transporte público, que são maiores que o cidadão comum pode suportar.

Quão melhor o serviço ofertado, maior é seu custo. Essa máxima não pode ser atenuante para acomodações, ao mesmo tempo que desconsidera-la é uma irresponsabilidade. Construir soluções para melhorar a experiência de quem usa transporte de massa em seus deslocamentos diários, tem que ser meta perene de gestores, operadores, técnicos e estudiosos do setor. Contudo, um real upgrade de qualidade transcende a capacidade de planejamento e exige investimentos por parte do poder público.

Madri conta com uma complexa rede de ônibus, metrôs e trens urbanos para atender os mais de 6 milhões de habitantes de sua região metropolitana. Passageiros de todas as classes sociais atestam a boa qualidade do serviço ofertado. O preço básico da passagem é 1,5 euros e equivale a 44% do custo total, algo em torno de 3,4 euros. Convertendo a moeda, podemos afirmar que o passageiro de lá paga menos de R$ 7 por um serviço que custa mais que R$ 15. Essa diferença provém de receitas extra tarifárias, via de regra, subsidiada pelo Estado.

O impacto do custo do transporte público na renda mensal expõe ainda mais esta fratura. Em Paris o preço do bilhete básico é 1,9 euros, enquanto os ganhos ali giram em torno 2.270 euros por pessoa/mês. Considerando duas viagens por dia, o transporte compromete pouco mais de 5% da renda de um parisiense. No Brasil, com esse mesmo padrão de cálculo, essa razão varia entre 10 e 17% a depender do centro urbano. Isso comprova que nossos sistemas de transporte público, além de serem considerados deficientes, são caros para quem usa.

É preciso desmistificar esse tema, encarar a realidade e garantir o incremento de recursos públicos para subsidiar os sistemas de transporte urbano. Atribuir essa tarefa aos reajustes tarifários, é hipocrisia. Investir em mobilidade é fundamental para que as cidades possam se desenvolver em uma esteira racional e sustentável.

Olmo Xavier – Arquiteto, Urbanista e Assessor de Mobilidade Urbana do RedeMob Consórcio/Goiânia 

4 comentários em OPINIÃO: Investir no transporte

  1. William Howard Hossell // 8 de julho de 2019 às 17:15 // Responder

    O espaço aqui é pequeno para o tamanho do problema, mas solução existe, basta que o bom senso esteja em primeiro lugar. Os milhões de cidadãos que todos os dias caminham médias ou longas distâncias por não disporem de recursos para as tarifas praticadas e o que isso certamente implica na qualidade de vida dessas pessoas, afetando a sua saúde além do resultado diário do seu trabalho, estudo, enfim da sua produção, tudo isso e muito mais deveria ser avaliado. Com certeza não existe fórmula mágica nem milagre.

  2. Amigos, boa noite.

    Isto é a coisa mais simples de fazer; arrumar dinheiro para custear a mobilidade e fazer o Barsil decolar.

    BASTA ACABAR COM O DESPERDÍCIO DO DINHEIRO DO CONTRIBUINTE PERSISTENTE HÁ SÉCULOS, que sobra dinheiro para tudo, saúde, mobilidade, educação, segurança pública, empregos e tudo mais.

    Enquanto o desperdício do dinheiro do contribuinte persistir, esquece; nenhuma teoria econômica irá endireitar o Barsil ,muito menos a mobilidade.

    Simples assim,

    Esse desperdício é o que o povo tem de eliminar; caso contrário esquece.

    Att,

    Paulo Gil

  3. Garanto que se não fosse esse atraso, do que era antes, na época dos planos cruzado, Collor, e logo entre 2002 até 2017-Governos corruptos- com certeza teríamos melhorado,,,sai prefeito entra prefeito, sai governador entra governador, sai presidente entra presidente, não há como melhorar cada um quer sua fatia. Exceto alguns lugares em que o gerente sabe administrar e, quando sabe e leva a coisa a sério é tentado a se corromper.

  4. Depois de ler a profundidade dos comentários feitos. fiquei com receio de não alcançar o mesmo nível.
    Assim sendo; Vou refletir um pouco mais sobre as condições que levaram o transporte urbano público
    e privado, nas capitais brasileiras, às ATUAIS condições de desempenho.

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