Levantamento mostra que usuário do transporte coletivo percorre maiores distâncias e perde mais tempo nos deslocamentos diários

Foto: Adamo Bazani

Dados são do Sistema de Mobilidade Urbana – Simob, da ANTP, referentes a cidades que reúnem 133 milhões de habitantes

ALEXANDRE PELEGI

Quem utiliza transporte coletivo no Brasil percorre uma distância maior e perde mais tempo todos os dias para se deslocar nas cidades.

É o que mostra o Sistema de Mobilidade Urbana – Simob da ANTP – Associação Nacional de Transportes Públicos, que coletou dados de cidades com mais de 60 mil habitantes que, juntas, somam 133 milhões de moradores, cerca de 2/3 da população brasileira.

Segundo o levantamento, esse contingente de pessoas realizou 65,3 bilhões de viagens em 2016, quando classificado apenas o modo principal de locomoção (ônibus, trem, metrô, a pé, bicicleta ou moto).

Dessas 65,3 bilhões viagens realizadas em 2016, 28 bilhões, ou 43% do total, foram as feitas a pé e por bicicleta. Na sequência, aparecem as viagens feitas pelo transporte individual motorizado – carros e motos (19,0 bilhões de viagens, 29%) e, por fim, as realizadas pelo transporte coletivo (18,3 bilhões, 28%).

Apesar de o transporte coletivo representar um número menor de viagens, é nesta forma de deslocamento que as pessoas percorrem as maiores distâncias e perdem mais tempo, principalmente nas cidades maiores.

Nos municípios com mais de um milhão de habitantes, o transporte coletivo é responsável pela maior distância percorrida por seus habitantes em seus deslocamentos diários: 8,1 km por habitante por dia, contra 4,5 km/hab/dia quando o modo escolhido é o transporte individual (carros e motos).

Além de percorrerem maiores distâncias, os usuários do transporte coletivo também perdem mais tempo nos deslocamentos do dia a dia.

O Simob calcula que, no total, usando o ano de 2016 como referência, foram dispendidas 29,9 bilhões de horas nos deslocamentos feitos por todas as pessoas. Aquelas que usaram o transporte coletivo respondem por 45% desse total de horas, enquanto as que se utilizaram do automóvel gastaram quase a metade desse tempo, 23%.

Para o consultor da ANTP e responsável pela montagem do banco de dados, Eduardo Vasconcelos, a conclusão é que o usuário do transporte coletivo acaba sendo o mais penalizado nas grandes cidades.

Para saber mais e de forma geral como foi estruturado o Simob, conversamos com Eduardo Vasconcellos, engenheiro e sociólogo, consultor da ANTP e responsável pela montagem do banco de dados. Assista à parte inicial da entrevista:

DADOS E TABELAS DETALHAM TEMPO E DISTÂNCIAS PERCORRIDAS DIARIAMENTE:

O Sistema de Mobilidade Urbana – Simob foi desenvolvido nos anos 2004 e 2005 pela Associação Nacional de Transportes Público – ANTP, com apoio do BNDES. Estruturado para coletar informações sobre a mobilidade das cidades brasileira com mais de 60 mil habitantes, ele se tornou uma referência para todos aqueles que estudam o tema da mobilidade urbana no país.

Abrangendo dados de cidades que concentram cerca de 2/3 da população brasileira, o Simob traz resultados importantes que detalham não só a forma como as pessoas se locomovem, como os gastos envolvidos e os impactos gerados para a economia e a saúde pública.

Esse contingente humano realizou 65,3 bilhões de viagens em 2016, quando classificado apenas o modo principal de locomoção. Isso porque, como se sabe, todo e qualquer deslocamento é composto geralmente por trechos diferentes: uma pessoa que se utiliza de ônibus para chegar ao trabalho, por exemplo, precisa caminhar até o ponto inicial, e depois caminhar novamente do ponto final até seu destino. Assim, quando se fala em modo principal estamos falando apenas do trecho mais longo do deslocamento, desprezando os trechos menores.

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O interessante é que o Simob detalha as quantidades de como o modo o principal foi utilizado pelas pessoas, e traz que, do total de viagens, as feitas a pé e por bicicleta foram a maioria – 28,0 bilhões, 43% do total. Na sequência vêm as feitas pelo transporte individual motorizado – autos e motocicletas (19,0 bilhões de viagens, 29%), e por fim as realizadas pelo transporte coletivo (18,3 bilhões, 28%).

Este total de 65,3 bilhões de viagens corresponde a uma mobilidade média de 1,63 viagem por habitante por dia. Essa média varia em função do porte da cidade: naquelas com mais de 1 milhão de habitantes, a média é de 1,90; nas cidades menores, entre 60 e 100 mil habitantes, a média cai para 1,34 viagem por habitante por dia. Logo, quanto maior a cidade, maior o número de viagens realizadas.

São números que indicam a necessidade de diferentes olhares em relação às políticas de mobilidade urbana em função do porte do município. Enquanto os municípios maiores possuem maior quantidade de viagens nos modos motorizados – e, portanto, requerem investimentos maiores em infraestrutura e soluções de transporte e trânsito mais sofisticadas –, os municípios menores possuem maior quantidade de viagens a pé e por bicicleta.

DISTÂNCIAS PERCORRIDAS PELAS PESSOAS E TEMPO GASTO NAS VIAGENS DIÁRIAS

As pessoas percorrem, em seus deslocamentos diários, 394 bilhões de quilômetros por ano (cerca de 1,31 bilhão por dia), usando várias formas de deslocamento.

Quando analisamos as distâncias percorridas no modo principal de deslocamento, temos uma nova realidade. Enquanto, como vimos, o transporte coletivo é o modo menos utilizado no total de viagens, com apenas 28% de todos os deslocamentos feitos, ele é aquele que percorre a maior parte das distâncias: 53,5%. Carros e motos, que representam 29% do total de viagens, atendem por 30,8% das distâncias percorridas.

Mais uma vez, o tamanho da cidade altera os dados de forma significativa: nas cidades com mais de um milhão de habitantes o transporte coletivo é responsável pela maior distância percorrida pelas pessoas em seus deslocamentos diários: 8,1 km por habitante por dia, contra 4,5 km/hab/dia quando o modo escolhido é o transporte individual (carros e motos).

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Além de percorrerem maiores distâncias, os usuários do transporte coletivo são aqueles que perdem mais tempo em seus deslocamentos.

O Simob calcula que, no total, usando o ano de 2016 como referência, foram dispendidas 29,9 bilhões de horas nos deslocamentos feitos por todas as pessoas. Aquelas que usaram o transporte coletivo respondem por 45% desse total de horas, enquanto as que se utilizaram do automóvel gastaram quase a metade desse tempo, 23%.

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Resumindo:  o transporte coletivo representa menos de 1/3 do total das viagens, mas em contrapartida responde pela maior distância percorrida e por 45% do total de tempo gasto na mobilidade; o transporte individual representa quase o mesmo total de viagens que o transporte coletivo, mas percorre distâncias bem menores e gasta a metade do tempo.

A conclusão é óbvia: o usuário do transporte coletivo é o mais penalizado nas grandes cidades, apesar de ser bem menos responsável pelo uso dos espaços e pelas consequências negativas causadas pelo excesso de veículos, como acidentes e atropelamentos, além da poluição e seus danos à saúde pública.

Outro dado que podemos extrair do Simob diz respeito ao gasto de energia. O automóvel, que é responsável por apenas 25% do total de viagens, consome 63% do total da energia dispendida na mobilidade urbana. Ao transporte público cabem 33% do consumo de energia.

Mas este é um tema que abordaremos no próximo artigo. O que é inegável é que os dados compilados pelo Simob nos permitem desenhar de maneira clara, transparente e irrefutável as causas dos principais problemas e distorções que acometem a mobilidade nas grandes cidades, além de todos os efeitos negativos que isso provoca em nossa qualidade de vida.

Na próxima semana, em novo artigo, traremos mais dados do Simob, desta vez explorando mais a energia consumida pela mobilidade urbana nas cidades brasileiras.

Alexandre Pelegi, jornalista especializado em transportes

 

1 comentário em Levantamento mostra que usuário do transporte coletivo percorre maiores distâncias e perde mais tempo nos deslocamentos diários

  1. Meio logico isso já que o transporte é pago às empresas por quilômetro rodado, então não se criam linhas diretas e rápidas , já que o interesse não é fazer as pessoas andarem menos até o seu destino.

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