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De A35 para J35, o retorno que revelou o carinho da população pelo Metrô de São Paulo

Trem modernizado chegando à estação para viagem de apresentação Foto: Adamo Bazani

Companhia realizou um evento especial para apresentar a fãs a última composição modernizada da frota pioneira do metrô paulistano

ADAMO BAZANI/ALEXANDRE PELEGI

Em pleno sábado de emenda de feriado, por volta de 12h30, a plataforma da estação Paraíso da linha 02 Verde do Metrô de São Paulo estava com mais gente que o normal para o dia.

Na região onde para o primeiro carro (vagão), a aglomeração era ainda maior.

Passavam os trens, mas ninguém desta pequena multidão entrava.

Admiradores do sistema de metrô de São Paulo. Foto: Adamo Bazani

Todos estavam esperando um em especial: o trem A35, ou melhor, J35, última composição modernizada pelo Metrô de São Paulo, que integrou a primeira frota e começou a circular em 1974.

Quando a estrela do dia chegou, foi recebida por aplausos do público, formado principalmente por fãs de ferrovias. Era a emoção de ver um trem emblemático de volta, de cara nova, e de serem os primeiros passageiros desta história.

Em grande estilo, o trem se despediu em fevereiro deste ano para ser modernizado e se adaptar às exigências operacionais atuais.

Os trabalhos de modernização foram feitos pela Bombardier, mas a fabricação original é da Mafersa, sob licença da empresa norte-americana Budd Company (veja o histórico abaixo).

Ar-condicionado, novos bancos, piso, iluminação, sistema de som, painéis de informação sobre as estações e equipamentos de condução e controle estão entre as novidades. Aos 44 anos, para um passageiro comum, é mais um dos trens que transportam diariamente os cerca de 4,5 milhões de usuários da rede. Mas para os apaixonados, um ícone.

Ao longo do percurso, até a estação Vila Madalena, outros usuários, além dos fãs, foram embarcando.

Primeiros passageiros Foto: Adamo Bazani

O entusiasmo chamava a atenção dos outros passageiros.

Não sabia que existiam pessoas que gostassem tanto de trem. Achei muito legal mesmo. É um pessoal bem entusiasmado” – disse Marilene Teodoro, que embarcou uma estação depois do início da viagem.

Marilene Tedoro, passageira, se surpreendeu com o entusiasmo de fãs de metrô. Foto: Adamo Bazani

“Gostei da festa deste pessoal. E não sabia que estou pegando um trem que é histórico. O Metrô merece essa festa. Tem problemas, mas é um serviço exemplar“, disse a passageira Ana Maria Coelho.

Ana Maria Coelho: Metrô merece essa homenagem Foto: Adamo Bazani

O metroviário Peter Alouche, que participou do início da história da Companhia, ficou emocionado. Engenheiro eletricista com diversos cursos de especialização em transporte público em universidades e entidades do Brasil, Europa e Japão, Peter atuou no Metrô de SP durante 35 anos. Peter falou por telefone com o Diário do Transporte (ele não pode estar hoje na viagem inaugural):

O A35 é a prova cabal de que a renovação e o renascimento glorioso são possíveis, quando a essência é boa. O primeiro carro do Metrô nasceu com muitos cuidados: testes exaustivos de desempenho, circulou por mais de 40 anos, carregando com alegria gente trabalhadora, escolares, homens, mulheres e crianças. Renasce hoje com a missão de continuar a tarefa que tão bem iniciou. Parabéns à equipe competente e séria da manutenção de nosso Metrô”.

Após a viagem de apresentação, o trem foi recolhido. Faltam os últimos ajustes para as operações comerciais definitivas, que devem ter início em breve, mas ainda sem data confirmada.

O entusiasmo dos fãs e funcionários, a admiração dos demais passageiros e o cheirinho como se fosse de “carro novo”, tudo isso fez parte da história de um dia especial pelos trilhos de São Paulo.

Fãs fotografam composição Foto: Adamo Bazani

TREM A35, UM PIONEIRO NA FROTA DO METRÔ DE SÃO PAULO

A série  da qual fazia parte o A35 integrou a primeira frota do Metrô de SP. Os trens foram produzidos entre os anos de 1972 e 1976 na fábrica da Mafersa, no bairro paulistano da Lapa, sob licença da empresa norte-americana The Budd Company, inspirados em modelos de trens norte-americanos.

Passando por testes em 1972, circulando entre o pátio da estação Jabaquara e a estação Saúde – à época a Linha Norte-Sul ainda em obras (hoje chamada de Linha 1-Azul) , apenas em 1974 essas composições entraram em serviço. Para ser mais preciso, isso se deu no dia 14 de setembro de 1974, entre as estações Jabaquara e Vila Mariana. Apenas no ano seguinte a linha 1 seria estendida até a estação Santana.

Por causa da demanda crescente da linha Norte-Sul, a única linha metroviária da capital até então, os 33 trens que compunham a frota receberam o reforço de mais 18 unidades, fabricadas entre 1974 e 1976. As diferenças entre a primeira e segunda geração de produção eram mínimas, com o design interno e externo idênticos.

Esses novos trens passaram a rodar na Linha Leste-Oeste (hoje linha 3-Vermelha), até então sem frota própria, para só então passarem a operar na linha Norte-Sul.

Somente em 2009 o Metrô de SP passou a revitalizar sua frota, levando seus 51 trens para um processo de modernização, efetuados por dois consórcios: Modertrem (Alstom e Siemens), responsável pela modernizarão dos trens da numeração A01 até A25; e o consórcio BTT (Bombardier, Tejofran e Temoinsa), que cuidou de reformar e modernizar os trens de número A26 até A51.

Adamo Bazani e Alexandre Pelegi, jornalistas especializados em transportes

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