Poluição afeta mais a quem anda de ônibus em São Paulo do que a usuários de automóveis, aponta estudo da USP

Publicado em: 14 de fevereiro de 2019

Foto: Alexandre Pelegi

Projeto financiado pela Fapes mostra que concentrações de poluentes são mais altas dentro dos ônibus que em outros modos de transportes

ALEXANDRE PELEGI

Andar de ônibus em São Paulo pode fazer mal à saúde.

Pode parecer contraditório, mas esta é a conclusão de um projeto financiado pela Fapesp – Fundação de Amparo à Pesquisa  de São Paulo, que compara níveis de poluição em três regiões metropolitanas: São Paulo, Londres e Roterdã (segunda maior cidade da Holanda).

O estudo comparou o a poluição a que estão sujeitos os usuários de vários modos de transporte (individual e coletivo) em seu trajeto de casa ao trabalho.

Em entrevista à Rádio USP, Maria de Fátima Andrade, professora do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo e participante do projeto, explica que a desigualdade em São Paulo vai além do uso do espaço viário, que antagoniza os que usam automóveis aos que dependem dos ônibus para se locomover na cidade.

Ela mostra que, além do uso do espaço, apropriado de forma desigual pelo usuário do carro, quando o assunto é poluição do ar quem sofre as maiores consequências é quem anda de ônibus.

Segundo Maria de Fátima, passageiros de ônibus que fazem longos trajetos diários estão mais expostos à poluição do que motoristas de carro ou passageiros de metrô. Mais: os usuários do transporte coletivo sobre pneus estão mais expostos à poluição do ar em locais como pontos de ônibus e faixas exclusivas, locais que têm forte concentração de poluição.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o limite de exposição a material particulado é de 20 µg/m3 (micrograma por metro cúbico de ar), índice superado por todas as estações de monitoramento da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb). Algumas chegam próximo a 40 microgramas de material particulado, como é o caso das estações de Osasco, Grajaú e Mauá. Ou seja: as concentrações são mais fortes nas regiões mais periféricas da cidade.

A professora lembra que o tema não é novo, e vem sendo estudado há alguns anos pela Faculdade de Saúde Pública da USP, que participa do projeto atual e tem dados coletados por região e zona da cidade.

Segundo a professora, mais que um diagnóstico, o objetivo principal do projeto é fornecer subsídios para uma reformulação de projetos visando à melhoria do transporte público.

Existem muitos corredores que poderiam se beneficiar com um transporte público mais limpo, locais onde têm muito mais pessoas expostas a fortes concentrações de ar poluído”, diz Maria de Fátima. Ela afirma que a escolha de ônibus mais limpos, como elétricos e híbridos, deveria se guiar por esse tipo de critério. “Não considerar somente o tráfego como uma questão de planejamento, mas levar em consideração a exposição à poluição a que as pessoas estão sujeitas”, afirma a professora.

Ela diz que a escolha da tecnologia do veículo seria definida em função desse parâmetro.

Maria de Fátima aponta que a poluição dentro dos ônibus, principalmente os que não têm ar-condicionado, é percebida como algo ruim pelas pessoas. Essa percepção foi captada pela pesquisa, que observou que as pessoas relacionam a quantidade do tempo que passam dentro do ônibus ao tamanho da exposição a que ficam expostas à poluição do ar que respiram.

Essas concentrações são mais altas dentro dos ônibus que em outros modos de transportes, observa a professora, em especial para alguns poluentes ruins, como o Black Carbon (fuligem do diesel), e são muito prejudiciais para a saúde.

Em resumo, andar de ônibus é prejudicial quanto maior o trajeto da pessoa, ou, o que dá no mesmo, quanto mais longe ela mora do trabalho ou da escola..

Ainda segundo a pesquisa, alguns locais têm maiores concentrações de poluentes por conta de ônibus mais velhos, o que se observa na periferia da cidade, nos limites com outros municípios, onde esses tipos de veículos são tolerados.

Apesar da situação atual, a professora considerou positiva a nova licitação dos ônibus de São Paulo no item que tratou da introdução de ônibus mais limpos, apesar do prazo muito alongado.

Ela destaca, no entanto, que ao realizar 1500 entrevistas para o projeto sentiu que as pessoas percebem já a importância de um transporte mais limpo para a cidade.

Ou seja, ela acredita que com o crescimento da consciência da sociedade, o que será possível com a divulgação de resultados de novas evidências científicas dos riscos que a poluição causa à saúde, a pressão por medidas corretivas será cada vez maior, e os prazos de implantação tendem a ser diminuídos.

O estudo ainda está em andamento, segundo a professora

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

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